Prefeitura de Contagem revoga a própria anulação e restabelece contrato milionário de uniformes

Ano letivo se aproxima da metade sem que grande parte dos estudantes tenha recebido novas peças do vestuário
Foto: João Pedro Alcântara / PMC

A Prefeitura de Contagem, na Grande Belo Horizonte, desfez uma decisão tomada por ela mesma no início do mês e restabeleceu um contrato para a compra de uniformes escolares para a rede municipal. O acordo havia sido anulado em 1º de junho, mas voltou a valer após a publicação, nessa quarta-feira (17), de um ato revogando a determinação anterior.

O contrato diz que a aquisição acontecerá por meio de adesão a uma ata de registro de preços do Consórcio Público Instituição de Cooperação Intermunicipal do Médio Paraopeba (Icismep). O valor total é de aproximadamente R$ 11,4 milhões.

No documento, o secretário municipal de Licitação e Contratos, Grijalva de Carvalho, afirma que a revisão ocorreu após reavaliação do fundamento utilizado para a anulação anterior.

De acordo com o ato, a administração concluiu que a ausência de divulgação do contrato no Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP) não justificava a anulação, uma vez que a publicação constitui condição de eficácia do ajuste, conforme prevê a nova Lei de Licitações.

Com isso, foram restabelecidos os efeitos do Termo de Autorização de Contratação e do contrato correspondente, permanecendo apenas a necessidade de regularização da divulgação do ajuste no PNCP.

Uniformes que não servem mais

O recuo da administração ocorre em meio a reclamações de pais de alunos da rede municipal sobre a falta de uniformes. Relatos obtidos pela reportagem indicam que, neste ano, grande parte dos estudantes ainda não recebeu novas peças.

O Fator apurou que a Secretaria Municipal de Educação (Seduc) tem encaminhado às escolas apenas uniformes remanescentes de estoques anteriores. A pasta orientou que a entrega dessas peças aconteça prioritariamente a estudantes que ingressaram recentemente na rede municipal.

Na prática, a situação tem gerado dificuldades para famílias cujos filhos já estudavam nas escolas locais. Há casos de alunos utilizando uniformes de anos anteriores, em tamanhos incompatíveis com o crescimento das crianças.

Segundo a apuração, alguns diretores escolares tentaram obter peças adicionais para atender estudantes além dos critérios inicialmente estabelecidos pela Secretaria de Educação. Os pedidos, entretanto, teriam sido negados pela administração municipal.

A reportagem procurou a Prefeitura de Contagem e a Secretaria Municipal de Educação para esclarecer o restabelecimento do contrato, o cronograma de aquisição e distribuição dos uniformes, além das reclamações de pais sobre a falta de peças nas escolas.

Também foram encaminhados questionamentos sobre a utilização de estoques remanescentes e a suposta orientação para priorizar estudantes com matrículas recentes. Até a publicação desta matéria, não houve retorno.

O que diz a Prefeitura de Contagem

Em nota enviada à reportagem, a Secretaria Municipal de Educação informou que a contratação se destina à reposição de uniformes para estudantes da educação infantil que eventualmente estejam sem as peças, além do atendimento da demanda prevista para 2027.

Segundo a pasta, as últimas aquisições realizadas entre 2022 e 2025 permitiram o abastecimento da rede municipal e a manutenção de estoques para reposições. A secretaria afirma que, em 2026, adotou uma política de distribuição voltada a estudantes que não possuíam uniformes ou cujas peças estivessem danificadas ou sem condições adequadas de uso.

A administração municipal informou ainda que já distribuiu 4.470 kits compostos por camisetas, bermuda, jaqueta com capuz e calça, adaptados a cada ciclo escolar. De acordo com a prefeitura, as entregas são realizadas conforme a demanda apresentada pelas unidades de ensino e a disponibilidade de itens em estoque.

Sobre os questionamentos relacionados à falta de uniformes, a Seduc afirmou que as requisições pontuais têm sido atendidas por meio do material disponível no almoxarifado e reconheceu a necessidade de uma contratação complementar para crianças de 0 a 5 anos em razão da indisponibilidade de tamanhos adequados para essa faixa etária.

Por fim, a prefeitura também ressaltou que o uso de uniforme não é obrigatório para a frequência dos estudantes na rede municipal. Segundo a administração, o abastecimento realizado nos últimos anos permitiu que a nova contratação fosse planejada para reposições eventuais em 2026 e para o atendimento da demanda do próximo ano letivo.

Guilherme Jorgui é jornalista e tem especialização em comportamento eleitoral, opinião pública e marketing político (UFMG).

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