Terça, 17h12m. Céu de chuva em Belo Horizonte, cheiro de café passado e a Rua da Bahia naquele vai-e-vem. Apita o WhatsApp: mensagem do meu primo irmão, Carlos Frota. Curtinha, sem cerimônia: “Sheldrake. A ciência não deu conta e o chutou para fora. Arrogância.” Fim. Quem conhece o Frota sabe: quando ele manda uma dessas, é convocação — tipo juiz chamando pra audiência.
Eu respondo com o meu método mineiro: água no feijão e mais perguntas. Porque, vamos combinar, a pergunta “você acredita em milagre?” é uma cilada clássica. Se digo sim, viro místico profissional. Se digo não, ganho carteirinha de cético que se acha mais inteligente que o resto do bando. Então eu devolvo: o que é milagre, afinal? Quem decide o que entra ou sai do condomínio da “natureza”? E desde quando o porteiro do real veste jaleco?
Santo Agostinho dá uma senha elegante: milagre não contraria a natureza; contraria só o que sabemos dela. Pausa. O que eu sei e o que eu apenas suponho com pose de certeza? Não será o nosso saber que é pequeno, e não a natureza que é “insuficiente”? O óbvio ululante, diria Nelson, é que confundimos mapa com território e juramos que o erro da curva é culpa da estrada.
Bora prosear com os craques
Volto ao Frota. Ele me manda um link sobre o “centésimo macaco”. Você conhece a anedota: um macaquinho descobre que lavar batata-doce no mar dá gosto; outros imitam; e, quando a prática passa de certo limiar, o hábito “aparece” noutra ilha, sem contato direto. Há quem jure que é mito mal contado. Ótimo. A pergunta que interessa não é “aconteceu assim, textualmente?”. É outra: quando um costume muda de escala, o mundo muda ou só a nossa percepção? E se a tal “difusão” for só o jeito elegante de dizer que a realidade tem corredores que ainda não visitamos?
A ciência, essa instituição maravilhosa, que nos deu do analgésico ao avião, às vezes cai numa soberba de adolescente. Quer explicação no ato, nota de rodapé e revisão por pares antes do pôr do sol. Se não entende, expulsa: “heresia”. Mas quem é o herege, no fim? O fato teimoso… ou o nosso modelo mental de sábado passado? Nelson cochicha no meu ombro: “sem o imprevisto, meu filho, a vida é ata de condomínio”. E um cristianismo sem milagre é isso: ata lavrada, assinada, arquivada e nenhuma música.
Socorro de perguntas, versão Sócrates de boteco:
Se nada sei, que seja num bar
— Se algo contraria o que eu sei, isso diz mais sobre a coisa… ou sobre mim?
— E se “impossível” for apenas o nome provisório do que ainda não compreendi?
— Se água pode ser gelo, líquido e vapor, por que tratar o vapor como inimigo da física?
— Se um gesto inaugural, lavar a batata no mar, vira cultura, onde termina o indivíduo e começa o bando?
— Quando um fenômeno cruza o tal “limiar”, muda a natureza… ou muda o meu vocabulário?
Acredite ou não
Nelson, de novo, com sua maldade pedagógica: todo sujeito lúcido carrega um cretino fundamental que ele chama de “ceticismo”. Não é uma dúvida honesta, essa é ouro. É a soberba mascarada de ciência: “se eu não vi, não existe”. Pois bem: e o que você não vê do próprio rosto sem um espelho? Deixa de existir por isso?
Eu fico com Agostinho: milagre não é a quebra da lei; é a lei maior, ainda não alfabetizada por nós. O mundo não vira circo; somos nós que ainda estamos no ensino fundamental do real. Quer um teste? Pense no primeiro do bando que entrou no mar com a batata. Sem trombeta, sem epifânia no alto do monte. Só um sujeito curioso, mangas arregaçadas. A coragem é o centésimo, aquilo que, de repente, vira cultura. A partir daí, os outros imitam e o jornal fala: “surgiu”. Não surgiu: passou do limiar, esse trem invisível que separa o “nunca vi” do “como é que ninguém tinha pensado nisso?”.
“Mas você acredita em milagre?” Olha a armadilha pedindo like. Eu acredito, antes, na ampliação do caderno. A tarefa é simples e difícil: alargar as margens do que chamamos “natureza” até que o extraordinário de hoje vire o cotidiano de amanhã. E esse trabalho não se faz com grito; se faz com perguntas boas, olhos abertos e uma espécie de humildade ativa, essa mina de Minas que aprende em silêncio e, quando fala, fala baixo.
Mar doce mar
No fundo, o que está em jogo é a postura. Dá pra viver sem janela? Dá. Mas é uma pobreza. Com janela e com a chance do vento entrar a vida melhora. Milagre, então, não é trapaça da realidade. É uma janela aberta num cômodo que a gente jurava ser o último da casa.
Fico com isso: quando o próximo Frota me cutucar, eu não vou correr para provar nada. Vou perguntar melhor. Vou lavar a batata no mar e ver no que dá. Se der gosto, e costuma dar, chamo o bando. E, se alguém disser que é exagero, eu sorrio, mineiro, e respondo com o meu Nelson de cabeceira: “o maior escândalo do mundo é o trivial que a gente não viu”. Depois disso, café quente, chuva fina e a vida… como ela é.