O relatório final da Operação Sem Desconto, feito pela Polícia Federal (PL) e obtido por O Fator, aponta que o deputado federal Eros Biondini (PL‑MG) e a filha dele, a deputada estadual Chiara Biondini (PL‑MG), teriam participado do esquema criado para desviar recursos do INSS. Apesar da menção aos dois, Eros e Chiara não foram indiciados pela PF nessa fase da investigação. Eles negam qualquer irregularidade (leia a posição completa ao final da reportagem).
Segundo a PF, a atuação deles aconteceu por meio de emendas parlamentares e contratos. Mais tarde, Eros e a filha passaram a ser chamados de “traidores” e foram alvo de chantagem pelo próprio grupo investigado, que usou como moeda de pressão os pagamentos feitos à parlamentar estadual.
De acordo com a investigação, Eros Biondini aparece como autor de uma emenda parlamentar de R$ 5 milhões destinada ao Instituto Terra e Trabalho (ITT), entidade descrita pela investigação como ligada de forma direta à Confederação Nacional de Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais (Conafer) e às empresas de fachada que recebiam recursos desviados dos descontos indevidos em benefícios do INSS.
A análise bancária feita pela polícia mostra que o ITT repassou mais de R$ 3,1 milhões a empresas do núcleo financeiro da organização investigada e recebeu de volta cerca de R$ 1,6 milhão, num fluxo que, na avaliação da corporação, indica desvio e lavagem de dinheiro utilizando tanto o esquema de descontos associativos quanto verbas de emendas.
Segundo a investigação, Chiara Biondini aparece como destinatária de pagamentos mensais em torno de R$ 10 mil, feitos pela Conafer e por uma empresa ligada a Ingrid Pikinskeni, esposa do operador financeiro Cícero Marcelino.
A quebra de sigilo bancário identificou 12 depósitos na conta da deputada estadual, somando R$ 60.001,10, originados em cinco débitos da Conafer e um débito da conta de Ingrid, o que a PF usa como prova material da relação financeira entre a entidade e a filha do deputado.
Em mensagens interceptadas, o dirigente do ITT Vinícius Ramos da Cruz, cunhado de Carlos Lopes, presidente da Conafer, afirma que Chiara “recebeu um ano e meio sem fazer nada”. A declaração foi dada enquanto Cruz comentava o histórico de pagamentos com o deputado federal Euclydes Pettersen (Republicanos-MG), outro aliado político do grupo.
Paralelamente, em conteúdo público de comunicação da própria Conafer, Chiara é apresentada como “Assessora da Presidência”, o que, para os investigadores, funcionaria como justificativa formal para repasses que internamente são descritos como salário fictício.
A ruptura
A PF indica que a relação se rompe quando Eros mudou de postura diante do esquema.
O relatório registra que o deputado encaminhou ao Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) um despacho com informações sobre possíveis irregularidades na execução da emenda de R$ 5 milhões para o ITT, o que leva o caso a ser remetido ao Ministério Público Federal (MPF).
Ao mesmo tempo, Eros passou a apoiar a criação de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) para investigar os desvios no INSS, iniciativa vista pelo núcleo do esquema como ameaça direta ao funcionamento da engrenagem de descontos indevidos.
Mensagens reproduzidas na investigação mostram que o presidente da Conafer reage chamando Eros de “traidor” e descreve o cenário como “feio e perigoso”, sinalizando que o deputado deixa de ser visto como aliado e passa a ser tratado como risco para o grupo.
“O diálogo inicia-se com EUCLYDES demonstrando preocupação ao tentar contato — inclusive por videochamada — com o interlocutor (possivelmente CARLOS ROBERTO LOPES). Este, por sua vez, demonstra irritação e afirma que EUCLYDES formalizou uma denúncia junto ao Ministério Público Federal (MPF). Em seguida, o interlocutor (possivelmente CARLOS ROBERTO LOPES), visivelmente irritado, menciona EROS (provavelmente o deputado federal EROS BIONDINI) e afirma que o “171” deles seria “fraco”. Ao citar “as notas fiscais e os Pix da vaca da filha dele”, o interlocutor (possivelmente CARLOS ROBERTO LOPES) parece referir-se, em tom intimidatório, à deputada estadual CHIARA BIONDINI, filha de EROS. Ato contínuo, o interlocutor envia o arquivo em PDF “DESPACHO (1).pdf” (provavelmente a declinação de atribuição do MPMG) e acusa EROS e EUCLYDES de traição. Por fim, o interlocutor aumenta o nível de hostilidade, rotulando EUCLYDES como “X9” e sugere que traidores não sairiam “inocentes”. EUCLYDES se justifica dizendo que a representação ao MPMG não ocorreu sob suas ordens. Os prints terminam com o interlocutor (possivelmente CARLOS ROBERTO LOPES) proferindo ameaça dizendo que o “esse tipo de coisa Aqui é feio e perigoso!””, indica trecho do relatório da PF.
Chantagem
Depois dessa mudança de posição, o relatório descreve que os dirigentes da Conafer e do ITT passaram a usar o histórico de pagamentos a Chiara como instrumento de pressão sobre Eros.
Em novembro de 2025, Thamyrrez Maia de Oliveira, esposa de Vinícius Ramos, envia a ele comprovantes de duas transferências de R$ 10 mil da Conafer para a conta da deputada estadual, realizadas em dezembro de 2021 e fevereiro de 2022.
“CARLOS e VINÍCIUS utilizaram os comprovantes dos pagamentos feitos pela CONAFER a CHIARA como instrumento de chantagem política contra o Deputado EROS BIONDINI, usando o Deputado EUCLYDES PETTERSEN como intermediário. Eles ameaçaram entregar o caso ao jornal Metrópoles caso suas demandas políticas não fossem atendidas, afirmando que os parlamentares estavam “todo cagado” e que tinham “medo” das consequências”, mostra trecho do relatório.
Vinícius, narra a PF, repassou esses documentos a Carlos Lopes e a Euclydes Pettersen, com o objetivo explícito de pressionar Eros.
Em mensagens citadas no relatório, ele afirma que um site jornalístico “pagaria caro” por esses comprovantes, sugerindo que a divulgação pública dos pagamentos poderia prejudicar o deputado, enquanto Carlos orienta que os documentos não sejam publicizados naquele momento para evitar que a Conafer seja apontada formalmente como pagadora de “propina”.
Na sequência, o relatório mostra que Euclydes tenta falar com Eros, inclusive por ligação de voz, depois de receber os comprovantes.
“Para provar a chantagem a CARLOS, VINICIUS encaminha mensagens de EUCLYDES e suas próprias no diálogo com o deputado. Observa-se que EUCLYDES pergunta o que VINICIUS acha de falar com ele (EROS), VINICIUS responde que ele próprio vai mandar (os comprovantes) se EUCLYDES não mandar. VINICIUS afirma que ela (CHIARA BIONDINI, filha de EROS) recebeu um ano e meio sem fazer nada e pressiona para que EUCLYDES envie um print comprovando que falou com EROS. Em seguida, envia um print de ligação com duração de 6 minutos e 46 segundos via WhatsApp, tendo como interlocutor “Eros Biondini”.”, mostra outro trecho do relatório da PF.
Vinícius exige um print para comprovar que a conversa ocorreu e, em seguida, encaminha a Carlos o registro de uma chamada de 6 minutos e 46 segundos entre os dois parlamentares, como evidência de que a pressão foi feita.
Em áudio transcrito pela PF, Vinícius relata que, após esse contato, Eros teria se comprometido a buscar, junto ao Tribunal de Contas da União (TCU) e ao Ministério do Trabalho, manifestações que favorecessem os interesses da Conafer e do ITT.
“Também merece destaque o trecho que revela possível resultado da chantagem. VINÍCIUS relata em um áudio que o Deputado EROS BIONDINI prometeu que o TCU (Tribunal de Contas da União) e o Ministro do Trabalho emitiriam notas oficiais favoráveis aos interesses da ORCRIM”, mostra o relatório.
Outro lado
Em nota, Eros e Chiara Biondini negaram qualquer participação no esquema de desvios do INSS.
“Eros e Chiara Biondini sempre agiram com boa fé e correção em sua atuação política e profissional e, na apuração de irregularidades no INSS, foram um dos primeiros a pedir investigação de eventuais falhas que, felizmente, foram esclarecidas e a conclusão da Polícia Federal não identificou qualquer irregularidade e muito menos ilicitude dos dois parlamentares. Nesta oportunidade, reforçam seus valores de probidade e honestidade que sempre marcaram suas trajetórias política, pessoal e profissional.”