Em 1973, Paul McCartney e os Wings lançaram Jet, uma canção em que um casamento, uma figura paterna de modos militares e uma sufragista dividem espaço sem a menor obrigação de prestar esclarecimentos. McCartney associou parte da inspiração ao sogro, um homem que descreveu como amável, mas também sério e restritivo. A letra faz uma confusão entre o major e a militante pelo voto feminino. É o tipo de erro que, na música, rende um clássico. Na política, costuma render uma reunião de emergência.
O PT parece ter chegado às urnas de outubro de 2026 com uma confusão semelhante. Esperava encontrar um eleitor disposto a renovar seus votos de fidelidade à causa. Encontrou alguém fazendo perguntas sobre os serviços prestados. Como o personagem não correspondia ao roteiro, a primeira providência foi investigar a qualidade do microfone.
Nos bastidores de Brasília, o microfone atende pelo nome de Sidônio Palmeira. Depois de Lula terminar o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro, o comando da comunicação passou a concentrar críticas e cobranças por mudanças. Há erros de campanha a examinar, certamente. Mas a velocidade com que se chega ao diagnóstico oferece uma vantagem administrativa: permite discutir os vídeos sem discutir o governo. A política brasileira aprecia muito a hipótese de que tudo estava funcionando, até alguém contar mal a história.
Trabalho com comunicação política e conheço o conforto dessa explicação. Ela agrada ao governante, que preserva a própria infalibilidade, e alimenta o prestígio da profissão, à qual se atribuem poderes quase sobrenaturais. O inconveniente aparece quando chega a hora de exercê-los. O marqueteiro descobre que foi contratado para melhorar a aprovação de decisões que não tomou, entregar resultados que não pode produzir e, se necessário, assumir a autoria do desastre. É um cargo de confiança com vocação para sacrifício humano.
Os estudos de Paul Lazarsfeld e seus colaboradores, iniciados nos anos 1940, já questionavam a imagem de uma audiência passiva, pronta para receber ideias por injeção. O que se convencionou chamar de efeitos limitados da comunicação ressaltava o peso das predisposições, dos grupos sociais e das relações pessoais na recepção das mensagens. O eleitor chegava à propaganda acompanhado de uma vida inteira. Não era uma folha em branco à espera do primeiro slogan.
Isso tampouco encerrou a pesquisa ou tornou a comunicação irrelevante. Os meios de comunicação influenciam quais assuntos recebem atenção, como os acontecimentos são apresentados e os critérios pelos quais avaliamos governos. Redes sociais podem ampliar ressentimentos, difundir mentiras e fazer uma experiência isolada parecer universal. A vida material também não produz votos automaticamente. Há interpretação, comparação, expectativa. Reconhecer tudo isso, porém, é diferente de imaginar que a realidade inteira seja uma obra do departamento de criação.
O Piauí oferece um exemplo menos abstrato. O governo de Rafael Fonteles implantou um programa de recuperação de celulares baseado em cruzamento de dados e intimações em escala. Segundo balanço divulgado pelo governo estadual, mais de 16 mil aparelhos foram recuperados entre 2023 e o primeiro trimestre de 2026. O modelo chamou a atenção de Brasília e, em 2024, foi objeto de um protocolo com o Ministério da Justiça para desenvolver uma iniciativa nacional integrada ao Celular Seguro.
Em maio deste ano, Lula disse que havia recuado do anúncio de uma medida de devolução de aparelhos por receio de punir compradores de boa-fé. A preocupação merece tratamento jurídico adequado. Também merece uma resposta quem comprou legalmente seu telefone e o perdeu num assalto. É possível proteger o comprador inocente sem transformar a origem do aparelho numa questão dispensável. Esse é um problema de desenho e execução de política pública. Antes de encomendar uma campanha capaz de convencer a vítima de que o Estado está do seu lado, convém estar.
O telefone, aliás, tem uma existência curiosa nessa discussão. Quando leva ao cidadão uma crítica ao governo, é suspeito de envenenar sua percepção. Quando lhe é arrancado da mão, torna-se um problema que exige ponderações. Talvez seja útil lembrar que o eleitor usa o mesmo aparelho para consumir propaganda, trabalhar, falar com a família e conferir o saldo bancário. A última dessas atividades costuma ter uma autoridade que as três primeiras não conseguem revogar.
A dificuldade do PT começa antes da escolha de qualquer plataforma. Lula venceu em 2022 com uma frente ampla. Geraldo Alckmin na vice, Simone Tebet no apoio e a adesão de pessoas distantes da tradição petista expressavam um acordo de emergência. Para muitos, o compromisso era interromper o bolsonarismo, reconstruir condições de convivência institucional e abrir espaço para diferenças. Não havia ali uma conversão coletiva ao lulismo.
O governo, contudo, frequentemente se comportou como se a amplitude da frente tivesse prazo de validade até a apuração. Ministros de outros partidos e negociações com o Congresso existiram. Mas distribuir cargos não esgota o sentido de uma aliança. Era preciso incorporar ao projeto de governo a pluralidade que tornara a vitória possível. A impressão deixada foi a de que os convidados podiam ajudar a salvar a democracia e, concluído o serviço, devolver as cadeiras ao lugar.
Talvez parte dos eleitores de 2022 considere que cumpriu o acordo. Votou para encerrar um governo e agora deseja avaliar o seguinte. O voto anterior não era uma procuração irrevogável, muito menos uma inscrição no programa de fidelidade do PT. É nesse momento que reaparece a convocação para defender a democracia.
Em 2022, a ameaça tinha manifestações concretas. As investidas de Jair Bolsonaro contra as instituições e o sistema eleitoral, seguidas pelos acontecimentos de janeiro de 2023, impedem tratar aquela preocupação como invenção publicitária. A defesa da democracia continua necessária. O problema surge quando a necessidade se transforma numa obrigação eleitoral permanente, cujo beneficiário já vem indicado no formulário.
Que democracia é essa que, décadas depois da redemocratização, precisa ser apresentada como um recém-nascido incapaz de sobreviver sem os cuidados de um partido? O cidadão tem o direito de querer alguma coisa além de manter a incubadora ligada. Quer segurança, atendimento médico, menos horas no ônibus, dinheiro que alcance o fim do mês e a possibilidade de seus filhos viverem melhor. Nada disso constitui um desvio moral a ser corrigido pela campanha.
A cada eleição, o condomínio é chamado a pagar uma taxa extraordinária para consertar a mesma rachadura. Na primeira assembleia, os moradores pagam. Na segunda, perguntam o que aconteceu com a obra anterior. A pergunta pode ser inconveniente. Continua sendo legítima.
Isso não elimina os riscos do bolsonarismo nem torna os candidatos equivalentes. Exige, apenas, que o governo justifique sua continuidade também pelo que fez e pelo que pretende fazer. Uma democracia que só consegue oferecer a prevenção do desastre vai ficando sem vocabulário para falar do futuro. O eleitor é convocado a ser herói, quando gostaria de poder ser um cidadão razoavelmente atendido.
Foi nesse ambiente que Ana Elisa, eleita deputada federal por Minas Gerais aos 21 anos, com mais de 524 mil votos, cobrou mudanças em seu próprio campo. Há algo promissor em alguém que acaba de ganhar uma eleição e usa a vitória para pedir atualização, em vez de requerer uma cadeira no museu. Sua defesa de uma presença mais ativa e descentralizada nas redes toca num ponto essencial: a internet é parte da vida social. Não é uma dimensão paralela da qual os eleitores saem apenas no domingo da votação.
Ana Elisa merece ser ouvida. Sua intervenção, porém, também reproduz uma simplificação que atravessa o diagnóstico petista: a ideia de que as pessoas podem achar a vida péssima, mesmo quando ela estaria ótima, porque alguém as convenceu disso nas redes. A influência existe. O salto está em usá-la como explicação suficiente para a insatisfação. Talvez as pessoas achem que a vida está ruim porque, para elas, está.
O trabalhador que passa horas no transporte, a mãe que espera atendimento ou o jovem que não consegue sair da casa dos pais dispensam um influenciador para conhecer suas frustrações. Outras pessoas melhoraram de vida, reconhecem entregas do governo e têm boas razões para apoiá-lo. A tarefa política é compreender essa diversidade. Decretar que o país vai maravilhosamente bem e atribuir as discordâncias à manipulação é uma maneira de dispensar a investigação justamente quando ela se torna necessária.
Volta aqui a confusão de Jet. O partido projeta no interlocutor uma personagem conveniente e se surpreende quando ele responde com outra voz. Uma pessoa que exige segurança não se torna, por isso, um major autoritário. Tampouco uma eleitora progressista perde o direito de cobrar resultados por simpatizar com a causa. O erro está em tratar essas expectativas como figurinos incompatíveis. Quem defende direitos pode querer ordem na rua. Quem votou para proteger as instituições pode querer trocar o governo que as administra.
Comunicar começa por reconhecer a legitimidade de quem escuta. Não existe diálogo quando a experiência do outro só é admitida depois de conferida pela assessoria. Escutar um eleitor não é aguardar que termine de falar para explicar por que está errado. É aceitar que sua reclamação possa exigir uma mudança de conduta, e não de paleta de cores.
O PT tem uma relação seletiva com essa capacidade de julgamento. Quando o resultado confirma suas expectativas, celebra a sabedoria popular. Quando contraria, investiga o algoritmo. O povo é lúcido na vitória e precisa atualizar seus aplicativos na derrota. A direita possui versões próprias desse expediente, com conspirações e inimigos invisíveis. A vontade popular conta com muitos admiradores, desde que se comporte.
Sidônio não precisa de imunidade para que essa crítica faça sentido. Pode errar na estratégia, escolher temas inadequados, subestimar plataformas e desperdiçar oportunidades. Tudo isso deve ser avaliado. Mas há perguntas que nenhuma troca de equipe responde: por que a frente ampla não se tornou uma forma mais ampla de governar? Por que o projeto de futuro parece ter menos força que o medo do adversário? Por que o governo tem tanta dificuldade de admitir que a insatisfação pode conter informação útil?
Talvez a contribuição mais importante de um profissional de comunicação, agora, seja levar essas perguntas ao presidente. O ofício inclui tornar realizações visíveis e explicar escolhas. Inclui também perceber quando o público compreendeu perfeitamente o que lhe foi apresentado e, ainda assim, não gostou. Nem toda rejeição é um defeito de transmissão.
Jet não oferece um programa de governo. Sua mistura de autoridade, casamento e desejo de liberdade funciona melhor sem um comitê tentando organizar os significados. É também por isso que a canção ajuda: ela nos lembra que as pessoas não cabem inteiramente na interpretação que fazemos delas. O eleitor pode ter participado do coro em 2022 e querer outra música em 2026.
Se a democracia precisa ser defendida novamente, que seja. Mas a defesa deveria permitir uma vida em que se pudesse discutir o que construir, e não apenas o que evitar. O cidadão não deve quatro anos a um partido por serviços prestados às instituições. Deve poder exigir que essas instituições sirvam à sua vida.
O PT pode trocar o arranjo, reforçar o coro e aumentar o volume. Antes, precisa admitir que o eleitor ouviu a canção. Talvez esteja pedindo outra.