Os detalhes do financiamento de US$ 150 milhões ao Pogust Goodhead para custear defesa de atingidos de Mariana

Audiência na semana que vem entre advogados que disputam causa pode mudar os rumos de empréstimo
Bombeiro faz buscas após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, em novembro de 2015
A barragem de Fundão, em Mariana, rompeu em 5 de novembro de 2015. A estrutura era operada pela Samarco, uma joint venture entre Vale e BHP. Foto: Antonio Cruz/ Agência Brasil

Marcada para semana que vem, a audiência entre os escritórios que disputam a defesa dos atingidos da tragédia de Mariana na Justiça inglesa pode definir o rumo da segunda parcela de um financiamento de US$ 150 milhões (R$ 781 milhões) obtido pelo Pogust Goodhead neste ano.

Detalhes do financiamento constam na declaração enviada à Justiça inglesa pela diretora de operações e jurídica do próprio Pogust Goodhead.

Nela, Lynn Wong afirma que o escritório iniciou, em janeiro de 2026, negociações com a gestora norte-americana de investimentos Gramercy um financiamento para dar continuidade à defesa dos atingidos. A gestora já era, à época, financiadora da causa, mas Wong conta que os recursos garantidos anteriormente seriam totalmente utilizados até o início de maio.

Inicialmente, o escritório calculou que precisaria de US$ 85 milhões para dar prosseguimento à causa até outubro de 2026, quando ocorreria a segunda fase do julgamento em Londres. O adiamento para abril de 2027, no entanto, provocou aumento na projeção das despesas do escritório, que ao fim conseguiu operação de crédito de US$ 150 milhões junto à Gramercy.

O escritório de advocacia, narra Wong, recebeu U$ 85 milhões para lidar com as despesas necessárias até dezembro deste ano. A Gramercy se comprometeu a, depois desse período, liberar mais US$ 65 milhões de forma discricionária, a partir de avaliações feitas pela gestora de investimentos e de pedidos pontuais pelos diretores do Pogust Goodhead .

É justamente a segunda fatia, portanto, que a audiência marcada para as próximas segunda-feira (5) e terça-feira (6) pode influenciar.

Ao explicar o financiamento à Justiça inglesa, Wong afirma que a forma como o financiamento se deu é comum, “uma vez que todas as empresas de investimento regulamentadas têm obrigações fiduciárias rigorosas para com seus investidores”.

“É totalmente adequado que continuem a financiar um caso apenas se constatarem que há progresso em seu andamento”, acrescenta.

Nesse caso, como a própria diretora do escritório sinaliza, uma eventual interrupção na defesa dos atingidos teria consequências diretas no financiamento restante.

Questionamentos ao Pogust Goodhead

Ao ter acesso ao depoimento de Wong, O Fator questionou o Pogust Goodhead sobre como ficaria a saúde financeira do escritório caso a Justiça Inglesa, na semana que vem, decidisse que o Comitê de Clientes do Litígio de Mariana tem autorização para substituir a banca responsável por defender os cerca de 438 mil atingidos.

Em nota, o escritório informou que “o processo de Mariana continua com financiamento assegurado” e que a firma “segue se preparando para o julgamento da fase 2, previsto para começar em abril de 2027”.

“Temos financiamento para o prosseguimento do caso, temos seguro, estamos nos preparando para o julgamento e continuaremos protegendo a demanda dos nossos clientes, que esperam há quase onze anos por justiça e reparação”, disse.

A reportagem também entrou em contato com a Gramercy, que se limitou a dizer que “as equipes da Pogust Goodhead e da Quinn Emanuel (escritório auxiliar) estão empenhadas em responsabilizar a BHP e a Vale pelo desastre de Mariana e em garantir que as vítimas obtenham o melhor resultado possível o mais rápido possível”.

“A Gramercy continua apoiando esses esforços”, completou.

Questionamentos ao BGI

O Fator também enviou perguntas ao escritório Bailey Glasser International (BGI), que tenta assumir a defesa dos atingidos, sobre se a firma já tem financiamento para prosseguir com causa caso a Justiça dê ganho de causa ao Comitê.

De acordo com reportagem publicada pelo Financial Times no dia 16, o escritório é amparado pela gestora North Wall Capital, que até pouco tempo também financiava o Pogust Goodhead.

Ao BGI, a reportagem questionou se a gestora já havia, de fato, financiado o escritório e, se sim, qual foi o valor do financiamento. A reportagem também questionou se o financiamento da North Wall Capital, se já liberado, será suficiente para bancar todo o processo, caso o escritório consiga a defesa dos atingidos. Não houve resposta às indagações.

Formado em jornalismo pela PUC Minas, Pedro Lovisi trabalhou nas redações do jornal Estado de Minas e da Rádio Itatiaia. Nos últimos cinco anos, foi repórter da Folha de S.Paulo, onde se destacou pela cobertura econômica de setores ligados à transição energética, principalmente energia e mineração. Também é mestre em Governança Global e Formulação de Políticas Internacionais pela PUC SP, onde estudou instrumentos orçamentários para cidades mineradoras de Minas Gerais.

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