O Ponto Morto da Excelência

Se a excelência é mesmo um hábito, que criatura estamos esculpindo ao repetir, dia após dia, o treino para a eficiência vazia?
Fusca preto
Foto: Tahir Osman/Pexels

Olhem aqui. Preciso desabafar. Há uma angústia que me corrói o fígado, toda santa noite, quando o noticiário despeja suas matérias sobre nós. A gente vê a barbárie. Vê jovens que deveriam ser o sal da terra, brilhantes, diplomados, o raio que os parta e agindo como bestas. E eu me pergunto, sozinho na poltrona: mas onde, diabos, foi que a gente errou? Onde foi que a nossa tão decantada educação nos jogou neste buraco?

Vem um guru qualquer, desses de Instagram, e nos vende a pílula das “10.000 horas”. Repita, repita, e a mágica acontece. A maestria vem. Ora, o velho Aristóteles, séculos antes, já tinha cantado essa pedra: somos o que fazemos repetidamente. A excelência é hábito, não um relâmpago de sorte. E é aí, justamente aí, que o destino nos passa a perna. É a grande piada trágica do nosso tempo.

Porque nós treinamos. Ah, como treinamos nossos filhos. Gastamos 10 mil horas e o dobro, e o triplo. Mas para quê? Para que se tornem eficientes, não excelentes. Para virarem o que um texto certeiro que li chamou de “Ferrari Humana”: veloz, caro, admirado pela performance e oco. Um casco brilhante. A gente bate palma para o boletim, para o inglês de cursinho, para o diploma chique. Mas e o piloto? Quem está no volante desta máquina? Ninguém. Deixamos a direção entregue aos instintos, à barbárie latente que os gregos viam como um “bárbaro em potencial”.

Uma tarefa para anos, não para horas

A gente engoliu a fábula do bom selvagem, a mentira da criança-anjo. Que ingenuidade canalha. Os gregos, muito mais espertos, sabiam: o conhecimento, meus caros, sem a sabedoria temperada pela ética, é só uma navalha na mão de um curioso. E o que fizemos? Demos a navalha. O resultado não é uma “falha” do sistema; é o seu produto mais lógico. Formamos monstros competentes.

A sabedoria antiga, a tal Paideia, não fabricava Ferraris, fabricava templos. O herói deles, Hércules, aquele brutamontes, é a prova. Os 12 trabalhos não são sobre esmagar crânios; são sobre domar os demônios de dentro. A fúria, a ganância, o desejo. Ele só vencia quando deixava os músculos de lado e usava a alma. Ele não limpava o mundo, limpava a si mesmo.

E aqui entra o alerta de Sócrates: “Temos pouco tempo para a virtude e toda a vida para o conhecimento.” Ele sabia que o vício se instala cedo no caráter, e arrancá-lo depois é tarefa quase impossível. Nietzsche, muitos séculos depois, ecoaria essa crítica ao acusar sua época de priorizar o intelecto e negligenciar a formação dos instintos é exatamente o oposto do que fez a civilização helênica brilhar. Hoje, repetimos o mesmo erro, embalados por métricas, diplomas e um culto à performance que nada tem a ver com grandeza.

Estamos no caminho certo?

Nós abandonamos esse treino. Trocamos as horas de forja do caráter pelas horas de polimento do verniz. E agora? Agora nos assustamos com o ronco da nossa própria criação.

E então, aqui no meu silêncio, a alma grita as perguntas que ninguém quer fazer. 

Se a excelência é mesmo um hábito, que criatura medonha estamos esculpindo ao repetir, dia após dia, o treino para a eficiência vazia? Celebramos a velocidade do bólido, mas já nos perguntamos se a rapidez não é só a pressa de chegar a lugar nenhum? Hércules domou as bestas dele. E nós? Que bestas interiores estamos engordando com ração de primeira em nossos filhos, em nós mesmos, em nome de um sucesso que tem a profundidade de uma poça d’água? De que vale, afinal, preparar alguém para “ganhar a vida”, se ele não aprende a ter uma vida que valha a pena ser vivida?

Jorge Berg é desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região, Conselheiro Benemérito do Clube Atlético Mineiro e Adido Consular Cultural de Luxemburgo em Minas Gerais.

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