A ‘carta-bomba’ de demissão do ex-diretor da Loteria Mineira

Em ofício, ex-dirigente da autarquia apontou questões que o fizeram pedir para deixar o cargo na semana passada
Itens de sorteios lotéricos
Após a saída de Onésimo, a Loteria Mineira passou a ser comandada pelo ex-corregedor-geral do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), Luciano França da Silveira Júnior. Foto: SEF-MG/Divulgação

O ex-diretor-geral da Loteria do Estado de Minas Gerais (LEMG), Onésimo Diniz Moreira, pediu para sair do cargo alegando uma série de discordâncias com a condução da autarquia. As afirmações constam em carta enviada por ele em 1° de junho à secretária de Desenvolvimento Econômico, Mila Batista Leite Corrêa da Costa.

No comunicado, obtido por O Fator, Onésimo diz que o contrato de concessão firmado em 2023 para a exploração dos serviços lotéricos estaduais possui meta financeira mínima, o que classifica como “desfavorável à administração pública”.

De acordo com Onésimo, o acordo de concessão “engessa e limita os direitos da LEMG, dificultando e até mesmo impedindo a cobrança na execução do contrato, e consequentemente sendo desvantajoso para a autarquia”.

No documento, ele ainda afirma não concordar com a modelagem de um novo edital, com a perda de receita projetada para 2026 e com ingerências externas sobre a gestão da Loteria.

“Considerando que as questões expostas acima vêm tornando a gestão insustentável, peço, neste ato,a minha exoneração do cargo de Diretor-Geral da Loteria do Estado de Minas Gerais”, pontua, na declaração.

Críticas a novo edital

Criticado por Onésimo, o novo edital foi lançado em 26 de fevereiro.O documento estabelece uma série de critérios para a definição da empresa vencedora, como experiência em jogos lotéricos virtuais, quantidade de apostas realizadas e certificações internacionais. Conforme a Loteria Mineira, a expertise terá peso de 70% no resultado final, enquanto a proposta de preço terá valoração de 30%.

Pelo modelo contratual anexado aos documentos da licitação, a arrecadação bruta mínima estipulada para o tempo de vigência do acordo é de R$ 15,4 bilhões. Como O Fator já mostrou, players do setor lotérico temem que a redação original da concorrência ocasione continuidade do grupo que administra a LEMG desde 2011 e que, no ano retrasado, viu um de seus sócios ser destituído

Segundo Onésimo, a modelagem da minuta do edital foi direcionada pelo 1º vice-diretor-geral, Antônio Celso Alves Pereira Filho. Ele não detalha os pontos técnicos da concorrência, mas registra a discordância como um dos motivos centrais para não permanecer à frente da LEMG.

Outro ponto destacado por Onésimo é a “perda de Receita no exercício de 2026”, que ele atribui diretamente a uma “escolha de Governo”. A carta não especifica quais medidas do Executivo teriam levado à redução da arrecadação, mas vincula a queda de receita à política definida para a Loteria neste ano.

Ele também menciona “precariedade no quadro de servidores” e“falta de resposta ao trabalho essencial de reestruturação operacional”.

Sob nova direção

Após a saída de Onésimo, a Loteria Mineira passou a ser comandada pelo ex-corregedor-geral do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), Luciano França da Silveira Júnior, que assumiu a diretoria-geral na quinta-feira (2).

A vice-diretoria-geral ficou com Vanderlei Daniel da Silva, auditor de carreira da Controladoria-Geral do Estado (CGE), que passa a compor a nova cúpula da LEMG. A carta de Onésimo não faz referência aos sucessores nem comenta os rumos esperados para a gestão que assume o comando da autarquia.

Lucas Ragazzi é jornalista investigativo com foco em política. Integrou o Núcleo de Jornalismo Investigativo da TV Globo e tem passagem pelo jornal O Tempo, onde cobriu o Congresso Nacional e comandou a coluna Minas na Esplanada, direto de Brasília, e pela Itatiaia. É autor do livro-reportagem “Brumadinho: a engenharia de um crime”.

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