Toda transição de governo tem duas agendas. A oficial cuida de números, contratos e secretarias. A outra, menos visível, decide de quem será a responsabilidade quando a conta apertar. Em Minas, essa segunda agenda começou antes da primeira reunião.
Durante anos, o governo estadual construiu uma narrativa poderosa: a de que Minas tinha voltado a ter as contas sob controle. O símbolo dessa história era o salário do servidor pago em dia, repetido como prova de gestão desde 2021. Narrativas assim funcionam enquanto ninguém olha a planilha. Bastaram poucas semanas depois da eleição para que ela começasse a mudar de forma.
Uma previsão da Secretaria da Fazenda apontou risco de faltar dinheiro para os salários já em janeiro. O 13º deste ano está sendo pago com os R$ 2,1 bilhões obtidos com a venda da folha de pagamento a um banco. E, no dia 14 de outubro, o próprio governo enviou à Assembleia a revisão do orçamento de 2027: o déficit projetado subiu de R$ 8,87 bilhões para R$ 10,51 bilhões, quase 20% a mais em poucas semanas. Não é uma acusação da oposição. São os números oficiais de quem está saindo.
É aqui que a narrativa muda de direção. Ao mesmo tempo em que revisa o rombo para cima, o governo que sai cobra publicamente as promessas de campanha do eleito, como o aumento para os servidores, a redução do IPVA e mais repasses aos municípios, e propõe uma transição com reuniões televisionadas. O efeito, intencional ou não, é transferir para quem chega um problema que já existia antes de ele assinar qualquer ato. A crise passa a ser apresentada como consequência das promessas do futuro e não das escolhas do passado.
Cleitinho entendeu o jogo rápido. Quando surgiu a dúvida sobre os salários de janeiro, devolveu a pergunta que desmonta a moldura: se não há dinheiro em janeiro, quem está governando o estado até dezembro? Foi a resposta de quem venceu a eleição em cerca de 97% dos municípios mineiros justamente por saber falar com clareza.
O desafio agora é transformar essa clareza em registro. Na campanha, a pergunta certa basta. Na transição, a pergunta precisa virar documento e a equipe de transição do governador eleito tem capacidade e competência nisso. Em vez de responder no mesmo tom, enviou ofício formal ao governo pedindo os dados do déficit, os recursos disponíveis e as despesas já comprometidas e deixou claro que o pedido não era uma acusação. É o tipo de gesto que não viraliza, mas que constrói a peça mais importante desta fase: um diagnóstico de entrada, com números oficiais, datado e público.
Esse diagnóstico vale mais do que qualquer post. Ele separa, de forma objetiva, o que foi herdado do que será feito. Sem ele, cada atraso de repasse e cada dificuldade de caixa em 2027 tende a ser lido como obra do novo governo, não importa onde o problema começou. Com ele, o novo governador assume a partir de um marco zero que é dele, e não da narrativa construída por quem saiu.
Há ainda um detalhe que muda o tabuleiro: o atual governador deve se afastar por um mês a partir do fim de outubro e o presidente da Assembleia, Tadeu Leite, conduzirá os encontros de transição entre 23 de outubro e 23 de novembro. Quem propôs a transição televisionada não estará no palco que montou. É uma janela para que os números falem mais alto do que as versões.
A conta de Minas vai chegar de qualquer jeito. O que está em disputa agora é quem vai assiná-la. Se o governador eleito chegar a 1º de janeiro com a herança documentada, governa a partir da realidade e não da narrativa de outros.