Energia solar cresce 18% em MG, supera Chile e Portugal, mas subsídio encarece tarifa

Sem custeio público para usinas fotovoltaicas, reajuste da Cemig de 2025 teria sido de 5,5%, não de 7,5%, diz consultoria
Placas de energia fotovoltaica vistos em área rural do estado de Minas Gerais.
Placas de energia solar no estado de Minas Gerais. Foto: Victor Fagundes / Sede-MG

Unidade da federação que mais contribui para o sistema interligado com energia solar, Minas Gerais viu o ano de 2025 terminar com um crescimento de 18,4% na capacidade instalada dessa fonte de energia, que passou de 11,7 para 13,8 gigawatts, entre geração distribuída (GD) e usinas centralizadas, o que já é mais do que a capacidade de países inteiros como Chile e Portugal. 

Mas a expansão cobra um preço de quem ficou de fora. Isso porque os subsídios explícitos a essa matriz foram responsáveis por quase um terço do reajuste tarifário da Companhia Energética (Cemig) no ano passado. Segundo a TR Soluções, o subsídio público à energia solar adicionou explicitamente cerca de 2 pontos percentuais à alta de 7,5% na tarifa residencial da concessionária em 2025. E deve pesar mais ainda no aumento deste ano, que será divulgado em maio pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

“Se não fosse pelo aumento desse subsídio, o mineiro teria percebido uma alta nas tarifas de 5,5% em vez dos 7,5% observados”, afirma Helder Sousa, diretor de Regulação da TR Soluções. 

Para 2026, a tarifa será pressionada também pela crise no mercado de energia com o bloqueio imposto pelo Irã à circulação de petroleiros no estreito de Hormuz. Isso praticamente parou o tráfego de navios na rota por onde passa 20% do petróleo e 25% do gás natural do mundo. O bloqueio é uma reação iraniana aos bombardeios e ataques coordenados pelos Estados Unidos e por Israel contra o país desde 28 de fevereiro. O bloqueio disparou os preços de energia elétrica no mercado livre, que também interfere no cálculo de tarifas para consumidores residenciais.

Subsídios pagos pelos consumidores

Na fórmula da tarifa dos consumidores, a crise externa se soma ao crescimento do dispêndio público reservado para a rubrica de geração distribuída, como é conhecida a energia solar gerada por micro e minigeradores como painéis solares em residências, dentro da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), encargo setorial cobrado dos consumidores para que o governo federal subsidie políticas públicas, como o incentivo à expansão de fontes renováveis de energia. 

O subsídio para geração distribuída cresceu 87% no orçamento aprovado pela Aneel para a CDE em 2026, de R$ 3,7 bilhões para R$ 6,9 bilhões. No total, o encargo saiu de um custo de  R$ 49,2 bilhões para R$ 52,7 bilhões neste ano. 

Embora o gasto com geração distribuída tenha aumentado, a CDE cresceu também devido à nova Tarifa Social (Lei 15.235/2025), que substituiu descontos pela isenção total do consumo de até 80 kWh/mês para consumidores de baixa renda. A maior parcela dessa conta é paga pelo consumidor residencial.

A reforma do setor elétrico (Lei 15.269/2025) distribuiu parte do custo da CDE ao mercado livre, o que aliviou a tarifa em 0,81%, segundo estimativas de técnicos da Aneel. Mas não o suficiente para amortecer o subsídio à GD que quase dobrou no mesmo período.

Sol desperdiçado, gás queimado

Para além do aumento de preços, a expansão da energia solar também cria desafios pelo caráter intermitente desse tipo de energia. Daí porque interlocutores do setor apostam que devem crescer os Sistemas de Armazenamento de Energia por Baterias (Saeb), que poderiam guardá-la para consumo nos períodos em que não há incidência solar. A Cemig inaugurou em janeiro um Saeb em Serra da Saudade, no Centro-Oeste mineiro, para abastecer cerca de 800 habitantes

Só que, sem esses sistemas de baterias, quando usinas fotovoltaicas produzem mais energia do que a rede pode absorver, há desperdício. Quando isso ocorre, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) ordena cortes compulsórios, o chamado curtailment.

“Ao mesmo tempo em que há curtailment, tem termoelétrica queimando gás. Esse problema é bem sério, porque prejudica o equilíbrio financeiro das geradoras”, explica o professor Victor Flores Mendes, coordenador do curso de pós-graduação em Energias Renováveis da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Em meio a esse desafio de armazenamento da energia gerada, o ano de 2026 deve ser de novo crescimento para o setor, porque há 8 usinas fotovoltaicas em construção em Minas Gerais, enquanto 499 já tiveram construção outorgada e ainda não iniciaram obras em território mineiro, segundo a Aneel. Atualmente, há 235 empreendimentos do tipo em operação no estado.

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