Somando partes de duas legislaturas, três em cada quatro passagens aéreas emitidas em nome do deputado federal Aécio Neves (PSDB) começaram e terminaram fora de Minas Gerais. Dos 503 bilhetes identificados entre agosto de 2020 e julho de 2025, 376 não tinham o estado como origem ou como destino. O número equivale a 74,8% do total de tíquetes emitidos.
Levantamento feito por O Fator analisou as passagens registradas em nome de Aécio no Sistema de Gestão de Passagens Aéreas (Sigepa) da Câmara dos Deputados.
O principal ponto de partida do parlamentar não foi o aeroporto de Confins, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), mas Florianópolis (SC). A capital catarinense aparece como origem de 177 bilhetes. Brasília (DF) vem em seguida, com 157. Confins ocupa a terceira posição, com 65.
A mesma ordem se repete entre os principais destinos: Florianópolis aparece em 186 bilhetes; Brasília, em 171; Confins, em 63.
Considerados os aeroportos de embarque e desembarque, Florianópolis apareceu em 363 dos 503 bilhetes, ou 72,2%. Minas figurou em 127, equivalentes a 25,2%. Na prática, a capital catarinense apareceu nos itinerários de Aécio quase três vezes mais que o estado que o elegeu.
| Aeroporto | → Origem | Destino ← | Bilhetes em que apareceu |
| Florianópolis (SC) | 177 | 186 | 363 (72,2%) |
| Brasília (DF) | 157 | 171 | 327 (65,%) |
| Confins (MG) | 65 | 63 | 127 (25,2%) |
| Santos Dumont (RJ) | 37 | 28 | 65 (12,9%) |
| Congonhas (SP) | 31 | 27 | 58 (11,5%) |
| Galeão (RJ) | 18 | 16 | 34 (6,8%) |
| Guarulhos (SP) | 18 | 10 | 28 (5,6%) |
| Viracopos (SP) | 0 | 2 | 2 (0,4%) |
| Total de bilhetes | 503 | 503 | — |
A relação de Aécio com Florianópolis começou durante o relacionamento com Letícia Weber, mãe dos filhos gêmeos do deputado. Os dois se separaram em 2023. Segundo a assessoria do parlamentar, os filhos menores vivem na capital catarinense e o tucano mantém domicílio na cidade.
“O uso de passagens aéreas por parte do deputado Aécio Neves segue as normas estabelecidas pela Câmara dos Deputados que prevêem viagens para estados em que o parlamentar mantenha domicílio. Florianópolis é o local de residência dos filhos menores do parlamentar, assim como sua filha mais velha reside no Rio de Janeiro. O deputado tem domicílio nessas cidades, além de Belo Horizonte e de Brasília”, afirma. (Leia a íntegra do posicionamento no fim desta reportagem)
Ponte FLN-BSB
O principal eixo de deslocamento registrado na base de dados do Sigepa foi entre Florianópolis e Brasília. O Fator encontrou 110 bilhetes da capital catarinense para a capital federal e 104 no sentido contrário. Somadas, as duas direções aparecem 214 vezes.
Entre Brasília e Confins, foram encontrados 47 bilhetes. Vinte e oito começam na capital federal e terminam em Minas. Outros 19 apontam o sentido contrário.
Assim, para cada passagem entre Brasília e Confins, foram emitidas aproximadamente 4,6 entre Brasília e Florianópolis.
Além das ligações com Brasília, a planilha registra trajetos entre Florianópolis e Rio de Janeiro (RJ), São Paulo (SP) e Minas Gerais. Os aeroportos Santos Dumont e Galeão, ambos no Rio, aparecem em 99 tíquetes.
Em valores, os 127 bilhetes que tinham Minas como origem ou destino custaram R$ 154,9 mil (aproximadamente 25,7% do total). As 376 passagens com as duas pontas fora do estado consumiram R$ 447,5 mil, ou 74,3% dos R$ 602,5 mil líquidos contabilizados.
Menos passagens por Minas
O levantamento também aponta uma redução da presença de Minas nos itinerários entre as duas legislaturas analisadas.
Na parte examinada da 56ª Legislatura, entre agosto de 2020 e dezembro de 2022, 60 dos 207 bilhetes (29%) tinham a base eleitoral como origem ou destino. Os 147 restantes, ou 71%, começaram e terminaram fora do estado.
Na 57ª Legislatura, entre janeiro de 2023 e julho de 2025, a participação de Minas caiu para 22,6%. Dos 296 cartões emitidos, somente 67 passaram pelo estado. Outros 229, ou 77,4%, tinham as duas pontas fora de Minas.
Florianópolis, por sua vez, manteve participação superior a 70% nos dois períodos. A cidade esteve em 148 dos 207 bilhetes da primeira parte analisada e em 215 dos 296 registrados na segunda.
Registros cessaram depois de reportagem
Em junho de 2025, O Fator publicou levantamento semelhante, mas sobre um período menor, de junho de 2024 a junho de 2025. Na ocasião, o site mostrou que 81 das 106 passagens emitidas em nome do deputado tinham Florianópolis como origem ou destino.
Depois da publicação, a base registra apenas 10 movimentações, entre lançamentos e ajustes, concentradas entre 1º e 18 de julho de 2025. Não há novos registros após essa data.
“Passagens seguem as normas da Câmara”
Em resposta a O Fator, a assessoria afirmou que o uso das passagens seguiu as normas da Câmara dos Deputados. Leia na íntegra:
‘O uso de passagens aéreas por parte do deputado Aécio Neves segue as normas estabelecidas pela Câmara dos Deputados que prevêem viagens para estados em que o parlamentar mantenha domicílio. Florianópolis é o local de residência dos filhos menores do parlamentar, assim como sua filha mais velha reside no Rio de Janeiro. O deputado tem domicílio nessas cidades, além de Belo Horizonte e de Brasília.
E é exatamente em Brasília que o deputado exerce o mandato para o qual foi eleito, com intensa agenda diária em defesa dos interesses de Minas e onde exerce também suas funções como Presidente Nacional do PSDB.
Em 40 anos de mandatos eletivos, seja como Deputado Federal, Senador ou Governador seu esforço sempre foi para atender às demandas de Minas, ajudando a melhorar a vida dos mineiros”.
A manifestação, porém, não explicou por que não há novas emissões pelo Sigepa depois de 18 de julho de 2025 nem informou como passaram a ser custeados os deslocamentos do deputado.
Metodologia
A base da Câmara contém 630 lançamentos: 573 positivos e 57 referentes a estornos ou ajustes. Depois de agrupá-los pelo número do documento aéreo, O Fator identificou 520 bilhetes diferentes. Desses, 503 terminaram com saldo positivo e foram considerados no levantamento; oito foram anulados integralmente e nove apresentaram saldo negativo decorrente de ajustes.
Nos trajetos com conexão, foram considerados apenas o primeiro aeroporto como origem e o último como destino.
Os dados de 2019 também foram conferidos. A base registra R$ 83 mil em reembolsos de passagens vinculados à cota parlamentar de Aécio, mas não identifica o passageiro nem informa os itinerários. Por isso, esses lançamentos ficaram fora da análise.