Governo Zema cita ‘obsolescência’ e ‘degradação’ de hospitais ao pedir aval da Justiça para homologar licitação de novo complexo

Em busca de sinal verde para obra na Gameleira, Executivo diz que atuais unidades enfrentam problemas estruturais
Setor neonatal da Maternidade Odete Valadares
Maternidade Odete Valadares enfrenta problemas hidráulicos e elétricos, segundo o governo. Foto: Cristiano Machado/Imprensa MG

O governo de Minas Gerais anexou, aos autos da ação que discute a licitação para a construção do Complexo de Saúde Hospitalar Padre Eustáquio (HoPe), na Gameleira, em Belo Horizonte, uma nota técnica em que aponta diversos problemas nas casas de saúde que serão incorporadas à nova estrutura. Segundo o documento, há “degradação progressiva” das unidades, que funcionam “aquém do desejável”. As alegações amparam pleito pela retomada do processo licitatório.

O parecer, que data de 7 de janeiro e foi obtido por O Fator, cita a “obsolescência estrutural” dos edifícios que abrigam os hospitais Eduardo de Menezes, João Paulo II e Alberto Cavalcanti, a Maternidade Odete Valadares e o Laboratório Central da Fundação Ezequiel Dias (Funed).

O projeto prevê a integração das cinco unidades, hoje independentes, em um único espaço, na área do antigo Hospital Galba Veloso. A licitação foi vencida pelo pelo Consórcio Saúde Hope, formado pelas empresas Integra Brasil, Oncomed Centro de Prevenção e Tratamento de Doenças Neoplásicas e B2U Participações, mas a homologação do resultado está suspensa. A paralisação aconteceu porque em 26 de dezembro do ano passado a Opy Healthcare, segunda colocada no certame, conseguiu um mandado de segurança

A nota técnica da gestão de Romeu Zema (Novo) foi anexada a partir de um recurso apresentado pelo Palácio Tiradentes a fim de anular o mandado de segurança. O parecer leva as assinaturas de servidores da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), responsável pelo projeto do complexo, e da Secretaria de Estado de Infraestrutura e Mobilidade (Seinfra), que participou da estruturação do leilão. A Companhia de Desenvolvimento Econômico (Codemge) também forneceu informações. 

“A degradação progressiva das edificações e a rigidez das plantas físicas atuais geram custos crescentes de manutenção e impõem limites severos à modernização, inviabilizando, inclusive, a plena adequação às normas vigentes de acessibilidade e vigilância sanitária. Adicionalmente, as infraestruturas atuais carecem de adaptabilidade frente a eventos críticos e inesperados, conforme evidenciado durante a pandemia de COVID-19”, diz um trecho do parecer.

Ao defender a retomada do processo licitatório, o Palácio Tiradentes afirma que a parceria público-privada (PPP) pensada para o complexo se baseia em uma “estrutura flexível”, que permitirá a expansão do número de leitos ofertados e a reconfiguração dos espaços hospitalares para atender demandas emergenciais, como epidemias e desastres naturais. 

“O conjunto desses fatores evidencia o quadro de obsolescência estrutural crítica das edificações atuais, que compromete a qualidade dos serviços de saúde e reforça a necessidade de migração para novas instalações, como proposto no Projeto do Complexo de Saúde HoPe”, lê-se em outra parte do material.

Falhas em bloco cirúrgico e problemas elétricos

A nota técnica também faz um apanhado de problemas dos hospitais. Segundo o governo, a Maternidade Odete Valadares lida com “falhas recorrentes nas redes elétrica e hidráulica”, gerando o bloqueio de leitos. O local ainda sofre com UTIs, enfermarias e salas cirúrgicas em dimensões inadequadas, o que, conforme o Executivo, impede o cumprimento das normas de vigilância sanitária sem que haja redução da capacidade assistencial.

No Hospital Alberto Cavalcanti, cujo carro-chefe é a assistência a pacientes oncológicos, há problemas na climatização de centro cirúrgicos e UTIs, bem como da Central de Material e Esterilização. As lacunas foram  identificadas pela Vigilância Sanitária

“A arquitetura em pavilhões fragmentados dificulta a integração dos serviços e encarece a operação, além de inviabilizar a expansão de áreas críticas, como radioterapia e quimioterapia”, prossegue a nota.

Ao tratar do Eduardo de Menezes, responsável por acolher casos ligados à infectologia, o material diz que “a planta física impede a instalação de sistemas centrais de climatização e limita o adequado isolamento respiratório”.

Sobre o Hospital João Paulo II, voltado à área pediátrica, o documento registra que “a infraestrutura não comporta o fluxo legalmente exigido de acompanhantes, apresenta inconformidades em UTIs e gargalos logísticos”. Há, ainda, problemas na farmácia da casa de saúde.

O tempo de vida das edificações também é considerado problemático. Todos os hospitais abarcados pelo Complexo Hope têm mais de 50 anos de uso, enquanto o Laboratório Central da Funed é ainda mais antigo e data da década de 1940.

O laboratório da Funed, aliás, é citado no relatório como um local construído “sob parâmetros arquitetônicos, tecnológicos e regulatórios hoje superados”. A situação, aprofunda o texto, “compromete a eficiência operacional, a segurança assistencial e a conformidade com a legislação sanitária vigente”

O que está em disputa?

O centro da controvérsia judicial está relacionado aos atestados que comprovam a capacidade técnica do Consórcio Hope para erguer o complexo. 

Os termos da licitação diziam que interessados em participar da licitação precisavam apresentar documentos assegurando a participação na construção de ao menos um empreendimento de saúde com pelo menos 40 mil metros quadrados.

Segundo a Opy, o atestado técnico apresentado pelo consórcio terminado em 1° lugar se basearia em uma construção com 15,9 mil metros quadrados, incluindo áreas não hospitalares como estacionamentos, lojas e auditório.

Para demonstrar a capacidade técnica, o Consórcio Saúde Hope enviou documentos referentes à construção de uma unidade de saúde ligada ao grupo Lifecenter. 

No recurso em que pede a derrubada do mandado de segurança, a Advocacia-Geral do Estado (AGE) diz que a interpretação da OPY sobre a abrangência do atestado de capacidade técnica difere da percepção do Executivo estadual sobre a questão.

“Na realidade, é a interpretação defendida pela Impetrante acerca do conceito de ‘unidade de saúde’ que destoa daquele definido de forma objetiva pelo administrador (contra a qual ela não se opôs na fase externa do certame), pois reduz o conceito de hospital à área voltada à assistência. Pergunta-se: onde no Edital regulador do certame isso está escrito? Em lugar nenhum, não cabendo, portanto, ao intérprete criar restrição inexistindo no instrumento convocatório”, sustenta.

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