O cinema é espelho e mapa: revela quem somos e aponta rotas possíveis. Como ex-Secretário Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, observo que, ao mesmo tempo em que o audiovisual brasileiro celebra narrativas diversas, a presença efetiva de criadores e intérpretes negros nas grandes produções continua aquém do necessário. Essa contradição esteve em evidência no 58º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, que reafirmou o protagonismo cultural da capital e trouxe consigo um marco histórico: o lançamento do Protocolo de Combate ao Racismo em Eventos Culturais do Distrito Federal, iniciativa inédita no país, realizada pela Secretaria de Justiça e Cidadania do DF (Sejus-DF), sob a liderança da secretária Marcela Passamani.
Esse gesto político-cultural é simbólico e concreto. O protocolo surgiu como resposta direta a um caso de racismo ocorrido em 2024, quando um produtor de cinema foi vítima de discriminação em pleno ambiente cultural. Ao ser lançado em um dos maiores festivais de cinema do Brasil, a medida reforça que não basta exibir filmes com diversidade, é preciso garantir que os espaços culturais sejam ambientes de respeito, inclusão e equidade. Se bem implementado, poderá inspirar outras unidades da federação e tornar-se referência para festivais e eventos de todo o país.
No recorte artístico do Festival, destaco o curta “O Cheiro do Seu Cabelo”, dirigido por Clara Maria Matos, que trouxe ao público a atriz Alice Silva. Sua atuação impressiona pela força dramática e pela naturalidade com que se impõe em cena. Seu talento evidencia uma verdade incontestável: há abundância de artistas negros de qualidade, mas são raras as oportunidades estruturadas para que esses talentos ocupem as vitrines mais amplas da indústria. Alice não é exceção; ela é prova do quanto estamos desperdiçando potencial humano por falta de políticas e de portas abertas.
Os dados confirmam essa realidade. Relatórios da Agência Nacional do Cinema (Ancine) já revelaram que boa parte das produções brasileiras sequer conta com atores negros em papéis relevantes, e que a presença de mulheres negras em funções técnicas permanece quase invisível. Além disso, estudos apontam disparidades salariais significativas entre profissionais negros e não-negros do setor audiovisual. Não se trata de acaso, mas de reflexo direto do racismo estrutural que organiza a sociedade e se reproduz no cinema.
No cenário internacional, a situação é semelhante. Relatórios como o Hollywood Diversity Report, da UCLA, mostram avanços pontuais em produções com elencos mais plurais, mas confirmam que a presença negra nas cadeiras de direção, produção e roteirização ainda é extremamente limitada. O problema é global e exige soluções globais — mas também começa no local, em cada festival, em cada política pública.
Para além do princípio ético da igualdade racial, há um argumento econômico e cultural: produções diversas atraem público, geram bilheteria e fortalecem a democracia cultural. Quando olhamos para as narrativas, percebemos que a ausência de pessoas negras nos papéis centrais empobrece o repertório coletivo e reforça estereótipos que influenciam o imaginário social. O resultado é um ciclo perverso que limita oportunidades e perpetua desigualdades.
É preciso agir. Algumas boas práticas já existem: editais que priorizam diversidade racial, programas de formação voltados para jovens negros no audiovisual, residências artísticas e iniciativas de mentorias têm mostrado resultados positivos. Mas precisamos ir além. Proponho, de forma concreta, cinco caminhos:
- Condicionar parte dos editais públicos e incentivos fiscais à adoção de critérios de diversidade racial nas equipes de produção.
- Criar fundos específicos para projetos liderados por cineastas negros.
- Exigir relatórios de diversidade das distribuidoras e plataformas que recebem apoio público.
- Investir em formação técnica e artística em audiovisual em territórios periféricos e historicamente excluídos.
- Estimular contratos com “inclusion riders”, que garantam representatividade mínima em grandes produções financiadas com recursos públicos.
O 58º Festival de Brasília mostrou que o cinema é também um espaço de disputa política. Ao mesmo tempo em que apresentou ao público talentos como Alice Silva e obras que ampliam horizontes, foi palco para o lançamento de uma política pública pioneira contra o racismo nos eventos culturais. A conjugação dessas dimensões — a arte e a política — revela o caminho que precisamos trilhar: democratizar as telas e democratizar os espaços.
Ao leitor e à leitora que amam cinema, deixo um convite: apoiar festivais e mostras que promovem diversidade não é apenas ato de militância, é um investimento na qualidade e na riqueza cultural do país. Ao Estado e ao mercado, deixo uma exigência: é hora de transformar boas intenções em práticas duradouras, estruturais e efetivas.
E a jovens como Alice Silva, que brilham cedo e com intensidade, precisamos garantir que não sejam apenas estrelas passageiras, mas protagonistas de uma nova história do cinema brasileiro — uma história que, finalmente, reconheça e valorize o protagonismo negro como parte indissociável de sua própria essência.