Os economistas sempre estiveram certos

Foto: Alberto Lage

BH. Esse é o meu lugar. Eu te amo e quero mais. É pra frente que se anda. Belo Horizonte faz aniversário hoje em 12 de dezembro celebrando uma virtude rara no Brasil, e que a própria cidade parece ter esquecido. A capital de todos os mineiros nasceu planejada, nasceu moderna e, contra todas as probabilidades tropicais, nasceu no prazo. A capital mineira não é apenas uma cidade bonita encaixada entre montanhas, é uma ideia materializada em ruas largas, quarteirões racionais e um gesto político ousado para o fim do século XIX. Belo Horizonte precisa ser um daqueles lugares em que o Brasil parece ter dado certo antes da hora, mesmo quando deu certo por motivos menos nobres do que gostamos de admitir.

A história é conhecida, mas raramente contada por inteiro. No brasão, além da coroa mural de ouro de cinco torres, está escrito que começou em 17 de dezembro de 1893 a transferência da capital de Minas Gerais. A lei não apenas escolheu o local como impôs um prazo máximo de quatro anos para a transferência definitiva do governo. Não era sugestão, era obrigação. Se a nova capital não estivesse pronta até dezembro de 1897, o projeto simplesmente ficaria juridicamente inviável sem uma nova manobra legislativa. Resultado: Belo Horizonte foi inaugurada em 12 de dezembro de 1897, cinco dias antes do prazo fatal, ainda inacabada, ainda cheia de terrenos vazios, mas formalmente entregue.

Muitas coisas importantes começaram e terminaram em dezembro, outubro e agosto. Eu sou uma das poucas pessoas da minha própria bolha cuja avó nasceu em Belo Horizonte. Parte disso é porque minha mãe é mais jovem e mais bonita que a dos outros, mas também é porque os Lage são apressados. Dizem que algumas características são heranças matrilineares. Quando eu conseguir chegar aos pés das duas eu começo a concordar.

Há um desconforto silencioso em Belo Horizonte, a cidade que nasceu moderna e parece ter esquecido disso no meio do caminho. O piloto anuncia tempo “bão” na aproximação de Confins e a mineiridade, que já foi vanguarda política e intelectual, encolhe até virar souvenir. A rota entre o Aeroporto e Inhotim sequer passa pela capital, mas damos graças a Deus que o turista não nos pede pra ir à Pampulha, a lagoa sem orla. O estado que conspirou a independência, trocou cartas com Thomas Jefferson e produziu elites que pensavam o Brasil antes de o Brasil existir, hoje se orgulha de camiseta com “arreda” e uma bandeira municipal que perdeu no plebiscito para não desagradar ninguém. É uma gente que diz que Clube da Esquina é melhor que Beatles, pois são fracassados que acham que precisam diminuir os outros para serem grandes. Eles não são amigos da Antônia Leite Barbosa e não puderam ir com ela na área vip do Paul McCartney junto com o Bituca e o Lô. Obrigado, além dela, João, Renan, Eduardo e Renato. Precisei de cariocas para entender Minas, pois a vanguarda mineira, quando aparece, vem com cara de jeca resignado, como se ousadia fosse falta de educação e se fôssemos todos apenas comedores de queijo. Do reino. Com casca. Belo Horizonte nasceu para ser projeto, virou costume e passou a confundir identidade com apego ao atraso e capivara de pelúcia. Se até os nossos vanguardistas desistiram de liderar, sobra a pergunta incômoda: o que nos resta?

Eu costumo transformar a anedota em piada e dizer que Belo Horizonte foi a única obra pública brasileira entregue antes do prazo. O riso é compreensível, mas ele esconde a parte mais interessante da história. Não houve milagre administrativo, não houve súbito surto de virtude republicana, não houve iluminação técnica coletiva. Houve risco. Risco real, mensurável, incontornável. O atraso não significaria apenas um puxão de orelha político ou uma manchete ruim de quem fosse o Lucas Ragazzi da época, significaria violar a Constituição estadual e colocar em xeque todo o projeto da nova capital. O Ricardo Kertzman de 1897, mesmo se fosse elegante como é o de hoje, não teria o que defender.

Quando o custo do atraso ficou alto o suficiente, o comportamento mudou. As obras aceleraram, decisões foram tomadas, concessões foram feitas, a cidade foi inaugurada mesmo sem estar pronta porque pronta, naquele contexto, significava existente. Não é uma fábula sobre eficiência pública, é uma história pedagógica sobre incentivos.

Isso incomoda porque desmonta uma das narrativas favoritas da política brasileira, a de que tudo depende de vontade, liderança ou discurso. Belo Horizonte não nasceu no prazo porque seus dirigentes eram melhores seres humanos, nasceu porque o desenho institucional não permitia o atraso. O atraso tinha consequência clara, imediata e inescapável. Quando o custo de errar supera o custo de fazer, fazer acontece.

É exatamente aí que entram os economistas, essas criaturas desagradáveis que insistem em estragar conversas bonitas com gráficos, cláusulas e regras. Eles repetem há décadas que boas intenções importam menos do que estruturas bem desenhadas, que sistemas produzem comportamentos, que pessoas respondem a incentivos. A política adora fingir que isso não é verdade, até o dia em que precisa cumprir prazo ou perder tudo.

Belo Horizonte, com suas avenidas largas e suas datas assimétricas no brasão-bandeira, é um monumento involuntário. A cidade é prova concreta de que, quando a regra é clara e a punição é crível, até obra pública anda. É um lembrete, como disse meu amigo Gabriel Brasil, de que a economia tem a resposta para todos os problemas da sociedade. Políticos, quem diria, respondem a incentivos. As pessoas só não estão interessadas nos economistas porque às vezes eles fazem por merecer.

A propósito, Belo Horizonte é a cidade e B.H. é a sigla. “Beagá” não existe. Esse é um raciocínio que um ogro escreveu em caligrafia impecável e eu tive que adotar. Heartbreaking: The Worst Person I Know Made a Great Point.

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