Isolamento algorítmico: as mentiras que circulam fora do nosso campo de visão

Cidadão utiliza smartphone
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Prefiro chamar de mentira. A expressão “fake news”, de tão repetida, parece ter perdido a capacidade de comunicar a gravidade do que descreve. Quando alguém inventa uma declaração, fabrica uma acusação ou manipula um vídeo para enganar, a palavra mentira dá nome ao ato e à responsabilidade de quem o pratica.

Mas como enfrentar uma mentira que nem sequer sabemos que está circulando? Podemos acompanhar política diariamente e desconhecer histórias que ocupam o centro das conversas em outros grupos. O *isolamento algorítmico*, combinado às nossas redes de afinidade, ajuda a produzir essa distância: o que aparece repetidamente na nossa tela pode ser quase invisível na tela de outra pessoa.

Imagine alguém que abre o celular e encontra, em sequência, um assalto, uma reclamação sobre o preço dos alimentos, uma fila de hospital e uma piada dizendo que o país acabou. Nenhum desses conteúdos precisa pedir voto. Juntos, podem alimentar a impressão de que tudo está piorando. Outra pessoa, recebendo uma seleção diferente, pode formar uma percepção muito distinta do mesmo país.

O algoritmo participa dessa seleção. É o conjunto de regras e cálculos que ajuda a decidir o que aparece na tela e em qual ordem. A plataforma usa sinais do nosso comportamento para prever o que despertará interesse. A própria Meta explica que a possibilidade de compartilharmos uma publicação entra nessa conta. Aos poucos, nossas escolhas ajudam a orientar novas recomendações, que, por sua vez, influenciam aquilo que teremos oportunidade de escolher. [1]

Esse mecanismo se combina com as pessoas que seguimos e os grupos de que participamos. No WhatsApp, por exemplo, a mensagem pode chegar porque um parente a encaminhou. A confiança em quem envia pode substituir o cuidado de conferir a origem. Por isso, o isolamento não depende apenas de uma decisão automática: também se forma nas relações que cultivamos. [2]

A pesquisa ajuda a enxergar o tamanho do problema. Um estudo publicado na revista Science, com dados de 208 milhões de usuários do Facebook durante a eleição americana de 2020, encontrou uma separação crescente entre os públicos: ela aumentava quando os pesquisadores passavam do conteúdo disponível para o efetivamente visto e, depois, para aquele que recebia interação. Havia também um segmento consumido quase exclusivamente por conservadores, no qual se concentrava a maior parte da desinformação identificada pelo programa de checagem da plataforma. [3] É um resultado daquele contexto, que ajuda a formular perguntas sobre o Brasil. 

Aqui, há uma organização de produção e circulação que merece atenção. A *TV Celular*, identificada no próprio site como propaganda eleitoral do PL, reúne vídeos oficiais da campanha de Flávio Bolsonaro. O site oferece cortes prontos para baixar e publicar em diferentes redes, separados por temas, e anuncia material novo todos os dias. O apoiador recebe uma peça preparada para redistribuição. [4] Outro exemplo aparece em investigação do Intercept sobre a *Fábrica de Cortes do Missão*, ligada ao MBL. A reportagem documentou uma estrutura no Discord que disponibilizava vídeos, memes e trilhas, além de um curso associado à promessa de renda com a monetização das plataformas. [5] São exemplos de organização da distribuição. Identificar uma mentira exige examinar cada conteúdo; a existência dessas estruturas, sozinha, não comprova falsidade. 

Parte da direita incorporou a política à rotina do entretenimento. Uma entrevista longa se transforma em vários vídeos curtos. Uma acusação pode reaparecer como piada, montagem ou comentário indignado. O estudo de Marcio Serelle e Rosana de Lima Soares sobre as eleições de 2018 examina justamente como informação, diversão e desinformação se misturam nesses formatos. [6] A mentira pode chegar entre dois vídeos engraçados, sem a aparência de uma notícia que precisamos conferir. 

A circulação também atravessa plataformas. Victor Piaia e Marcelo Alves analisaram quase 195 mil mensagens de 21 grupos bolsonaristas de WhatsApp em 2018. Os cem participantes mais ativos responderam por cerca de 41% das mensagens. O resultado mostra como poucos distribuidores podem abastecer muitas conversas. [7] Uma mensagem reenviada por alguém próximo pode ter percorrido uma longa cadeia antes de chegar ao nosso celular. 

É justamente a propaganda implícita que mais merece atenção: aquela que procura influenciar nossa avaliação do país sem se apresentar como campanha. Um conjunto de episódios pode ser selecionado e repetido para sugerir que nada funciona. Isso não transforma toda notícia negativa em propaganda, nem exige que cada episódio seja inventado. O engano pode estar em apresentar um recorte como retrato do conjunto, omitir o contexto ou atribuir responsabilidades falsas. A questão é o sentido que essa sequência ajuda a construir.

A repetição também pode tornar uma afirmação mais convincente. Em experimentos, Gordon Pennycook e seus colegas observaram que uma única exposição anterior a uma manchete falsa já aumentava sua credibilidade em uma avaliação posterior. [8] A familiaridade pode ser confundida com verdade. Isso ajuda a compreender o risco de encontrar a mesma mentira em um vídeo, numa montagem e, depois, numa mensagem de alguém conhecido. 

E há evidência de que a seleção algorítmica muda opiniões. Um experimento realizado nos Estados Unidos em 2023 e publicado na Nature em 2026 mostrou que usuários levados a trocar o feed cronológico do X (antigo Twitter) pelo feed selecionado pelo algoritmo passaram a expressar posições mais conservadoras sobre prioridades de políticas públicas e acontecimentos políticos. [9] A identificação partidária não mudou significativamente: o efeito apareceu na maneira de avaliar os assuntos, mesmo sem troca declarada de partido. 

A mobilização recente em torno de Lula também precisa ser observada para além da nossa própria tela. Segundo levantamento da Bites, divulgado pelo Poder360, os perfis oficiais do presidente somaram 110,7 milhões de interações entre 5 e 17 de outubro, contra 31,3 milhões nos perfis de Flávio, somadas em cinco plataformas: X, Instagram, Facebook, TikTok e YouTube. [10] Há um crescimento relevante da presença digital. Esses números, porém, não informam quantas pessoas diferentes foram alcançadas nem quantas estavam fora da base de cada candidato. De toda forma, há a hipótese forte de que a tendência de crescimento nas intenções de voto do presidente seja resultado da sua maior presença digital. 

O que se precisa encarar é que uma semana de intensa participação nas redes de apoiadores petistas não é suficiente para desmontar estruturas permanentes de produção e distribuição de conteúdo. O enfrentamento da mentira exige continuidade: apuração, jornalismo e capacidade de conhecer o que circula além do nosso próprio grupo. Celebrar o movimento que enxergamos na tela é compreensível; confundi-lo com tudo o que acontece no país nos devolve ao problema inicial. 

O isolamento algorítmico também limita nossa percepção da própria eleição. Enquanto discutimos o que aparece diante de nós, outras conversas seguem acontecendo fora do nosso campo de visão. E uma mentira não deixa de circular porque não apareceu no nosso celular. Qualquer que seja o resultado do pleito eleitoral, fica o aprendizado de que a percepção pessoal da realidade mudou, especialmente porque estamos cada vez mais isolados. Mesmo entre grupos de perfil social e político semelhantes, não há uniformidade sobre o conjunto de informações produzidas e consumidas entre nós. 2027 será um ano de transformação, independentemente da vitória. 

Doutora e mestre em Direito pela UFMG. Pesquisadora de pós-doutorado em Ciências da Computação na UFAM. Professora de cursos de capacitação e pós-graduação em IA. Especialista no desenvolvimento de produtos com IA.

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