A Polícia Federal (PF) aponta que o deputado federal Euclydes Pettersen (Republicanos-MG) teve participação na promoção de programas públicos usados como fachada para a obtenção irregular de dados pessoais de beneficiários do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), informações que alimentaram o esquema de descontos não autorizados em aposentadorias e pensões investigado na Operação Sem Desconto.
Segundo relatório da PF enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF), revelado inicialmente pelo Uol e também obtido por O Fator, os programas “Mais Pecuária Brasil” e “Mais Previdência”, vinculados à Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais (Conafer), ajudaram a sustentar o fluxo de recursos da fraude, que envolveu mais de 600 mil vítimas em todo o país.
De acordo com o relatório, os programas foram amplamente divulgados junto a prefeituras e cooperativas, com apoio político de parlamentares e lideranças rurais. A análise da PF mostra que Pettersen aparecia ligado institucionalmente a essas ações, o que conferia legitimidade política à captação de cadastros de segurados, dados que depois eram utilizados para processar autorizações falsas de desconto em benefícios.
“A obtenção fraudulenta de bases de dados através dos programas (‘Mais Pecuária’ e ‘Mais Previdência’) era essencial para manter o fluxo de recursos, o qual totalizou R$ 708.036.673,68. O destino final desse capital não era o associado, mas sim o escoamento imediato para empresas de fachada dos operadores financeiros (Cícero/Samuel) e, subsequentemente, o pagamento de propina aos agentes públicos de alto escalão do INSS e ao Deputado Federal Euclydes Pettersen”, mostra trecho do documento da PF.
Entre os materiais apreendidos nos celulares dos investigados, a Polícia Federal encontrou imagens promocionais do programa “Mais Pecuária Brasil” com a presença de Euclydes Pettersen e o presidente da Conafer, Carlos Roberto Ferreira Lopes. Segundo os investigadores, o uso das fotos em campanhas públicas ajudava a reforçar a credibilidade das ações e facilitar a obtenção dos cadastros municipais que serviram à fraude.
A PF aponta, ainda, que Pettersen “vendia um suposto acesso” ao senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG) como parte de sua atuação política no esquema, mas a própria polícia conclui que “não há provas de que Pacheco tivesse conhecimento desse arranjo ou que tenha efetivamente facilitado qualquer nomeação” dentro do INSS.
O relatório cita ainda que, no dia 1º de fevereiro de 2023, data da posse dos parlamentares para a atual legislatura, Carlos Roberto enviou mensagem à esposa, Bruna Braz de Souza Santos, informando que “Pacheco foi eleito” e que iria “encontrar com eles” para decidir “o presidente do INSS”. Pelo documento, não há como apontar a correlação dos fatos. Um dia depois, Glauco André Fonseca Wamburg foi nomeado para o comando da autarquia. Dias depois, outro aliado do grupo, André Fidelis, assumiu o cargo de diretor de Benefícios e Relacionamento.
A PF conclui que Euclydes Pettersen era o agente político responsável por abrir portas e dar cobertura institucional à Conafer, compondo o elo entre a articulação pública e as estruturas operacionais da organização criminosa. “Os pagamentos indevidos aos agentes do INSS eram recorrentes, mas o deputado federal era a pessoa mais bem paga na lista de propina, pois tinha o papel de garantir a fluidez política e o acesso a cargos-chave da administração pública”, afirma o relatório.
Fraudes e ocultação de recursos
A investigação policial afirma que o deputado recebeu pelo menos R$ 14,7 milhões em propinas, valores que foram fracionados e ocultados por meio de uma rede de empresas de fachada registradas em sua base eleitoral, no interior de Minas Gerais, entre elas a Fortuna Loterias e a Construtora VLH. A prática, conhecida como smurfing, buscava disfarçar a origem ilícita dos recursos.
Segundo a PF, o dinheiro público proveniente dos convênios do INSS com a Conafer, que alcançou R$ 708 milhões, seguia um fluxo que começava nos descontos indevidos, passava por empresas controladas por operadores financeiros (como Cícero e Samuel), e terminava em repasses a servidores do INSS e a políticos que garantiam a manutenção do esquema, entre eles Pettersen. A instituição conclui que o deputado “atuava de forma contínua e estratégica na promoção e blindagem do esquema criminoso”.
Na primeira etapa da operação, deflagrada em novembro de 2025, quando houve mandados de busca e apreensão contra o parlamentar, a PF já havia descrito Pettersen como figura central da estrutura de propinas da Conafer, identificado pelo apelido “Herói E” nas planilhas apreendidas. O novo relatório, contudo, aprofundou as provas sobre seu papel político e a conexão entre suas atividades públicas e a captação de dados por meio dos programas usados como fachada.
Outro lado
Procurada, a assessoria do deputado afirmou que “sobre esse tema, o deputado já se manifestou publicamente de forma oficial, inclusive da Tribuna da Câmara dos Deputados. Não há fato novo que justifique nova manifestação à imprensa neste momento. O parlamentar reafirma sua inocência e sua tranquilidade quanto ao esclarecimento dos fatos pelas vias próprias. Além disso, em respeito ao sigilo decretado nas investigações e ao seu regular andamento, não fará comentários adicionais sobre o caso”.
Em nota divulgada à imprensa após a operação em novembro, o deputado do Republicanos afirmou estar “à inteira disposição” das autoridades para prestar esclarecimentos. “Reitero que toda operação representa, para alguns, um fim, e para outros, uma libertação. Já fui alvo de duas operações: em uma delas, fui absolvido, e na outra, o Judiciário sequer recebeu a denúncia, por falta de provas que comprovassem qualquer prática criminosa”, declarou.
“Deixo claro que apoio integralmente o trabalho das autoridades competentes e me coloco à inteira disposição para prestar todos os esclarecimentos necessários. Acredito na justiça, na verdade e na importância das investigações sérias, conduzidas dentro da legalidade e com total transparência”, completou o parlamentar, que nega ter cometido irregularidades.