Desmatamento cresce 110% no Cerrado em MG, na maior alta entre estados

Servidores denunciam pressão para autorizar desmate; áreas desmatadas devem sofrer queimadas, diz pesquisador
Motosserra ao centro, em área de vegetação desmatada.
Desmatamento avança no Cerrado em Minas Gerais Foto: Guilherme Dardanhan/ALMG

Minas Gerais mais que dobrou o desmatamento no Cerrado nos últimos seis meses e se tornou o estado com o maior crescimento de devastação no bioma em todo o país. Foram desmatados 273 quilômetros quadrados (km²) entre o início de setembro de 2025 e o fim de fevereiro de 2026, segundo levantamento exclusivo obtido por O Fator no sistema de alertas DETER do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

A área desmatada representa um aumento de 110% em relação à devastação no mesmo período do ano anterior, quando o órgão registrou 130 km² de vegetação suprimidos.

Além de ter voltado a crescer, o desmatamento mineiro destoa do que aconteceu no resto do Cerrado. No mesmo intervalo, o bioma registrou queda de 2,9% na área total degradada, que chegou a 2.053,49 km² em todo o país. A redução foi puxada por estados como Piauí (-51%), Bahia (-22%) e Tocantins (-8%).

Mesmo em Goiás (+63%) e no Mato Grosso (+42%) o crescimento da área desmatada foi menor do que em Minas Gerais. São Paulo e Distrito Federal, por terem desmatamento total inferior a 5 km² em áreas do Cerrado nesse período, não possuem bases comparáveis.

“É um padrão acima de anos anteriores quando você olha só para o estado de Minas Gerais”, aponta Cláudio Almeida, coordenador do Programa BiomasBR do Inpe.

Entre o início de setembro de 2023 e o fim de fevereiro de 2024, a área desmatada no Cerrado mineiro também alcançou 270 km². Ou seja: a taxa desmatada nos últimos seis meses voltou ao patamar de dois anos atrás.

Áreas desmatadas devem sofrer queimadas

Almeida, do Inpe, destaca que as imagens de satélites do DETER servem como orientação em tempo real para equipes de fiscalização. Mas a preocupação não é só com o presente, pois, pelo modo de atuação de quem desmata, os perímetros de vegetação destruída provavelmente devem sofrer queimadas nos meses de estiagem no Cerrado, que vai de maio a novembro.

“Provavelmente nessas áreas desmatadas nos últimos seis meses, quando entrar o período a partir de abril e maio, há chance muito alta de ter queimada”, alerta.

Ainda conforme o especialista, desmatamento e as queimadas provocam danos diretos à saúde pública e à sustentabilidade hídrica das regiões afetadas.

“Em regiões onde há muita queimada, surgem problemas de saúde. E o Cerrado tem função importantíssima para captação de água. Quando você substitui essa vegetação por elementos de cultivos agrícolas, como áreas de pastagem, você muda bastante o balanço hídrico daquela região”, explica.

Pelos estudos e monitoramentos contínuos realizados pela rede MapBiomas, que acompanha a situação da vegetação nacional, fica claro que o avanço do desmatamento mineiro tem sido puxado principalmente por novas fronteiras de agropecuária. Marcos Rosa, coordenador-técnico do da plataforma, ressalta que apenas uma pequena parcela de propriedades rurais promovem a supressão.

Ao contrário da Mata Atlântica e da Amazônia, que contam com normas mais restritivas ao desmatamento, as leis aplicáveis ao Cerrado abrem margem para que seja preservado somente 20% da área de cada propriedade como reserva legal, contra 80% na Amazônia. O resultado prático, segundo Yuri Salmona, diretor-executivo do Instituto Cerrados, é que nesse bioma há maior discricionariedade para governantes autorizarem o desmatamento de até 80% de uma propriedade. Isso faz com que a vegetação do Cerrado mineiro seja mais vulnerável e desprotegida. 

“Não é que a lei diz que deve desmatar 80%. É discricionário para a secretaria do meio ambiente dizer quanto pode ou não”, afirma.

Ainda assim, o diretor-executivo do Instituto Cerrados salienta que, mesmo nos casos de desmatamento autorizado, é crucial examinar o verdadeiro impacto dessa devastação e os fundamentos jurídicos de autorizações. 

“Um ponto importante é que por mais que haja a autorização não quer dizer que a autorização é devida e qualificada. Tem que olhar caso a caso para ver se está tudo certo e geralmente não está”, pondera.

Servidores citam pressão para validar desmatamento

Como um dos motivos que explicam essa alta na destruição do Cerrado, servidores dos órgãos ambientais mineiros citam a vigência de um sistema institucional que, na prática, favorece autorizações de desmatamento. Técnicos relataram a O Fator que há “pressão para analisar rápido, sem vistoria” os pedidos de autorização para supressão de vegetação, o que dificulta promover vistorias presenciais ou fiscalizações. 

Quem atua na preservação ambiental mineira também avalia que os legisladores estaduais facilitaram essa devastação ambiental, pois para desmates inferiores a 10 hectares não é necessário juntar nem inventário florestal nem levantamento florístico nos pedidos de autorização de intervenção ambiental, que permitiriam analisar cientificamente o verdadeiro prejuízo à fauna e à flora.

Francisco de Assis, diretor de políticas ambientais do Sindicato dos Servidores Públicos do Meio Ambiente no Estado de Minas Gerais (Sindsema-MG), avalia que, de maneira geral, o estado facilita a regularização de áreas ilegalmente desmatadas.

“O governo de Minas Gerais criou o Documento Autorizativo para Intervenção Ambiental (DAIA), que, mesmo após o ilícito, permite regularizar a área pagando taxas e anotando responsabilidade técnica”, inicia. “Apesar de ser desmatamento ilegal, depois consta como legal no sistema”, conclui.

Cristiano Tanure, vice-presidente do Sindsema-MG, destaca ainda que as metas de produtividade dos servidores do Instituto Estadual de Florestas (IEF) dependem também de despachar esses processos de autorização de desmatamento.

“O IEF dá uma prioridade grande a processos de intervenção ambiental. Metas de produtividade das regionais estão muito ligadas a esses processos. É uma prioridade institucional do IEF”, diz.

Governo nega pressão

Procurados por O Fator, o IEF e a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) de Minas Gerais não comentaram os registros de desmatamento do sistema DETER do Inpe. Em nota, o IEF alegou que acompanha a cobertura vegetal com “metodologia própria de monitoramento” e que, “em razão das especificidades técnicas do sistema utilizado pelo órgão”, não se pronuncia sobre dados de outras plataformas.

A Semad alegou ainda que houve fortalecimento das ações de fiscalização. Segundo a pasta, entre abril de 2025 e 24 de março de 2026, foram realizadas 11.393 fiscalizações em todo o estado, concentradas nas regiões Norte, Noroeste, Jequitinhonha e Nordeste. 

O IEF argumenta também que todas as solicitações protocoladas no órgão “são avaliadas com base em critérios estritamente técnicos, observando rigorosamente a legislação ambiental vigente e as normas aplicáveis”. 

O órgão também negou episódios de pressão sobre servidores para legalizar áreas desmatadas.

“O instituto rechaça afirmações inverídicas sobre pressão para análise de processos de intervenção ambiental por servidores. Também é absolutamente improcedente a afirmação de atribuir metas de produtividade à concessão de autorizações ambientais. A atuação dos órgãos que integram o Sisema: Semad, Igam (Instituto Mineiro de Gestão das Águas), Feam (Fundação Estadual do Meio Ambiente) e IEF segue pautada pelos princípios da legalidade, impessoalidade e transparência, garantindo a conformidade com os instrumentos legais e a proteção do meio ambiente”, afirmou em nota. 

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