O dilema das prefeituras: falta de técnicos qualificados, gestão sobrecarregada e entregas comprometidas

Foto: Montagem

As administrações municipais no Brasil vivem um paradoxo que se repete de Norte a Sul: a ponta do serviço público, que é a mais próxima do cidadão, é também a mais pressionada por urgências, cobrança imediata e carência estrutural de capacidade de gestão. Prefeitos assumem com a expectativa legítima de “fazer acontecer”, mas esbarram rapidamente em obstáculos silenciosos e determinantes: a dificuldade de lidar com processos, do mais simples ao mais complexo, em máquinas públicas que muitas vezes não foram desenhadas para entregar com velocidade, consistência e previsibilidade.

Quando a engrenagem processual falha, o resultado não aparece. É nesse ponto que a escassez de mão de obra qualificada deixa de ser apenas um diagnóstico e vira a principal trava do país, porque ela não afeta apenas a execução, ela destrói a capacidade de planejar, priorizar, contratar, fiscalizar, prestar contas, avaliar impacto e sustentar resultados ao longo do tempo.

Processo, no setor público municipal, é a estrada por onde passa tudo: compra de material escolar, manutenção de frota, contratação de médicos, licitação de merenda, obras, convênios, repasses, emendas, contratos de tecnologia, regularização fundiária, concessões, fiscalização, folha, controle interno, transparência. Quando essa estrada é cheia de buracos, as equipes se defendem com improviso, e improviso vira rotina.

O problema é que improviso não escala, não se sustenta, não produz entrega consistente, e cria um ambiente no qual as pessoas mais competentes são puxadas para apagar incêndios, em vez de desenhar soluções. A ponta sente, e o gestor também, porque o prefeito é cobrado pelo resultado final, mesmo quando a falha ocorreu no encadeamento interno de tarefas, responsabilidades, prazos e validações. Em muitos municípios, faltam quadros com domínio prático de compras públicas, gestão de contratos, planejamento orçamentário, contabilidade aplicada ao setor público, engenharia de custos, gestão de projetos, desenho de fluxos, dados e indicadores. E quando existe alguém com essa competência, frequentemente está sobrecarregado, isolado, ou atravessado por decisões que chegam tarde, incompletas ou sem critérios claros.

Há ainda um elemento pouco dito, mas muito presente: a administração municipal não sofre apenas com falta de gente qualificada, ela sofre com a falta de pessoal, com a rotatividade, com o ciclo político, e com a substituição de equipes em massa. Muda o comando, muda o método, muda a prioridade, muda o padrão de cobrança, e o que estava andando recomeça. Só que “depois” custa caro, porque a ausência do básico é o que alimenta o caos. E o caos, por sua vez, consome o tempo da liderança e contamina a cultura, porque a equipe entende que o sistema não recompensa o planejamento, e sim a urgência. O prefeito vira refém do curto prazo, e o curto prazo vira o modelo de gestão.

A realidade do campo: processos travados e medo da decisão

Na minha curta experiência como consultor em gestão para municípios, o que mais chama atenção é como processos elementares estão travando a máquina por motivos que não deveriam existir. Vejo casos recorrentes de rotinas simples que não andam porque ninguém “segura” o processo do começo ao fim, e a prefeitura vai perdendo o fio da meada entre pedidos, pareceres, idas e vindas, e prazos que vencem sem dono claro. Também tenho acompanhado licitações relativamente simples emperradas por um fator humano decisivo: o medo do gestor de assinar, muitas vezes por insegurança técnica, receio de questionamento futuro, ou falta de respaldo institucional sobre o que é decisão correta e bem documentada.

Nesse cenário, a relação entre prefeito, secretariado e gestores se torna decisiva. A tentação mais comum é centralizar: o prefeito tenta acompanhar tudo, assina tudo, opina em tudo, e aí não consegue fazer bem nem a estratégia nem a execução. Outra armadilha é delegar sem governança, isto é, distribuir responsabilidade sem acordos de metas, sem ritos de acompanhamento, sem critérios de priorização, sem clareza sobre quem decide o quê. Em ambos os casos, o problema aparece do mesmo jeito: falta de previsibilidade, decisões reativas, disputas internas por atenção, e uma sensação de que nada termina. A entrega pública, para existir, precisa de um encadeamento simples e repetível: definir prioridades com poucas metas claras, traduzir metas em projetos, transformar projetos em contratos e rotinas, garantir execução com controle de prazos e qualidade, e medir resultado com indicadores que façam sentido para o cidadão. Parece óbvio, mas não é trivial, porque exige método, disciplina e time.

A perda da narrativa e a arena de expectativas

A dificuldade de gerar resultados concretos é o ponto onde muitos governos municipais perdem a narrativa, e muitas vezes perdem a eleição. O cidadão pode até tolerar um atraso pontual, mas dificilmente tolera a sensação de que a cidade está sem direção, ou que as promessas viraram apenas postagem. E aqui entra um dos maiores desafios contemporâneos do prefeito: ele não governa apenas a cidade, ele governa também uma arena permanente de expectativas. A política cotidiana cobra presença, articulação com câmara, base, oposição, lideranças comunitárias, setor produtivo, imprensa, órgãos de controle, e ainda cobra resposta imediata a cada crise, cada chuva, cada greve, cada vídeo viral. Além disso, as redes sociais alteraram a natureza do tempo na política. A agenda do prefeito é empurrada para o presente contínuo, e isso cria um conflito direto com a lógica dos processos administrativos, que precisam de prazo, evidência, validação, contrato, execução, fiscalização, medição. Quando o prefeito passa o dia reagindo, a prefeitura passa o mês patinando. E quando a prefeitura patina, o prefeito reage ainda mais. Esse ciclo é corrosivo.

Por isso, falar de gestão do tempo e de agenda não é perfumaria. Prefeitos que conseguem entregar, quase sempre, criam uma arquitetura simples de comando: blocos fixos de agenda para gestão interna, ritos semanais com secretariado, reuniões objetivas por área, com pauta, decisão e encaminhamento, e um modelo de acompanhamento que não depende do prefeito estar em todas as salas. Eles protegem tempo para priorização, e protegem tempo para destravar processos críticos.

O papel das consultorias e a estruturação da capacidade interna

Nesse contexto, veículos e consultorias têm se destacado porque preencheram uma lacuna real: a falta de capacidade operacional e metodológica em muitos municípios. Quando atuam com seriedade, não substituem o gestor público; elas estruturam método, ampliam repertório e aceleram a entrega. Ajuda concreta pode significar montar um escritório de projetos, desenhar fluxos de compras e contratos, implantar painéis de metas, capacitar secretarias em gestão de contratos e fiscalização, organizar carteira de projetos para captação de recursos, estruturar comunicação pública com foco em transparência e prestação de contas, e até apoiar planejamento de curto, médio e longo prazo de forma integrada. Os melhores exemplos não são aqueles que vendem “solução mágica”, mas os que ajudam o município a criar capacidade interna, com processos replicáveis e equipe treinada para continuar depois. Em outras palavras, tiram a gestão do improviso e colocam no trilho da rotina bem desenhada.

A liderança que cria condições para entrega

Por fim, é preciso dizer que a sensibilidade e a responsabilidade do gestor público se revelam justamente na capacidade de fazer o básico com qualidade e constância, e de sustentar uma visão de futuro mesmo com a pressão do presente. O prefeito que entende isso não terceiriza a liderança; ele lidera criando condições para que a equipe entregue. Ele investe em pessoas, protege a técnica, valoriza o servidor, e cria uma cultura de compromisso com resultados concretos, aqueles que mudam a vida do cidadão de forma perceptível, e que resistem ao calendário eleitoral. Quando a administração municipal aprende a lidar com seus processos, ela para de sobreviver e começa a governar. E quando começa a governar, o país destrava por baixo, cidade por cidade, com um Estado que funciona, que respeita o tempo do cidadão, e que entrega o que promete.

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