A eleição em Nova York e o risco dos ‘resultados’ pautados pelas redes sociais

Zohran Mamdani
Zohran Mamdani venceu a eleição municipal de Nova York. Foto: Facebook/Zohran Mamdani

A eleição do novo prefeito de Nova York cristaliza uma dinâmica central do nosso tempo, a fusão entre política e entretenimento em ambientes digitais, e expõe tanto seu poder de mobilização quanto suas fragilidades estruturais. Zohran Mamdani, aos 34 anos, venceu uma corrida histórica com recorde de participação, tornando-se o primeiro prefeito muçulmano da cidade, derrotando Andrew Cuomo, que migrou para uma candidatura independente após perder a primária democrata, e o republicano Curtis Sliwa.

Sua vitória nasce de uma mensagem clara sobre custo de vida, transporte público, moradia e serviços universais, e de uma engenharia de comunicação afinada com a estética da cultura de plataforma, em que vídeos curtos, linguagem direta e um ecossistema de fãs, creators e microinfluenciadores amplificam alcance e afinidade, principalmente entre os mais jovens. O resultado foi alimentado por uma coalizão diversa e por uma vantagem expressiva entre eleitores com menos de 30 anos, em um pleito que superou 2 milhões de votos, o maior engajamento desde 1969, sinal inequívoco de que a campanha conseguiu transformar atenção em presença na urna.

O desenho da estratégia digital de Mamdani seguiu uma lógica contemporânea, quanto mais distribuída, melhor. Parte relevante do conteúdo não partiu do comitê, mas de uma constelação de perfis que produziram recortes, reações, bastidores e pequenos momentos de proximidade, reforçando a narrativa de autenticidade e de pertencimento. Em vez de apostar só na retórica programática, a campanha traduziu agenda em situações cotidianas, cenas de rua, humor leve e códigos que funcionam em TikTok e Reels, com edição rápida e estética de fã.

Esse arranjo alavancou a sensação de movimento orgânico, fazendo com que apoiadores percebessem a si mesmos como parte do enredo. O efeito foi multiplicador, ajudando a popularizar propostas de tarifa zero em ônibus, expansão de serviços públicos e travas de aluguel, enquanto enquadrava o oponente principal como representante do velho establishment. A própria imprensa especializada notou a arquitetura da viralização e o papel do fandom como ativo político na reta final, um indicativo de quanto a gramática do entretenimento passou a ser componente essencial da disputa eleitoral.

O antagonismo com Donald Trump rendeu também dividendos simbólicos. Mesmo em um pleito municipal, a eleição foi nacionalizada pelos discursos e pela cobertura, o que permitiu a Mamdani ocupar o polo de contraposição geracional e civilizatória, enquanto recolhia votos em áreas da cidade que haviam inclinado para o trumpismo em 2024 e consolidava margens expressivas em bairros mais jovens, negros e hispânicos. A narrativa foi simples, e por isso eficaz, custo de vida em primeiro lugar, cidade para quem trabalha, governo como ferramenta prática. O contraste com a trajetória de Andrew Cuomo, carregada por escândalos passados, reforçou a ideia de mudança e de frescor, catalisando o ímpeto de eleitores que buscavam romper a inércia. Estudos e leituras de boca de urna sublinham esse ponto, com destaque para a vantagem esmagadora entre jovens, além da performance superior nas zonas de menor renda.

Ao mesmo tempo, a campanha não foi um passeio isento de riscos. A dinâmica de viralização trouxe ondas de desinformação, episódios desmentidos e tentativas de colar ao candidato rótulos maximalistas, e a própria contundência do prefeito eleito sobre temas internacionais acendeu críticas. Esse é o lado B do palco digital, a mesma infraestrutura que engaja pode distorcer, e a mesma velocidade que aproxima pode corroer nuances. Ainda assim, o cálculo político foi correto, abraçar a conversa pública em tempo real, responder com clareza, e manter a pauta doméstica como eixo. Nas redes, quem silencia perde, quem repete com consistência tende a ganhar memória. A vitória final, portanto, é tanto um triunfo eleitoral quanto um estudo de caso sobre como operar, sem pedir licença, a cultura do vídeo curto.

Aqui vale uma volta para o Brasil e um paralelo que ajuda a testar os limites dessa estratégia quando ela vira fim em si. Em Sorocaba, o prefeito Rodrigo Manga, que ganhou projeção nacional com forte presença como tiktoker, foi afastado do cargo por 180 dias, alvo de investigações envolvendo contratos da saúde. O enredo ilustra o curto-circuito entre personagem e gestão, quando a persona digital, pensada para manter atenção permanente, invade o espaço da tomada de decisão e suga a energia que deveria ser dedicada a processos, controles e resultados.

A mesma performance que garante manchetes e views pode cultivar uma popularidade frágil, dependente de novidades e de indignações recicladas, e incapaz de sedimentar reputação de bom gestor ao longo do tempo. Sorocaba oferece um aviso, o algoritmo remunera presença e polêmica, mas governo precisa de entregas verificáveis e rotinas que, por definição, não viralizam.

O ponto de contato entre os dois casos, cada um com seu contexto e densidade, está na construção de um personagem que vive nas redes e pauta o noticiário. Em Nova York, esse personagem foi disciplinado por um roteiro de políticas, e por um cronograma de entregas mensuráveis, o que deu substância à estética e converteu energia digital em votos. Em Sorocaba, a persona superou o produto, e a narrativa de influência se sobrepôs ao trabalho de gestão, abrindo espaço para suspeitas, ruídos administrativos e decisões pouco defendidas por evidências. A diferença é que a política de resultados suporta comunicação intensa, a comunicação sem resultados é areia movediça. Popularidade contabilizada em seguidores, curtidas e compartilhamentos é um estoque volátil, evapora diante de crises, perde tração quando a rotina chega, e não sustenta a confiança necessária para atravessar ciclos, negociar prioridades e resolver problemas cotidianos complexos.

A eleição de Nova York deixa uma mensagem clara, redes sociais são uma bolha sedutora, com poder de eleger e de derrubar, e podem empurrar a política para o abismo quando a forma devora o conteúdo. Figuras públicas que deveriam apresentar resultados concretos se perdem no personagem, que exige performance contínua e punição imediata a qualquer nuance. O prefeito eleito de Nova York terá um desafio enorme, transformar carisma digital em política pública que melhora a vida de gente real, sem permitir que a lógica do vídeo substitua a lógica do governo. Uma coisa é ser popular e espirituoso, outra é entregar.

Por fim, um recado direto aos políticos locais, policiem-se diante das redes. Lembrem que muitas vezes vocês estão falando para suas bolhas, para públicos que já concordam, e que reagem a estímulos previsíveis e recompensadores. Governar é contrariar preferências de curto prazo quando o interesse público pede, é negociar com quem discorda, é comunicar sem transformar tudo em espetáculo.

Toda vez que a régua for o engajamento e não o resultado, crescem o risco de tropeço e a possibilidade de humilhação pública. Use as plataformas como ponte, não como palco permanente. Entendam que o algoritmo cobra pedágio em atenção, tempo e discernimento, e que esse pedágio, quando não controlado, custa caro para a cidade. Se a política aceitar a fantasia de que audiência é sinônimo de liderança, a bolha vai estourar, e quem paga a conta é o cidadão que precisa de bons serviços, não de mais um vídeo viral.

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