Marcada para semana que vem, a audiência entre os escritórios que disputam a defesa dos atingidos da tragédia de Mariana na Justiça inglesa pode definir o rumo da segunda parcela de um financiamento de US$ 150 milhões (R$ 781 milhões) obtido pelo Pogust Goodhead neste ano.
Detalhes do financiamento constam na declaração enviada à Justiça inglesa pela diretora de operações e jurídica do próprio Pogust Goodhead.
Nela, Lynn Wong afirma que o escritório iniciou, em janeiro de 2026, negociações com a gestora norte-americana de investimentos Gramercy um financiamento para dar continuidade à defesa dos atingidos. A gestora já era, à época, financiadora da causa, mas Wong conta que os recursos garantidos anteriormente seriam totalmente utilizados até o início de maio.
Inicialmente, o escritório calculou que precisaria de US$ 85 milhões para dar prosseguimento à causa até outubro de 2026, quando ocorreria a segunda fase do julgamento em Londres. O adiamento para abril de 2027, no entanto, provocou aumento na projeção das despesas do escritório, que ao fim conseguiu operação de crédito de US$ 150 milhões junto à Gramercy.
O escritório de advocacia, narra Wong, recebeu U$ 85 milhões para lidar com as despesas necessárias até dezembro deste ano. A Gramercy se comprometeu a, depois desse período, liberar mais US$ 65 milhões de forma discricionária, a partir de avaliações feitas pela gestora de investimentos e de pedidos pontuais pelos diretores do Pogust Goodhead .
É justamente a segunda fatia, portanto, que a audiência marcada para as próximas segunda-feira (5) e terça-feira (6) pode influenciar.
Ao explicar o financiamento à Justiça inglesa, Wong afirma que a forma como o financiamento se deu é comum, “uma vez que todas as empresas de investimento regulamentadas têm obrigações fiduciárias rigorosas para com seus investidores”.
“É totalmente adequado que continuem a financiar um caso apenas se constatarem que há progresso em seu andamento”, acrescenta.
Nesse caso, como a própria diretora do escritório sinaliza, uma eventual interrupção na defesa dos atingidos teria consequências diretas no financiamento restante.
Questionamentos ao Pogust Goodhead
Ao ter acesso ao depoimento de Wong, O Fator questionou o Pogust Goodhead sobre como ficaria a saúde financeira do escritório caso a Justiça Inglesa, na semana que vem, decidisse que o Comitê de Clientes do Litígio de Mariana tem autorização para substituir a banca responsável por defender os cerca de 438 mil atingidos.
Em nota, o escritório informou que “o processo de Mariana continua com financiamento assegurado” e que a firma “segue se preparando para o julgamento da fase 2, previsto para começar em abril de 2027”.
“Temos financiamento para o prosseguimento do caso, temos seguro, estamos nos preparando para o julgamento e continuaremos protegendo a demanda dos nossos clientes, que esperam há quase onze anos por justiça e reparação”, disse.
A reportagem também entrou em contato com a Gramercy, que se limitou a dizer que “as equipes da Pogust Goodhead e da Quinn Emanuel (escritório auxiliar) estão empenhadas em responsabilizar a BHP e a Vale pelo desastre de Mariana e em garantir que as vítimas obtenham o melhor resultado possível o mais rápido possível”.
“A Gramercy continua apoiando esses esforços”, completou.
Questionamentos ao BGI
O Fator também enviou perguntas ao escritório Bailey Glasser International (BGI), que tenta assumir a defesa dos atingidos, sobre se a firma já tem financiamento para prosseguir com causa caso a Justiça dê ganho de causa ao Comitê.
De acordo com reportagem publicada pelo Financial Times no dia 16, o escritório é amparado pela gestora North Wall Capital, que até pouco tempo também financiava o Pogust Goodhead.
Ao BGI, a reportagem questionou se a gestora já havia, de fato, financiado o escritório e, se sim, qual foi o valor do financiamento. A reportagem também questionou se o financiamento da North Wall Capital, se já liberado, será suficiente para bancar todo o processo, caso o escritório consiga a defesa dos atingidos. Não houve resposta às indagações.