A Fazenda está à deriva

A Cidade Administrativa
A Cidade Administrativa em BH. Foto: Gil Leonardi/Imprensa MG

A Secretaria de Estado de Fazenda de Minas Gerais vive hoje a maior crise de autoridade, coordenação e responsabilidade administrativa de sua história recente. Nada é mais grave, para um Estado em situação fiscal delicada, do que uma Fazenda incapaz de exercer o papel básico de comando técnico. E nada explica essa situação a não ser a completa ausência de liderança efetiva do atual secretário, Luiz Cláudio Gomes.

Os números oficiais expõem, sem margem para interpretações benevolentes, o fracasso da gestão. O demonstrativo da SRE mostra que a arrecadação acumulada até novembro de 2025 foi de 87,55 bilhões de reais, enquanto o planejado era de 88,45 bilhões. A diferença, de 901 milhões, não é mero ruído estatístico. É o retrato nu de uma secretaria que perdeu capacidade operacional, perdeu quadros e perdeu controle sobre a sua própria missão.

SEF-MG/Reprodução

O quadro é claro. Só três meses superaram a meta. Todos os demais ficaram abaixo do esperado. Esse comportamento repetitivo não é sazonalidade, não é conjuntura, não é acaso. É consequência direta de uma estrutura que deixou de funcionar como sistema, porque deixou de ter direção.

Nenhuma secretaria de Fazenda sobrevive ilesa quando perde seus auditores. Minas está perdendo os seus em ritmo alarmante. Cem auditores do último concurso já pediram exoneração. Oitenta e cinco, entre os aptos a se aposentar, já se retiraram. Outros tantos se preparam para sair. Quando a evasão atinge esse volume, não se trata mais de um problema de reposição de pessoal. É um voto coletivo de desconfiança na gestão da própria secretaria.

E o que faz o secretário diante desse cenário. Segundo relatos amplamente compartilhados dentro da pasta, não oferece liderança, não apresenta estratégia, não propõe solução concreta. Pelo contrário, teria sugerido aos próprios auditores que ampliassem a pressão sobre o governo, mencionando alternativas como greve e entrega coletiva de cargos comissionados.

Não existe precedente em Minas Gerais de um titular da Fazenda agir como se fosse comentarista da sua própria crise, em vez de gestor. Quando o responsável máximo pela pasta reage com impotência e transfere para os servidores a tarefa de criar um choque administrativo, não estamos diante de falta de comando. Estamos diante de renúncia de comando.

A Fazenda sempre foi o coração técnico do Estado. Foi referência nacional pela qualidade de seus quadros, pela precisão das suas projeções, pela firmeza de suas decisões, pela capacidade de orientar governos inteiros. Hoje, essa mesma instituição está reduzida a um corpo sem voz, sem ascendência interna e sem protagonismo externo.

O enfraquecimento da SEF não é apenas um problema corporativo. É um risco concreto para Minas Gerais. Uma arrecadação instável afeta a capacidade de pagamento, afeta a negociação da dívida, afeta a credibilidade junto ao governo federal, afeta a execução de políticas públicas e afeta a previsibilidade do futuro financeiro do Estado.

Estados não quebram de um dia para o outro. Eles quebram quando deixam de medir o que importa, de ouvir quem entende, de respeitar quem carrega a engrenagem da arrecadação, de garantir que a técnica prevaleça sobre a improvisação. Minas está vivendo exatamente esse processo. Não é silencioso. Não é sutil. Está acontecendo diante de todos.

A situação exige responsabilidade, seriedade e capacidade de reconstrução. Nada disso será possível enquanto a Secretaria de Fazenda permanecer sob uma condução que perdeu a confiança interna, perdeu a autoridade técnica e perdeu a capacidade de liderar o Estado em seu momento mais crítico.

Minas precisa de uma Fazenda que funcione. E, para isso, precisa começar pelo óbvio: reconhecer que o problema está no topo.

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