O Brasil tem se destacado pela rápida expansão das energias renováveis em sua matriz elétrica. Mais do que atender à urgência climática e a compromissos internacionais, essa transição tornou-se um vetor de desenvolvimento econômico, atração de investimentos e geração de empregos.
Atualmente, mais de 80% da eletricidade brasileira vem de fontes renováveis — índice expressivo no cenário internacional. Embora as hidrelétricas ainda liderem, a participação de energia eólica e solar cresceu de forma acelerada na última década, contribuindo para a diversificação e resiliência do sistema.
Esse avanço não se deu apenas por dinâmica de mercado. Desde os anos 2000, políticas públicas como o PROINFA e os leilões de energia renovável, iniciados para eólica em 2009 e solar em 2014, garantiram contratos de longo prazo e reduziram riscos. O BNDES, ao priorizar financiamentos para projetos com conteúdo nacional, também teve papel decisivo.
Mais recentemente, a Lei 14.300/22, que instituiu o marco da geração distribuída, e o incentivo a projetos de P&D em baterias e smart grids ampliaram o alcance da transição energética. O ambiente institucional brasileiro, com políticas consistentes e incentivos à inovação, foi reconhecido pela IRENA como referência entre países emergentes.
Na economia, os reflexos são nítidos: só em 2025, o setor pode movimentar R$ 120 bilhões em fusões e aquisições, 40% das transações no setor elétrico. Complexos como Lagoa dos Ventos (PI) e Janaúba (MG) mostram a posição brasileira entre os mercados mais dinâmicos para investimentos em energia limpa.
Além do volume de capital, destaca-se a geração de empregos. A Absolar estima a criação de 396 mil postos até o fim de 2025, com forte impacto no interior do país. Entretanto, é preciso garantir que esses empregos sejam acompanhados de qualificação, respeito às comunidades locais e integração socioeconômica duradoura.
Outro efeito relevante é a redução estrutural de custos. A competição nos leilões e o avanço tecnológico reduziram preços, beneficiando consumidores e atraindo setores de alto consumo energético, como hidrogênio verde e mineração de baixo carbono. Ainda assim, o repasse efetivo desses ganhos às pequenas empresas e consumidores finais permanece desigual.
Apesar dos avanços, gargalos importantes ameaçam o ritmo de expansão. A infraestrutura de transmissão, especialmente no Nordeste, não acompanha a velocidade de novas usinas, gerando riscos de desperdício energético. Além disso, o modelo regulatório atual, pensado para fontes centralizadas e despacháveis, precisa se modernizar para integrar sistemas descentralizados e híbridos. Mais grave, porém, é a morosidade institucional na resolução desses entraves, com atrasos em licenças ambientais, disputas sobre royalties e insegurança regulatória que afetam a previsibilidade dos investimentos.
A agenda de inovação e modernização regulatória será decisiva. Soluções como smart grids, armazenamento em larga escala e hidrogênio verde avançam, mas exigem ambiente mais flexível e transparente. Sem isso, o Brasil corre o risco de desperdiçar a janela estratégica que o momento oferece.
Relatórios da IRENA apontam o país como um dos mercados emergentes com maior potencial de expansão. Com recursos naturais abundantes e crescimento acelerado, o Brasil pode figurar entre as potências renováveis globais até 2030. Para isso, será vital assegurar que os benefícios dessa transição sejam distribuídos de forma equilibrada, evitando a concentração de investimentos e empregos em poucos estados e grandes grupos econômicos.
O avanço das energias renováveis é mais do que uma resposta climática — é projeto estratégico de país. Mas é preciso evitar a repetição de vícios de outros ciclos de crescimento energético nacional, marcados pela concentração de renda, exclusão de comunidades e uso oportunista de agendas ambientais.
Consolidar a liderança latino-americana e se tornar exportador de energia limpa e serviços ambientais exige políticas públicas permanentes e articuladas. Mais do que expandir renováveis, o Brasil precisa integrar planejamento energético, industrial e social, construindo um modelo de desenvolvimento competitivo, sustentável e inclusivo — capaz de reduzir desigualdades regionais, gerar empregos de qualidade e reposicionar o país não apenas como consumidor de tecnologia, mas como fornecedor de soluções limpas para o mundo.