A Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) suspendeu a divulgação e a obrigação de cumprimento dos investimentos oficiais para o ciclo 2026-2030, retirando do radar do mercado o plano de R$ 21 bilhões anunciado no início do ano.
O chamado “período de silêncio” funciona como uma blindagem jurídica para a estatal às vésperas de sua privatização, evitando que projeções futuras interfiram na precificação dos ativos e desobrigando o próximo controlador de manter compromissos firmados pela gestão atual.
O montante havia sido divulgado no início deste ano como o maior plano de investimentos da história da companhia e incluía obras de expansão e modernização do saneamento em Minas Gerais. A expectativa é a de que a desestatização da Copasa seja concluída até o mês que vem.
A interrupção dos anúncios foi comunicada aos acionistas por meio de Fato Relevante divulgado na noite de quinta-feira (12). No documento, a empresa também afirma que “as projeções anteriormente divulgadas deixam de ser válidas a partir desta data”.
Segundo a Copasa, a medida foi adotada para adequar a política de divulgação de projeções às orientações de consultores externos envolvidos na preparação de uma potencial oferta pública de distribuição secundária de ações. A operação faz parte da estratégia do governo de Minas Gerais para vender a participação na empresa no processo de desestatização.
Por que suspender?
A suspensão de projeções é uma prática recomendada por analistas quando empresas entram em processos de venda ou grandes operações no mercado de capitais. A retirada de metas públicas evita que estimativas oficiais influenciem a precificação das ações e permite que investidores façam sua própria avaliação sobre o valor da companhia. E mais: evita que anúncios feitos por um controlador tenha que ser mantido por outro.
Na prática, a medida também funciona como um “alinhamento de expectativas”, já que reduz referências públicas enquanto investidores analisam dados financeiros e operacionais da empresa antes de uma eventual oferta de ações. Ou seja, a desobrigação de realizar o plano faz com que o mercado enxergue a Copasa como ela é hoje e não como ela seria no futuro, com os investimentos. Também funciona como uma espécie de “blindagem jurídica”.
Oferta pública secundária
O governo estadual é o controlador da Copasa e possui cerca de 50,03% das ações da companhia. No modelo de oferta pública secundária, o Estado coloca no mercado parte ou a totalidade das ações que possui e os recursos arrecadados vão para o próprio governo, sem entrada direta de dinheiro no caixa da empresa.
A figura do parceiro de referência é comum em processos de privatização realizados por meio do mercado de capitais. Trata-se de um investidor ou grupo de investidores que adquire uma participação relevante na empresa e passa a ter influência na gestão e na definição da estratégia do negócio. Esse investidor funciona como um novo núcleo de referência para o mercado após a redução ou saída do Estado do controle da companhia.
Propag
Os recursos obtidos com a venda das ações devem ser destinados ao pagamento das contrapartidas exigidas pelo Programa de Pagamento da Dívida dos Estados (Propag), mecanismo criado para renegociar os débitos dos estados com a União. Nesse modelo, parte do dinheiro arrecadado com privatizações ou venda de ativos pode ser utilizada para reduzir o estoque da dívida estadual ou nas contrapartidas do Propag.
O que previa o programa de investimentos
O programa de investimentos divulgado pela companhia previa R$ 3,1 bilhões em aportes em 2026 e R$ 3,9 bilhões em 2027. Em 2028, o valor estimado subiria para R$ 4,5 bilhões. Os recursos seriam direcionados principalmente à ampliação do esgotamento sanitário, à segurança hídrica e à redução de perdas no sistema.
As metas estavam alinhadas às exigências do Novo Marco do Saneamento, que determina que até 2033 99% da população deve ter acesso à água tratada e 90% ao esgoto coletado e tratado.
Nos municípios atendidos pela Copasa, a cobertura de esgotamento sanitário passou de cerca de 70% para mais de 78,4% nos últimos anos. No abastecimento de água, o índice já supera 99,6% da população atendida, conforme informado pela companhia.