Prefeito de Divinópolis avisou MPMG em 2025 sobre ‘fatos estranhos’ em pasta de ex-secretário preso nesta semana

Gleidson Azevedo (Novo) protocolou notícia de fato sobre ‘desorganização administrativa’ e suspeita de desvios de insumo asfáltico
O prefeito de Divinópolis, Gleidson Azevedo
O prefeito de Divinópolis, Gleidson Azevedo (Novo). Foto: Divulgação/Prefeitura

O que começou como “rádio peão” nos corredores da Prefeitura de Divinópolis, no Centro-Oeste de Minas Gerais, acabou deflagrando uma investigação sobre contratos de mais de R$ 37 milhões e suposto pagamento de pelo menos R$ 2 milhões em propina. Suspeitas de desvio de materiais destinados a intervenções asfálticas também ajudaram a embasar as suspeitas.

Documentos obtidos por O Fator mostram que as denúncias encaminhadas pelo prefeito Gleidson Azevedo (Novo) ao Ministério Público estadual (MPMG) há exatamente um ano, em 13 de março de 2025, tiveram origem em relatos de servidores sobre “fatos estranhos” ocorridos na Secretaria Municipal de Operações e Serviços Urbanos (Semsur) e deram início à apuração que culminou, nessa quinta-feira (12), na prisão preventiva do ex-chefe da pasta, Gustavo Mendes, de um servidor público e de dois empresários durante a operação “Ghost Machine”.

No material encaminhado ao MPMG, Gleidson narra ter ouvido, entre o fim de 2024 e o início do ano seguinte, relatos sobre uma suposta “desorganização administrativa” na Secretaria de Operações e Serviços Urbanos. À Promotoria do Patrimônio Público de Divinópolis, o prefeito contou ter nomeado uma “pessoa de confiança” para uma diretoria da pasta a fim de averiguar a existência de problemas.

Desvio de asfalto

Ao mesmo tempo, outro foco de atenção surgiu na usina de asfalto do município, usada para abastecer as operações de tapa-buracos.

Segundo o relato encaminhado ao Ministério Público, a estrutura apresentava falhas recorrentes sempre que a prefeitura tentava acelerar os serviços, o que levou o prefeito a discutir com o corpo técnico a possibilidade de transferir a gestão da usina para a Empresa Municipal de Obras Públicas e Serviços (Emop), que já executava a aplicação do tapa-buracos. A prefeitura firmou convênio com a estatal e encaminhou projeto de lei à Câmara para autorizar a cessão.

Foi nesse processo que surgiu um dos pontos centrais das suspeitas. O prefeito designou um servidor de seu gabinete para acompanhar as rotas de tapa-buracos e a produção da usina. Após algumas semanas, o funcionário relatou que caminhões que não pertenciam ao município e, segundo ele, também não prestavam serviços à prefeitura, chegavam ao local para carregamento de material público. A prática foi proibida.

Na sequência, um operador informou ao servidor que aqueles veículos e outros também carregavam material com frequência na usina.

“Gustavo foi questionado sobre tais caminhões e informou que havia uma troca de produtos com essa empresa. Quando a usina de asfalto não funcionava, ele pegava asfalto com as empresas e posteriormente as empresas buscavam a mesma quantidade de asfalto na usina. Em razão dos murmurinhos e da desorganização administrativa na secretaria foi tomada a decisão de trocar o secretário da Semsur”, escreveu o irmão gêmeo do senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG).

Depois da exoneração de Gustavo, a condução da secretaria foi transferida ao então secretário de Governo, Mateus Tavares, enquanto o assessor especial do gabinete, Fernando Henrique, passou a dar suporte à transição.

Cronologia da exoneração

No dia 10 de fevereiro de 2025, Mateus Tavares e Fernando Henrique foram até a secretaria e comunicaram a Gustavo Mendes que ele seria exonerado. A prefeitura publicou decreto determinando a posse de Mateus na vaga.

A exoneração ocorreu antes da formalização da denúncia ao Ministério Público e da abertura oficial da investigação. Mesmo após a troca de comando, porém, continuaram chegando ao gabinete relatos sobre problemas na secretaria, o que levou ao envio da notícia de fato, em março de 2025.

A participação das empresas

Foi a partir desse encaminhamento que o caso deixou o campo da apuração interna e passou à esfera criminal. O Ministério Público instaurou inquérito para aprofundar as suspeitas. A investigação avançou sobre contratos da secretaria com empresas de locação de máquinas e veículos e, segundo o MPMG, identificou um esquema de direcionamento de licitações, fraude em medições e pagamento de propina envolvendo agentes públicos e empresários.

A operação

Além de Gustavo Mendes, foram presos o operador de máquinas Thiago Henrique Pinto dos Santos, o engenheiro civil Caio Freitas, sócio-diretor da empresa CCR, e o empresário Wendel Barbato.

A apuração do MPMG sustenta que empresas e agentes públicos teriam manipulado licitações e medições de serviços para simular a utilização de máquinas alugadas, criando registros fictícios que embasariam pagamentos indevidos com recursos públicos.

O nome da operação faz referência justamente a esse núcleo da suspeita: máquinas registradas em medições, mas sem comprovação real de operação, usadas para justificar desembolsos da prefeitura.

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