Violência contra jornalistas no Brasil diminui em 2024, mas cenário ainda preocupa, diz relatório da Fenaj

Dados de levantamento feito pela federação indicam que ataques contra a imprensa continuam frequentes
Casos de censura mais que dobraram em relação a 2023: saltou de 5 para 11 casos. Foto: Agência Brasil

Apesar de registrar uma redução de 20,44% nos casos em relação ao ano anterior, o cenário de violência contra jornalistas e ataques à liberdade de imprensa no Brasil segue preocupante. O Relatório da Violência contra Jornalistas e Liberdade de Imprensa no Brasil 2024, divulgado pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) em maio de 2025, aponta que, no ano passado, foram documentados 144 episódios que envolveram agressão, censura, ameaças, hostilidade, intimidação e outras formas de cerceamento contra profissionais da imprensa em todo o país.

O levantamento da Fenaj destaca que, embora o total de ataques tenha sido o menor dos últimos seis anos, a diminuição não implica em um ambiente mais seguro para o exercício do jornalismo. Ao contrário: há mudanças qualitativas preocupantes, como a intensificação de assédio judicial e as tentativas de censura, novas expressões de violência de gênero e práticas reiteradas de descredibilização da imprensa.

Em 2024, a categoria mais recorrente de violência continuou sendo composta por ameaças, intimidações e hostilizações, somadas entre ataques verbais presenciais, virtuais e intimidações (35 casos, 24,31%). As agressões físicas também se mantiveram elevadas, com 30 ocorrências (20,83%), enquanto o assédio judicial, que cresceu proporcionalmente, passou de 13,81% para 15,97% do total das violências, totalizando 23 episódios.

A censura, por sua vez, mais que dobrou em relação a 2023: saltou de 5 para 11 casos. Outros dados revelam a persistência de ameaças de morte, tentativas de homicídio (6 registros), ataques misóginos (7), episódios de importunação sexual, LGBTfobia e racismo.

A região Sudeste concentrou a maior quantidade absoluta de ataques em 2024, com 38 casos (26,39% dos registros nacionais). Dentre os estados, São Paulo liderou os registros do Sudeste (23), seguido do Rio de Janeiro (9), Minas Gerais (5) e Espírito Santo (1).

Perfil dos agressores: política e ambiente eleitoral

A análise do perfil dos agressores em 2024 reforça uma tendência que se mantém desde anos anteriores. Políticos, assessores e apoiadores responderam por 48 casos (33,33% dos episódios). Quando se somam manifestantes de extrema direita, servidores públicos, policiais e apoiadores, a esfera política é responsável por quase metade dos ataques documentados.

O período eleitoral foi especialmente crítico: entre maio e outubro de 2024, durante a campanha municipal, quase 39% das agressões ocorreram nesses meses, com julho se destacando como o mês mais violento. A polarização e a disseminação de discursos de ódio nas redes sociais potencializaram ameaças e ataques físicos, especialmente vindos do campo da extrema direita.

Violência

A distribuição dos tipos de violência registrados em 2024 foi a seguinte:

  • Agressão física: 30 casos (20,83%)
  • Assédio judicial: 23 casos (15,97%)
  • Ameaça / ataque verbal presencial: 15 casos (10,42%)
  • Ameaça / ataque virtual: 12 casos (8,33%)
  • Censura: 11 casos (7,64%)
  • Impedimento ao exercício profissional: 10 casos (6,94%)
  • Descredibilização da imprensa: 9 casos (6,25%)
  • Intimidação / hostilização: 8 casos (5,56%)
  • Ataque misógino: 7 casos (4,86%)
  • Tentativa de homicídio / ameaça de morte: 6 casos (4,17%)
  • Demais categorias (LGBTfobia, racismo, detenção, atentado, importunação sexual, risco de morte, crime cibernético): registraram entre 1 e 4 casos cada.

Assédio judicial e censura crescem

O uso de mecanismos jurídicos para intimidar e silenciar jornalistas, chamado de assédio judicial, tornou-se uma das estratégias mais graves em 2024. Decisões judiciais determinaram remoção de conteúdos, condenações, indenizações e até suspensão de sites inteiros. O relatório destaca a necessidade de debate público sobre a regulação do uso do Judiciário em conflitos envolvendo liberdade de expressão e direito à informação.

A violência de gênero, com ataques misóginos, importunação sexual e até racismo, teve destaque em 2024. O relatório aponta que jornalistas mulheres seguem mais vulneráveis a insultos, ameaças e assédio — muitas vezes públicos e viralizados em redes sociais.

O relatório encerra com o alerta de que, apesar da redução numérica dos ataques, há permanência e agravamento de práticas estruturais de violência contra jornalistas, incluindo judicialização abusiva, tentativas de censura e hostilidade política. A Fenaj defende mobilização da sociedade, das instituições e do sistema judicante para garantir o livre exercício do jornalismo, essencial à democracia e aos direitos humanos.

Metodologia

Os dados foram coletados a partir de denúncias das próprias vítimas, sindicatos e monitoramento de notícias de veículos de todo o país. Os casos são organizados por tipo de violência, gênero, região, tipo de mídia e autor das agressões. O relatório se dedica a aprimorar a metodologia em cada edição, devido à complexidade crescente do ambiente midiático.

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