A gente abraça mesmo assim

Dar e receber amor e carinho sinceros é o que nos diferencia de qualquer outro ser vivo no planeta
Pai e filho eternamente

Quem já me acompanha há anos no jornalismo sabe que, desde os tempos de Estado de Minas e Itatiaia, costumo vir a público, em momentos de muita emoção – seja de felicidade, tristeza, angústia, pelo Atlético, pela minha filha, enfim – e transbordar meus sentimentos; me desnudar perante vocês.

Nesse vai e vem mental, ao escrever “desnudar”, me lembrei que judeus enterram seus mortos nus, cobertos apenas por um lençol branco. A lógica na tradição é voltar como viemos. A lógica ricardiana é terminar como sempre estivemos no íntimo: nus. Sem roupa, sem dinheiro, sem cargo, sem importância, sem nada daquilo que passamos a vida inteira acumulando.

E não foi à toa que isso me ocorreu enquanto dirigia para casa, depois de dar um abraço em uma pessoa muito querida, que acabou de perder o pai. Não o chamo – ainda – de amigo (no sentido verdadeiro e não na mera informalidade de se referir a qualquer um), pois é um relacionamento recente e esporádico. Mas querer genuinamente bem a alguém independe do tempo e da frequência.

Há gente que atravessa décadas da nossa vida sem jamais conseguir entrar de verdade nela. Outras pessoas, contudo, precisam de muito pouco para encontrar um lugar. Foi assim com esse querido. Há uma canção que diz: “You gave me love for free”. Você me deu amor de graça.

Particularmente, me afeiçoo rápido e intensamente. A minha melhor característica é identificar imediatamente um alvo de afeto. Textos meus a respeito existem, acho que desde sempre. Gosto de gostar. Gosto de abraçar. Gosto de dizer que gosto. E não tenho o menor pudor de me expor por isso.

Ultimamente, papai do céu resolveu me presentear com uma caixa – como aquelas de bombons – de gente amada. Dar e receber amor e carinho sinceros é o que nos diferencia de qualquer outro ser vivo no planeta. É uma das poucas coisas que levamos da vida enquanto ainda estamos nela. Se isso não for aproveitado como merece, é melhor nascer planta: inerte, muda, insensível.

Provavelmente, apenas eu, ele, alguns poucos conhecidos e outros que irão se identificar com essas palavras conseguirão alcançar o que escrevo. Mas é melhor assim. O carinho verdadeiro deve mesmo ser restrito. Até porque, diante desse tipo de dor, há muito pouco a fazer. Nada conserta. Nenhum abraço resolve. Mas eu abraço mesmo assim.

Força, meu querido!

Ricardo Kertzman é empresário, e há 8 anos milita no jornalismo profissional. Tem passagens pelo jornal Estado de Minas e Portal UAI, com a coluna Opinião Sem Medo; pela revista e site da IstoÉ; pela Rede 98 e a Rádio Itatiaia, como comentarista do Conversa de Redação. Escreve para a revista Encontro e o portal O Antagonista.

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