E Deus criou o choro, e com ele a harmonia quase indecente entre flauta, bandolim e violão – três pecadores tocando em uníssono como se tivessem feito voto de boemia. Era a representação musical do futebol brasileiro: gingado, drible, pausa dramática e aceleração súbita, esse esporte barroco que nos faz ir do céu ao inferno em fração de segundos.
O Diabo, não satisfeito, criou o sertanejo universitário. Com ele, as prefeituras que superfaturam shows e a rima pobre. Inventou a música de três acordes, feita para caber no porta-malas da indústria cultural e no ouvido de quem se acostumou com refrão repetido. É a trilha sonora oficial de quem bebe para esquecer e depois canta para lembrar, gente que adora afogar as mágoas em piscina de água de coco com energético.
Deus criou o atacante raiz, boêmio por vocação e atleta por acidente, sujeito que chegava atrasado no treino e adiantado na inspiração. Intempestivo, falava palavrão como se defendesse uma tese em Harvard, que entra em êxtase religioso em cada jogo, mesmo após a noitada em algum copo sujo, mas sempre consciente de que é preciso construir cada jogada como se fosse uma obra de arte.
Guerra santa
O Diabo, não satisfeito, criou o atacante convertido, que aponta para o céu após cada gol, calçando chuteira colorida, leve como consciência político. O cabelin de Instagram, que tira selfie com a taça e chora no vestiário ao perceber a ausência da cera capilar. Enquanto Deus havia criado a chuteira preta, com trava alta de alumínio e cheiro de couro, pronta para se consumir em qualquer campo, de grama ou de barro, costurada pelo fio de Ariadne na medida certa para enfrentar qualquer Minotauro.
Deus criou o domingo, e com ele a santa preguiça incensada pelo cheiro de churrasco que antecede o pré-jogo. Um dos únicos momentos em que o trabalhador se sente, de fato, rei e dono de seu destino. Feriado semanal não-declarado no imposto de renda, santificado pelo cheiro de gordura e fumaça. A revanche da alma contra o relógio de ponto.
O Diabo, não satisfeito, criou o coach de investimentos e a teologia da prosperidade, pregando a moral do Time is Money, desviando o ser humano da arma mais revolucionária que os céus inventaram: o ócio. Com isso, o capiroto criou a inveja da formiga que, ressentida com a cigarra porque não sabia cantar, decidiu se vingar da pobre artista. Sim. Nascia aí o ódio à Lei Rouanet em forma de conto infantil.
Céu e inferno
Enquanto Deus criou a horta doméstica, a vida com felicidade, o torresmo, o time do bairro e a cachaça do interior. O Diabo, não satisfeito, criou o agrotóxico, o consumo, os industrializados, o futebol moderno, o reconhecimento facial no estádio e a cerveja artesanal com gosto de Kiwi.
E assim seguimos, entre as obras de Deus e as gambiarras do Diabo, tentando dar algum sentido a esse campeonato longo e imprevisível que é viver. No fundo, o futebol sempre foi mais do que um jogo: é um espelho imperfeito de quem somos – capazes de criar beleza na escassez, poesia no improviso e alegria em meio ao aperto. Mas sempre haverá o diabo para azucrinar, tentando racionalizar a paixão por meio de algum VAR, traçando linhas matemáticas de impedimento.
Ainda bem que o futebol – mesmo capenga e quase SAFalido, cercado por interesses, cifras e vaidades – guarda algo de humano, algo de gratuito, neste território confuso entre o paraíso e o inferno.
No fim das contas, a única certeza que temos é que continuaremos pagando ingresso – caro, suado e parcelado – para assistir à eterna pelada entre Deus e o Diabo na terra do futebol. Não como otimistas ingênuos, um tipo de terraplanista que se acredita no centro do mundo, mas com essa fé irresponsável e teimosa que nos faz beber um pouco de veneno e ainda jogar o restinho para o santo.
