Justiça inglesa diz que Comitê não tem autoridade para substituir advogados de atingidos de Mariana

Com decisão, escritório britânico Pogust Goodhead deve se manter na defesa do caso
Lama toma conta de Mariana, após rompimento de barragem
Rompimento da barragem do Fundão, em Mariana. Foto: divulgação/Corpo de Bombeiros.

A Justiça da Inglaterra e País de Gales definiu, nesta segunda-feira (12), que o Comitê de Clientes do Litígio de Mariana não tem autoridade para substituir os advogados de todos os atingidos da tragédia de Mariana que buscam reparação no exterior. Com a decisão, o escritório britânico Pogust Goodhead (PGMBM) deve se manter, ao menos até os próximos meses, como representante dos atingidos.

A sentença é uma derrota principalmente para o escritório americano Bailey Glasser International (BGI), ligado ao fundador e ex-sócio do PGMBM, Thomas Goodhead. Isso porque, caso a Justiça tivesse reconhecido a legitimidade do Comitê para substituir os escritórios, o BGI poderia vir a ser, automaticamente, o novo representante dos atingidos.

Agora, com a decisão, são incertos os próximos passos do BGI. Isso porque, para conseguir defender os cerca de 438 mil atingidos, o escritório americano precisará assinar contratos diretamente com cada um deles, tarefa que o Comitê, na ação judicial, classificou como inviável.

Em nota enviada à imprensa, o BGI afirmou que “compartilha a decepção” do Comitê com a decisão. “O Comitê agora avaliará cuidadosamente, junto a seus advogados, quais medidas poderá adotar, e contará com todo o apoio do BGI nesse processo. Nosso compromisso com os atingidos e com sua luta por justiça permanece inalterado”, afirmou o escritório americano.

A decisão, por outro lado, garante um alívio financeiro no orçamento do PGMBM. Como O Fator noticiou, o escritório britânico tem pendente o pagamento da segunda parcela de um financiamento de US$ 150 milhões com uma gestora americana de investimentos –a parcela poderia vir a não ser paga, caso a firma perdesse a representação dos atingidos.

A disputa entre os dois escritórios surgiu no final de agosto, quando o Comitê de Clientes do Litígio de Mariana, formado por representantes dos atingidos, comunicou os advogados do PGMBM sobre seu interesse em destituí-los do caso.

No lugar da firma britânica, o Comitê definiria o BGI como o novo representante de todos os atingidos que brigam na Justiça inglesa contra a BHP – sócia da Vale na Samarco.

O PGMBM, no entanto, contestou a autoridade do órgão para destituí-lo da defesa de todos os atingidos, alegando que as atribuições dadas ao Comitê no momento de criação não incluíam a possibilidade de alteração na representação. Para o escritório britânico, cada cliente tem o direito de escolher seu próprio advogado.

A partir daí, PGMBM e BGI iniciaram uma batalha, tanto na Justiça quanto fora dela, incluindo a busca por confiança dos atingidos. Nas redes sociais, por exemplo, o BGI publica, com frequência, encontros de seus advogados com parte dos atingidos. Já o PGMBM fez uma série de acusações contra Thomas, alegando interferência do advogado na decisão do Comitê.

O Fator questionou o PGMBM e o presidente do Comitê, Marcelo Krenak, sobre a decisão e aguarda retorno.

Formado em jornalismo pela PUC Minas, Pedro Lovisi trabalhou nas redações do jornal Estado de Minas e da Rádio Itatiaia. Nos últimos cinco anos, foi repórter da Folha de S.Paulo, onde se destacou pela cobertura econômica de setores ligados à transição energética, principalmente energia e mineração. Também é mestre em Governança Global e Formulação de Políticas Internacionais pela PUC SP, onde estudou instrumentos orçamentários para cidades mineradoras de Minas Gerais.

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