Cuidado primeiro, palanque depois!

Tânia Rêgo/Agência Brasil

As imagens de Juiz de Fora são devastadoras. Mais de três mil pessoas seguem fora de casa, bairros inteiros foram impactados e os serviços públicos operam sob forte pressão. Minas Gerais já viveu cenas semelhantes em outros verões, mas a repetição não torna o episódio menos grave. Ela evidencia que ainda tratamos como exceção aquilo que já se tornou padrão.

O que chama atenção é a rapidez com que o debate público se organiza em torno da busca por um responsável imediato. Em poucos dias, surgem as acusações. Reportagens apontam redução nos investimentos estaduais destinados à prevenção de desastres nos últimos anos. Ao mesmo tempo, há cobranças sobre recursos do Programa de Aceleração do Crescimento destinados à contenção de encostas em Juiz de Fora que estariam parados há quase um ano. Também cresce a crítica à ausência de uma política nacional estruturada de adaptação climática que integre planejamento urbano, habitação e gestão ambiental de forma contínua.

Essas discussões são legítimas. Decisões orçamentárias têm impacto. Obras não executadas ampliam riscos. Falhas de coordenação entre União, Estado e municípios produzem consequências concretas. O problema é quando a análise para a escolha do culpado fica mais importante que amparar quem está sofrendo.

Neste momento, a situação exige sobretudo rapidez e capacidade de resposta. Quem foi diretamente atingido não precisa, agora, de discussões sobre rubricas orçamentárias ou análises documentais prolongadas. Precisa ver máquinas nas ruas, equipes atuando de forma permanente, chegada de suprimentos básicos e, principalmente, receber informações objetivas sobre como e quando ocorrerá a reconstrução. Em cenários de desastre, a presença efetiva do poder público, com ações concretas e coordenação ágil, é o que devolve segurança e esperança a quem perdeu quase tudo.

Minas acumula prejuízos bilionários decorrentes de eventos climáticos extremos na última década. Belo Horizonte registrou, em 2020, a maior chuva de sua história recente e continua convivendo com dezenas de áreas classificadas como de alto risco geológico. Todos os anos, regiões da capital entram em alerta para deslizamentos e alagamentos. Não se trata de um problema distante. É parte da nossa realidade.

Como vereador de Belo Horizonte, acompanho de perto os desafios da drenagem urbana, da ocupação em áreas de risco e da necessidade de políticas habitacionais que reduzam vulnerabilidades. A cidade precisa se adaptar a um padrão climático mais severo. Isso exige planejamento, orçamento estável e execução eficiente. Exige que a prevenção não seja tratada como pauta ocasional.

É evidente que esse debate também passa pela dimensão política, pelas escolhas de governo e pela prioridade que cada gestão decide ou não dar a essa agenda. Como agente político, não serei hipócrita em negar que a construção do debate público e até do próprio palanque é parte necessária para trazer o tema à centralidade que ele merece. Mas isso precisa acontecer depois de retirarmos a lama de dentro da casa da nossa gente. Primeiro vem o socorro, a reconstrução e o cuidado com quem foi atingido. Depois, com a seriedade que o momento exige, o debate político sobre responsabilidade.

Quando a tragédia vira atalho político, o debate encurta demais para um problema que é estrutural e acumulado ao longo de décadas. Redução de verba estadual precisa ser explicada. Recursos federais anunciados precisam sair do papel. Planos precisam ser executados. Mas nenhuma dessas cobranças se resolve com polarização automática.

Se enfrentamos desastres recorrentes no período chuvoso, estamos diante de um padrão que demanda política pública permanente. Continuidade administrativa, coordenação federativa, prioridade orçamentária e, acima de tudo, maturidade política para trabalhar com os diferentes e resolver os problemas das pessoas.

Superada a emergência, o debate precisa continuar. Não como instrumento de ego para mostrar quem está certo, mas como compromisso real que produza as soluções que o povo precisa.

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