A mulher negra no Brasil é a expressão mais consistente de força social, intelectual e política do país. Em um cenário marcado por desigualdades históricas, elas seguem liderando transformações reais, ocupando espaços antes inacessíveis e mobilizando pautas fundamentais para o desenvolvimento nacional. Hoje, mais de 28% da população brasileira é composta por mulheres negras, segundo o IBGE, e esse grupo tem avançado especialmente na educação: em 2022, mais de 40% das mulheres matriculadas no ensino superior pertenciam a esse segmento. Esses números revelam não apenas um processo de inclusão, mas a determinação de mulheres que se afirmam protagonistas da própria história.
Apesar dos avanços, persistem desafios estruturais. As estatísticas mostram que mulheres negras recebem, em média, menos da metade do rendimento de homens não negros e são minoria em cargos de liderança, especialmente nos setores público e privado de maior prestígio. No entanto, esses indicadores não refletem fraqueza, mas sim a distância que já foi percorrida e a força de quem segue avançando com competência, insistência e visão. A trajetória dessas mulheres não cabe na narrativa de vitimização; ela se sustenta no trabalho, na intelectualidade e na capacidade de superar limites impostos por séculos de exclusão.
Nos últimos anos, o país testemunhou um movimento crescente de organização e mobilização conduzido por mulheres negras. Um exemplo recente foi a Marcha das Mulheres Negras, realizada há poucos dias em Brasília. Milhares de mulheres, vindas de todas as regiões, ocuparam a capital federal para reafirmar seu protagonismo político, denunciar desigualdades e celebrar conquistas coletivas. O ato foi marcado pela altivez e pela maturidade política de mulheres que compreendem seu papel na sociedade e se veem como agentes de transformação, não como personagens secundárias da história nacional.
Entre tantas referências, poucas são tão simbólicas para o Brasil quanto Antonieta de Barros (1901–1952). Filha de ex-escravizados, ela se tornou jornalista, professora, escritora e a primeira mulher negra a exercer um mandato popular no Brasil. Sua trajetória revela como a determinação individual pode romper barreiras impostas pela estrutura social do país. Antonieta defendia a educação como instrumento de emancipação e acreditava na força transformadora do conhecimento. Criou o Curso Particular Antonieta de Barros, dedicado à alfabetização de adultos de baixa renda, publicou o livro Farrapos de Ideias e destinou a renda inicial da obra à construção de uma escola e abrigo para crianças.
Seu maior legado institucional foi a criação da Lei nº 145/1948, responsável por instituir o Dia do Professor em Santa Catarina – norma que se tornaria referência nacional e seria adotada oficialmente em 1963. A iniciativa, inédita naquele período, demonstra como Antonieta compreendia a centralidade da educação para o desenvolvimento do país. Além disso, sua atuação parlamentar e intelectual serviu de inspiração para gerações posteriores, fortalecendo o movimento negro e contribuindo para debates essenciais sobre igualdade, cidadania e democracia. Antonieta nunca se colocou como vítima; sua vida é uma demonstração clara de protagonismo, estratégia e coragem política.
O exemplo de Antonieta encontra ecos na vida de milhares de mulheres negras que hoje ocupam espaços nas universidades, no empreendedorismo, na política, na ciência, no Judiciário e na educação básica, onde já são maioria entre os docentes. É também entre elas que surge o grupo que mais cresce em iniciativas de empreendedorismo, especialmente nos pequenos negócios, segundo o SEBRAE. Esses avanços mostram uma mudança significativa na estrutura social brasileira, impulsionada pela inteligência, organização e capacidade de liderança dessas mulheres.
A marcha realizada em Brasília reforçou que o Brasil está diante de um dos mais importantes movimentos contemporâneos de afirmação política. Mulheres negras têm pautado temas urgentes como violência, saúde, educação, mobilidade urbana, democracia e participação. São elas que sustentam, com serenidade e firmeza, a defesa de direitos que beneficiam toda a sociedade brasileira.
A história mostra que não há desenvolvimento possível sem reconhecer o papel central da mulher negra na construção do país. Não se trata de assistencialismo, mas de realidade: são elas que, mesmo diante de múltiplas barreiras, seguem sendo a espinha dorsal de muitos avanços sociais. A trajetória de Antonieta de Barros e a força demonstrada nas ruas de Brasília revelam que o futuro do Brasil passa, necessariamente, pelo protagonismo dessas mulheres que, com coragem, inteligência e persistência, continuam a transformar vidas e abrir caminhos para as próximas gerações.