O GPA, dono das marcas Pão de Açúcar, Extra e Qualitá entrou com um plano de recuperação extrajudicial para renegociar cerca de R$ 4,5 bilhões em dívidas com os principais credores. A iniciativa ocorre dois meses após a chegada do novo presidente da companhia, Alexandre Santoro, que assumiu o comando do grupo em janeiro com a missão de reorganizar as finanças e conduzir uma nova etapa da estratégia da varejista.
A decisão foi comunicada ao mercado na manhã desta terça-feira (10) por meio de Fato Relevante.
A estratégia permite renegociar dívidas com credores sem recorrer ao modelo mais amplo e complexo da recuperação judicial, preservando a continuidade das operações e reduzindo impactos sobre a cadeia de fornecedores.
Segundo o comunicado, o plano abrange obrigações financeiras sem garantia que não fazem parte das operações correntes da empresa. Ficam de fora compromissos com fornecedores, parceiros comerciais, clientes e trabalhadores, que continuarão sendo pagos normalmente e não serão afetados pelo processo, conforme o comunicado.
O acordo inicial foi fechado com credores que representam 46% do total das dívidas abrangidas pelo plano, o equivalente a cerca de R$ 2,1 bilhões. O percentual supera o quórum mínimo previsto na legislação para apresentação de um plano de recuperação extrajudicial, que exige adesão de pelo menos um terço dos créditos envolvidos, conforme estabelece a Lei de Recuperação e Falências.
Carência
Com a formalização do plano, as obrigações da companhia junto aos credores participantes ficam suspensas temporariamente, criando um período de negociação de 90 dias.
Durante esse intervalo, a administração pretende ampliar o apoio entre os demais detentores de crédito e estruturar uma solução que reequilibre o caixa no curto prazo e melhore a sustentabilidade financeira da empresa no longo prazo.
No fato relevante, o GPA afirma que o processo foi desenhado para preservar integralmente as operações comerciais. A companhia destaca que suas lojas continuam funcionando normalmente.
Transição na gestão
A decisão ocorre em um momento de transição na gestão da varejista. O atual presidente chegou ao cargo após uma carreira de mais de duas décadas em empresas globais de consumo e logística.
A escolha de Santoro foi interpretada pelo mercado como uma tentativa de trazer um executivo com forte experiência operacional e histórico em reestruturação de grandes companhias de consumo.
Antes de assumir o GPA, ele era CEO global da International Meal Company (IMC), grupo que opera marcas como KFC, Pizza Hut, Frango Assado e Viena.
Também teve passagens por multinacionais como Ambev, Anheuser-Busch InBev e Danone, além de ter atuado como executivo da Restaurant Brands International e da antiga América Latina Logística.
Desafio financeiro
O desafio financeiro do GPA aparece de forma clara nos resultados da companhia. No quarto trimestre do ano passado, a varejista registrou prejuízo líquido de R$ 572 milhões, resultado ainda negativo, embora 48,2% menor do que o observado no mesmo período do ano anterior.
No trimestre imediatamente anterior, a empresa surpreendeu ao voltar a registrar lucro após um período prolongado de resultados negativos, com R$ 137 milhões positivos, ante R$ 310 de prejuízo em igual período de 2024.
A melhora naquele intervalo foi impulsionada principalmente pelo reconhecimento de créditos tributários acumulados ao longo de anos anteriores e por um avanço nas vendas nas mesmas lojas.
Estrutura administrativa e acionária
O GPA ocupa hoje a 5ª posição no varejo alimentar brasileiro. A empresa aparece entre os maiores grupos supermercadistas do país, com presença nacional e centenas de lojas operando principalmente sob as bandeiras Pão de Açúcar e Extra.
A estrutura acionária da companhia também passou por mudanças importantes nos últimos anos. Desde 2025, o principal acionista do grupo é a família mineira Coelho Diniz, de Governador Valadares, no Vale do Aço, que passou a deter cerca de 24,5% das ações e assumiu papel central no conselho de administração.
A participação superou a do tradicional controlador francês Casino, que durante mais de uma década exerceu forte influência sobre a gestão da companhia.
A entrada da família no comando marcou uma nova etapa na governança da empresa e reforçou a estratégia de simplificação das operações, redução de custos e foco em formatos de loja de proximidade, considerados mais eficientes em termos de rentabilidade.