Sabe aquela frase do Rumi, “A sabedoria está em saber o que ignorar?”. Pois é. Me peguei pensando nisso, depois de passar não sei quanto tempo rolando o feed do celular até sentir os olhos ardendo e a cabeça pesada. A gente se afoga num mar de informação que não pediu, de opinião que não agrega, de vida perfeita que não existe. E fica como? Exausto.
Aí me veio essa idéia, quase um truque da nossa mente para se sentir mais inteligente: “Ah, mas os grandes pensadores já sabiam disso“. E pronto. A gente bota um Marco Aurélio, estoico, do lado de um monge budista tipo o Thich Nhât Hanh, e finge que eles estavam na mesma vibe.
Faz um certo sentido, se forçar a barra. O imperador, lá no meio do caos de Roma, escrevendo pra si mesmo: “Cara, foca no que é teu. O resto? Deixa quieto“. E o monge, séculos depois, falando com aquela calma dele: “Sua raiva, sua ansiedade… são só nuvens. Deixa passar“. No fundo, no fundo, é a mesma coisa, né? É um “filtra que passa”. Um manual de como ignorar o que te faz mal, seja a fofoca do Senado romano ou o turbilhão de pensamentos na sua própria mente.
Só sei que nada sei
Até o Sócrates, o pai da coisa toda. O cara virou lenda por admitir que não sabia de nada. Pensa que alívio. É como ganhar um passe livre para não ter que dar palpite em tudo, pra não ter que se estressar com cada debate na internet. É o direito de dizer “Não sei, não quero saber e tenho mais o que fazer.”
Só que essa colagem bonita que a gente monta… ela é meio mentirosa. A vida real não é um post de blog com citações inspiradoras. Não dá pra simplesmente acionar o “modo estoico” quando o chefe te enche a paciência, ou o “modo zen” no meio do trânsito.
A verdade é mais bagunçada. A sabedoria de que o Rumi falava talvez não seja uma grande iluminação filosófica. Talvez seja algo bem menor, mais pé no chão. É a micro decisão de não clicar na notícia que só vai te deixar com raiva. É escolher ouvir uma música em vez de mais um podcast sobre como ser produtivo. É fechar o notebook na hora certa.
É um exercício diário, e quase sempre a gente falha. Mas cada vez que a gente consegue ignorar um ruído, um apito, uma urgência que não é nossa… a gente ganha um segundo de paz. E de segundo em segundo, quem sabe, a gente encontra um pouco dessa tal sabedoria. Não nos livros. Mas no botão de “desligar”.