Interdição da ferrovia Vitória–Minas chega ao quinto dia e trava fluxo de exportação e abastecimento entre MG e ES

A EFVM é um dos principais corredores de transporte de carga do Sudeste, conectando industrias e produtores de grãos aos portos
Com a ferrovia fora de operação, o transporte passa a depender de rotas rodoviárias mais longas. Foto: Reprodução

A interdição da Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM) em Resplendor, no Vale do Rio Doce, por indígenas Tupiniquim da Terra Indígena de Aracruz (ES), completa cinco dias nesta quinta-feira (26). O bloqueio interrompe o escoamento de cargas de siderurgia, celulose, grãos, fertilizantes e combustíveis, redesenha rotas logísticas de grandes empresas e pressiona custos de transporte em Minas Gerais e Espírito Santo. O movimento também mantém paralisado o trem de passageiros entre Belo Horizonte e Cariacica (ES), que deixou de transportar cerca de 11,5 mil pessoas no período.

A EFVM é um dos principais corredores de transporte de carga do Sudeste, conectando polos industriais, produtores de grãos e unidades de celulose aos portos capixabas. Com o trecho em Resplendor parado, fluxos programados de exportação e de abastecimento interno são interrompidos ou desviados para outros modais.

A interdição atinge um sistema estruturado para operar em grandes volumes e em longa distância, em que a ferrovia é planejada como eixo central de contratos de fornecimento. A necessidade de reorganizar em poucos dias um fluxo construído com antecedência compromete cronogramas de produção e embarque.

Na siderurgia, a paralisação da EFVM afeta o envio de minério e de produtos siderúrgicos destinados a clientes no mercado interno e no exterior. A redução da capacidade ferroviária exige remanejamento de cargas para rodovias, com menor escala e maior custo por tonelada transportada.

Para o presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), Flávio Roscoe, a manifestação gera um prejuízo para todos os setores. “Na minha leitura, este tipo de manifestação é um grave atentado ao estado democrático de direito. As pessoas têm a liberdade de discordar, de pleitear, de protestar, mas sem com isso impedir e tornar inviável atividades produtivas ou até mesmo circulação de pessoas e mercadorias. No caso, o impedimento da circulação do trem da Vale gera um prejuízo extraordinário, não somente para a empresa Vale, mas para todos aqueles que utilizam a ferrovia, inclusive o trem de passageiros, está desativado, o direito de uso não pode sobrepor direitos de todos. Há prejuízos contratuais enormes, a tribo indígena, que os povos indígenas em questão já haviam sido contemplados no acordo e agora discordam do valor. Saem do acordo e aí protestam, lembrando que o acordo tem valores bilionários para os povos indígenas, então no nosso entendimento o Estado deve recuperar o Estado democrático de direito, retirar as pessoas que estão impedindo as circulações de pessoas e mercadorias e garantir o Estado Isso tem que ser feito imediatamente e não tem cidadão melhor que o outro, não tem direito maior que dos outros, somos todos iguais perante a Constituição e temos que seguir as regras do ordenamento jurídico brasileiro e o ordenamento diz que esse tipo de ocupação não deve ser permitida, já que a sociedade, o interesse coletivo vem em primeiro lugar”.

Produtores de celulose que utilizam o corredor Vitória–Minas para levar cargas até o litoral também são impactados pela interrupção. A mudança de modal ou a postergação de embarques pode alterar janelas de exportação e contratos com compradores internacionais.

O bloqueio atinge ainda o transporte de grãos e de fertilizantes, que têm na ferrovia um canal para movimentar grandes quantidades a menores custos logísticos. A interrupção do fluxo ferroviário ocorre em momento de disputa por capacidade de transporte, com impacto direto sobre o planejamento da safra.

No caso dos fertilizantes, atrasos na entrega e encarecimento do frete tendem a ser repassados à cadeia produtiva, com efeito sobre o custo final para o produtor rural. A necessidade de deslocar cargas para caminhões cria gargalos adicionais em rodovias e terminais já pressionados.

O abastecimento de combustíveis, sobretudo no Leste mineiro, também é afetado, já que a EFVM é usada para levar derivados de petróleo a bases e distribuidoras regionais. Estima-se que cerca de 1 milhão de litros de diesel deixaram de ser distribuídos durante o período de interdição.

Com a ferrovia fora de operação, o transporte passa a depender de rotas rodoviárias mais longas, o que pode provocar atrasos na reposição de estoques e maior custo logístico para distribuidoras e postos. A concentração emergencial no modal rodoviário expõe limites de capacidade para absorver, em curto prazo, o volume que normalmente circula sobre trilhos.

Lucas Ragazzi é jornalista investigativo com foco em política. Integrou o Núcleo de Jornalismo Investigativo da TV Globo e tem passagem pelo jornal O Tempo, onde cobriu o Congresso Nacional e comandou a coluna Minas na Esplanada, direto de Brasília, e pela Itatiaia. É autor do livro-reportagem “Brumadinho: a engenharia de um crime”.

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