Copam nega recurso da Empabra e mantém decisão que indeferiu licença ambiental de mineradora

Empresa alvo da PF tenta desde 2022 obter autorização ambiental para extrair minério de ferro de pilhas de estéril e rejeito
Grupo arquitetou uma rede empresarial e operacional dedicada a obter autorizações e licenças em áreas tombadas e de risco elevado de desastre. Foto: Luiz Santana/ALMG
Fiscalização em área de operação minerária na Serra do Curral. Foto: Luiz Santana/ALMG

O Conselho Estadual de Política Ambiental (Copam), por meio da Unidade Regional Colegiada Central Metropolitana, rejeitou recurso da Empabra e voltou a negar licença ambiental para a extração de minério de ferro em pilhas de rejeito e estéril localizadas na Serra do Curral.

A decisão seguiu relatório da Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam), que emitiu parecer contra o recurso. O Copam havia indeferido o pedido de licenciamento ambiental simplificado da Empabra em abril de 2023.

Segundo os técnicos do órgão, no curso da análise técnica do processo foram identificadas inconformidades com a norma ambiental relacionadas ao enquadramento da atividade, à abrangência da poligonal minerária, à insuficiência dos estudos apresentados, à regularização da via de escoamento e à regularidade das intervenções ambientais necessárias ao empreendimento.

A Feam ressaltou, por exemplo, que o site da Agência Nacional de Mineração (ANM) indica que parte da poligonal minerária relativa ao empreendimento não está vinculada à mineradora. Além disso, o órgão ambiental pontuou que a Empabra não informou de onde captará os 240 metros cúbicos de água por dia necessários para a operação.

O órgão ainda pontuou que a atividade de lavra deve ser regularizada por meio de processo de licenciamento ambiental concomitante, a partir da apresentação de Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e Relatório de Impacto Ambiental (RIMA).

No recurso, a Empabra pontuou que não haveria necessidade de apresentar autorização para captação de água superficial nem para intervenção em área de preservação permanente sem supressão. A empresa também argumentou que o projeto não prevê lavra de minério de ferro e, sim, o aproveitamento de finos presentes em pilhas de rejeito e estéril.

Já quanto aos questionamentos relacionados à ANM, a mineradora disse que a legislação minerária permite o reaproveitamento de pilhas e barragens situadas fora do título minerário da mineradora.

Ao todo, a confirmação do indeferimento teve o voto de 12 dos 13 conselheiros da Unidade Regional Colegiada Central Metropolitana. O Ministério Público de Minas Gerais se absteve, por haver, segundo o promotor João Paulo Alvarenga Brant, “impacto em alguma atividade de colegas”.

Operação Parcours

A mineradora, hoje comandada por Luis Fernando Franceschini, é alvo da Polícia Federal, que a acusa de extrair ilegalmente minério de ferro na Mina Curumi, localizada em Belo Horizonte e Nova Lima.

O indeferimento da licença confirmado nesta quarta, aliás, é citado em relatório dos investigadores na Operação Parcours.

No documento, os investigadores pontuam que, um mês após o Copam indeferir o pedido de licenciamento ambiental da Empabra, o conselheiro do Copam Heleno Maia encaminhou a Franceschini o ofício que pedia a reconsideração do indeferimento.

Na ocasião, Heleno, que é apontado pela PF como intermediador da Empabra junto aos órgãos ambientais do estado, teria pedido para que a coordenadora jurídica da mineradora assinasse o documento para que ele não tivesse contato direto com o dono da empresa –o recurso entregue à Feam é assinado por Ana Laura Braga de Carvalho.

“Ao atuar na elaboração ou encaminhamento de peça destinada a reverter indeferimento ambiental da Empabra, e ao mesmo tempo buscar evitar contato formal direto com o “dono”, Heleno demonstra, em tese, tentativa de preservar aparência de distanciamento, embora atuasse em favor do interesse privado do grupo”, diz o relatório da PF.

O Fator tentou contato com Empabra, Franceschini e Heleno Maia, mas não obteve retorno até a publicação deste texto. O espaço segue aberto.

Formado em jornalismo pela PUC Minas, Pedro Lovisi trabalhou nas redações do jornal Estado de Minas e da Rádio Itatiaia. Nos últimos cinco anos, foi repórter da Folha de S.Paulo, onde se destacou pela cobertura econômica de setores ligados à transição energética, principalmente energia e mineração. Também é mestre em Governança Global e Formulação de Políticas Internacionais pela PUC SP, onde estudou instrumentos orçamentários para cidades mineradoras de Minas Gerais.

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