Algoritmos, IA e a política da intensidade

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Passei as últimas semanas dedicada à elaboração de um relatório que analisa conteúdos publicados por políticos e produzidos com inteligência artificial. O objetivo era compreender a linguagem desses vídeos, os códigos visuais mobilizados, a semiótica das cenas e o tipo de narrativa que vinha sendo construída no ambiente digital. Passei horas assistindo a esse tipo de conteúdo no Instagram, observando padrões estéticos, recorrências temáticas e estratégias de engajamento. O que aconteceu em seguida foi algo que você talvez já tenha experimentado: meu algoritmo foi rapidamente tomado por esse tipo de material.

Ao acessar a aba “explorar”, a maior parte das sugestões eram de vídeos de IA com cenas exageradas. Mesmo quando eu retornava ao feed principal, entre os conteúdos que de fato me interessavam, esses vídeos reapareciam de forma insistente. Essa experiência me lembrou algo que pesquisadores vêm apontando há anos: os sistemas de recomendação não apenas distribuem conteúdo, eles ajudam a moldar o ambiente cognitivo em que nos movemos.

Em seu excelente A Era do Capitalismo de Vigilância, a pesquisadora Shoshana Zuboff argumenta que plataformas digitais não apenas mediam comportamento, mas o modelam preditivamente, criando ambientes orientados à modulação de ação futura. O algoritmo, nesse sentido, não é só um filtro neutro. Ele organiza o campo do que percebemos como possível, relevante ou urgente.

Essas mesmas plataformas operam com base em métricas de retenção, compartilhamento e reação emocional. Conteúdos que despertam indignação, medo, entusiasmo ou choque tendem a gerar mais interação e, portanto, mais visibilidade. A lógica algorítmica privilegia a intensidade. Isso significa que a circulação de ideias passa por um sistema que recompensa estímulos fortes e tende a deixar de lado aquilo que é mais lento, mais técnico ou menos chamativo.

A inteligência artificial amplia essa dinâmica. Produzir cenas extremas com adversários caricaturados, situações moralmente escandalosas ou dramatizações de conflitos tornou-se tecnicamente simples e relativamente barato. O “extraordinário” deixa de ser exceção e passa a ser produzido em série. Há muito com o que se preocupar, porque quando essas imagens se repetem em ciclos contínuos de recomendação, nossa referência do que é normal vai se deslocando quase sem que percebamos. O debate público começa a girar em torno de picos emocionais.

E nesse ponto vale citar um trecho de Os Engenheiros do Caos, de Giuliano da Empoli. Ao analisar a ascensão de lideranças nacional-populistas, o autor escreve que, uma vez acostumados às “drogas fortes do nacional-populismo”, é pouco provável que os eleitores voltem a pedir “a camomila dos partidos tradicionais”. A metáfora é precisa porque fala de habituação. Quando o estímulo é sempre intenso, a tendência é exigir algo ainda mais forte na próxima rodada.

Se a visibilidade política passa a depender da produção constante de conteúdo de alta voltagem emocional, a política cotidiana, aquela que envolve estudo técnico de projetos, negociação institucional, formulação de políticas públicas e construção de consensos começa a parecer insuficiente. Ou pior: desinteressante. O problema deixa de ser apenas comunicacional. Ele afeta as prioridades. Parte crescente do tempo, das equipes e dos recursos de mandatos e campanhas é direcionada à disputa por atenção. A estética do impacto ganha centralidade.

Não se trata de afirmar que a política já tenha sido puramente racional ou desprovida de emoção. Emoção sempre foi componente central da mobilização democrática. O que mudou foi a infraestrutura que organiza sua circulação. Em um ambiente mediado por algoritmos e inteligência artificial, a intensidade tende a se tornar padrão.

A advertência de Empoli não é apenas sobre populismo, mas sobre escalada. Uma vez ultrapassados certos limites simbólicos e retóricos, a expectativa pública pode se deslocar para algo novo e, muitas vezes, ainda mais extremo. Quando essa dinâmica encontra uma arquitetura digital que recompensa engajamento, o resultado é um ambiente político permanentemente acelerado.

E aqui cabe extrapolar os perfis políticos Nos últimos dias, imagens de desabamentos em áreas de encostas produzidas por IA foram falsamente atribuídas às fortes chuvas que caíram sobre cidades da Zona da Mata. As cenas reais, absolutamente chocantes,não foram o suficientes.

Minha experiência com o algoritmo foi ilustrativa. Ela revela como a formação de opinião contemporânea ocorre dentro de ecossistemas moldados por incentivos invisíveis. A questão que permanece é como preservar espaços para a “camomila” democrática: a política técnica e deliberativa em um ambiente que recompensa as “drogas fortes” da intensidade contínua.

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