A silenciosa epidemia das mortes por calor em excesso

Morte de estudante que queria assistir ao show de Taylor Swift, em 2023, jogou luz sobre as consequências das altas temperaturas
onda de calor Rio de Janeiro
Onda de calor no Rio de Janeiro, em novembro de 2023, quando ocorreu a morte no show da cantora Taylor Swift. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

A morte da estudante de psicologia Ana Clara Benevides Machado, no dia 17 de novembro de 2023, talvez passasse despercebida não fosse a associação a um ícone da música pop internacional: a cantora norte-americana Taylor Swift. Ana Clara era uma das fãs que aguardava o início do show de Taylor no Estádio Nilton Santos, no Rio de Janeiro (RJ), e morreu de exaustão térmica por causa da onda de calor que assolava a cidade naqueles dias, com temperatura de 40 °C e sensação de 60 °C.

O óbito da jovem virou notícia e, assim, jogou luz sobre um tema pouco debatido: o aumento do número de mortes causadas pelo calor externo. Falecimentos do tipo acontecem pela perda da capacidade de o organismo se resfriar, levando a um quadro de insolação grave, no qual a temperatura corporal sobe rapidamente para níveis acima de 40 ºC, quatro graus acima do normal.

A sobrecarga no sistema de resfriamento do corpo causa a dilatação dos vasos sanguíneos para a liberação de calor, a disfunção do Sistema Nervoso Central e e a falência de órgãos vitais, como rins, fígado, pulmões e coração. Naquele dia, Ana Clara chegou às 11h ao estádio, para assistir ao show. A morte aconteceu às 20h50, em um hospital.

A relação entre as ondas de calor e o aumento do número de mortes foi constatada por estudo realizado por 12 cientistas brasileiros e portugueses, com base no cruzamento de informações sobre temperatura e número total de óbitos no período pesquisado, que vai de 2000 a 2018. Os registros de temperatura são do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Os dados quanto ao número de óbitos foram fornecidos pelo DataSUS.

O resultado da pesquisa apontou que 48.075 mortes teriam sido causadas pelo calor excessivo. Para chegar a esse número, os pesquisadores levantaram o tempo de duração de cada onda de calor e a quantidade de mortes ocorridas em cada um dos períodos.

Na etapa seguinte do estudo, os cientistas compararam o número de possíveis mortes associadas às altas temperaturas com os dados de óbitos naquele mesmo período, mas em anos anteriores onde não houve aumento da média normal de temperatura. A diferença entre os registros configura o que os pesquisadores definem como “mortes em excesso” devido ao calor extremo.

Na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), 3.263 mortes ocorridas entre 2000 e 2018 se encaixam no critério que baseou o levantamento. De acordo com o estudo, a média diária de mortes por calor excessivo na RMBH passou de 1,06 na década de 1970 para 1,89 no período pesquisado. Os maiores valores absolutos foram registrados em São Paulo (14.850) e no Rio de Janeiro: 9.641

A pesquisa foi realizada nas 14 regiões metropolitanas mais populosas do país. A equipe reuniu cientistas do Brasil e de Portugal vinculados a instituições como a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e a Universidade de Lisboa. A liderança coube a Djacinto Monteiro dos Santos, do Departamento de Meteorologia da UFRJ.

O estudo apontou que o número de ondas de calor passou de uma média de zero a três nos anos de 1970 para uma média de três a 11 nos anos de 2010. Houve aumento também da duração de cada período de temperaturas excessivamente altas, que passou de três a cinco dias nos anos de 1970 para de quatro a seis a partir dos anos 2000.

A maior parte das mortes em excesso ocorreu entre pessoas com mais de 65 anos, afetando mais as mulheres. Entre os idosos, os maiores registros de morte foram entre os pretos e pardos de baixa escolaridade.

Para o infectologista Carlos Starling, a crise climática vai ampliar as desigualdades, atingindo os mais pobres de uma forma que ele define como “catastrófica”.

“Vai tornar a vida das pessoas mais vulneráveis cada vez pior”, afirma o médico, que é coordenador do Serviço de Epidemiologia e Controle de Infecções Hospitalares dos hospitais Vera Cruz, Lifecenter e Baleia, em Belo Horizonte.

Prefeitura de BH também constatou aumento

O crescimento do número de mortes em dias de temperaturas muito altas também foi constatado pela Prefeitura de Belo Horizonte no estudo que serviu de base para a elaboração do Protocolo de Calor do município. De acordo com o material, entre 2014 e 2024 houve 1.626 dias em que a temperatura na capital situou-se entre 29,3 ºC e 31,9 ºC.

Nestes dias, a média diária de mortes foi de 48. Na situação mais extrema da escala, quando a temperatura ultrapassou 35,8 ºC, o número de mortes passou para 55,1. Entre 2014 e 2024, foram 40 dias com a temperatura nesse patamar na capital mineira.

O aumento do número de mortes  não ocorre apenas no Brasil. Ano passado, 546 mil pessoas foram vítimas das consequências do calor extremo em todo o mundo. Outras 154 mil acabaram sucumbindo a problemas causados pela fumaça dos incêndios florestais. Os números constam do relatório “Contagem regressiva em saúde e mudanças climáticas”, elaborado por mais de 100 cientistas de diversos países para a revista The Lancet, em parceria com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e divulgado mês passado.

Protocolos de calor

O aumento das mortes por causa das altas temperaturas levou a prefeitura do Rio de Janeiro a lançar, em outubro de 2024, o primeiro Protocolo de Calor do país. O documento adota um sistema de cinco níveis de alerta.

No nível um, a recomendação é para prevenção e conscientização, com orientações sobre autocuidado, hidratação e proteção solar. O nível cinco, o mais crítico, prevê a suspensão de atividades externas, realocação de profissionais para áreas críticas e organização da rede hospitalar para atender os casos mais graves.

O quinto nível ainda não foi atingido, mas o nível quatro, sim, em fevereiro, quando a capital carioca registrou temperaturas entre 40 ºC e 44 ºC. O último estágio só é acionado em caso de temperaturas maiores que 44 ºC.

Em Belo Horizonte, o Protocolo de Calor de calor já tem uma primeira versão. A previsão é que que os riscos à saúde sejam classificados em cinco níveis. O primeiro, de risco considerado muito baixo, é para temperaturas entre 29,3 ºC e 32 ºC.

O nível máximo de alerta, o quatro, é para temperaturas superiores a 35,8 ºC por dois dias consecutivos. Entre as ações previstas para o patamar mais crítico, estão o acompanhamento da ocupação de leitos em tempo real, o monitoramento completo de óbitos que podem estar relacionados ao calor, bem como restrição de atividades até mesmo para pessoas consideradas como não vulneráveis.

Lacuna de notificações

A recomendação para que ocorra um acompanhamento mais de perto dos óbitos que possam estar relacionados ao calor visa preencher uma lacuna no registro das mortes causadas pelo clima quente. É que nem sempre os registros oficiais de óbito associam a morte às temperaturas elevadas, mencionando apenas as causas diretas.

No Cadastro Internacional de Doenças (CID), que os médicos utilizam para apontar a causa mortis, há códigos específicos para vítimas de calor. São eles:

  • X30 – Exposição a calor natural excessivo;
  • T67 – Efeitos do calor e da luz;
  • T67.0 – Golpe de calor e insolação.

A subnotificação de mortes por calor ocorre porque a causa principal é frequentemente registrada como uma condição preexistente agravada pelo calor, como problemas cardíacos, respiratórios ou renais, em vez da própria temperatura elevada.

Esse, segundo Djacinto Monteiro dos Santos, um dos coordenadores do grupo que mapeou as mortes em dias de calor nas 14 regiões metropolitanas do país, foi um dos problemas detectados pela pesquisa. Ele considera o calor extremo um desafio emergente para a saúde pública no Brasil por se tratar de uma anomalia climática que não aparece nos sistema de vigilância da saúde nem tem visibilidade pública suficiente.

O médico infectologista Carlos Starling também concorda que as mortes causadas por calor são subnotificadas, ainda que existam CIDs específicos para isso. O problema, segundo ele, é que muitas vezes o médico que fica no pronto atendimento nem sempre tem condições de fazer um diagnóstico mais preciso do que teria produzido aquela morte.

Aedes aegypti, o mosquito que fez a migração do vírus da dengue, da floresta para as cidades Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Desmatamento também pode matar

Na crise climática, além do calor, há outro fator que pode causar a morte de humanos: a destruição de habitats onde, em perfeito equilíbrio com a natureza, viviam os arbovírus, nome dado aos vírus transmitidos por artrópodes, como mosquitos e carrapatos. Na floresta, eles ficam à parte dos humanos, perpetuando-se por ciclos complexos e pouco conhecidos, que envolvem inúmeros vetores e hospedeiros, todos da própria floresta.

Sua migração ocorre quando a floresta é destruída e o mosquito ou carrapato infectado pica o humano, dando início a um processo epidemiológico sobre o qual nem sempre é possível ter o controle. Dengue, chikungunya e zika são exemplos de doenças que migraram para o ambiente urbano e passaram a exigir cuidados especiais das autoridades sanitárias.

Hoje, segundo Carlos Starling, o número de casos de dengue nas Américas chegou a 13 milhões, com cerca de oito mil mortes. A doença aterrissou na Europa, com casos registrados em Portugal, na Espanha e na Itália.

Outro exemplo, de acordo com Carlos Starling, é a febre oropoushi, cujos sintomas são semelhantes aos da dengue: dor de cabeça intensa, dor muscular, náusea e diarreia. Na Floresta Amazônica, o vírus vive em bichos-preguiças e macacos. Sua transmissão é feita por um mosquito. Com a destruição das florestas, os mosquitos migraram para as cidades, onde a temperatura maior acelera o desenvolvimento da larva.

“Nas florestas, doenças que ficavam mais contidas tinham um ciclo silvestre quase que exclusivo. Com a destruição da floresta, o mosquito sai de lá e se adapta às cidades”, explica Carlos Starling, para quem o ambiente urbano é adequado também ao mosquito. “As cidades da América Latina são caóticas, com locais que acumulam água e onde falta esgoto e coleta de lixo”, completa.

Starling afirma que as mortes causadas tanto por calor extremo quanto por arboviroses são os dois lados de um problema único criado pelo próprio ser humano – a crise climática.

“O preço já está sendo pago”, ressalta o infectologista, que se mostra cético quanto ao futuro, a menos que sejam revistos os atuais modelos de desenvolvimento e criados mecanismos de proteção dos vulneráveis. “O mundo ainda vai sofrer muito com o aquecimento e as doenças”, pontua.

Há algumas semanas, Starling publicou uma crônica na qual descreveu o dia em que um mosquito chegou à Islândia fugindo do calor excessivo dos trópicos.

“O mosquito zumbe, impertinente, no ouvido da civilização. Não é apenas um inseto. É um símbolo de que nossa arrogância tem asas curtas, mas consequências longas. Enquanto debatemos trivialidades, o picolé derrete e o mundo que conhecíamos se desfaz em gotas de lágrimas salgadas. Está aí a lição amarga que nos recusamos a aprender: às vezes, o menor dos insetos é o maior dos juízes. E seu veredito, escrito com o sangue que nos suga, é implacável: culpados somos todos nós”, escreveu.

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