Meu início de fim de semana foi ímpar e, sem dúvida, muito especial. Por causa da minha cada vez maior “gagazice” (tecnicamente, senilidade, rs), errei um endereço e me deparei com o mais puro “suco de Brasil”: um estacionamento na Avenida Afonso Pena, do outro lado do Palácio das Artes, literalmente assalta seus clientes, obrigando-os – a despeito da tabela de preços afixada – a pagar R$ 50 por uma estada de dez minutos. Mas isso é assunto para a Prefeitura, o Procon e o Judiciário.
Ontem, sexta-feira, 7, eu deveria ter me dirigido ao Palácio da Liberdade, na famosa praça de mesmo nome, na capital mineira, mas, por desatenção, acabei seguindo para o Palácio das Artes, palco de espetáculos artísticos, musicais e culturais. Daí o episódio acima.
Ocorreu, por lá, a cerimônia de celebração do sesquicentenário da Escola de Minas de Ouro Preto, berço acadêmico de quem fez – e ainda faz – história no Brasil e no mundo.
As minas das Gerais
A Escola de Minas, da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), nasceu em 1876 pela cabeça e persistência do francês Claude Henri Gorceix, a pedido de Dom Pedro II, como a primeira grande escola de mineralogia, geologia e metalurgia do Brasil.
De suas iluminadas salas saíram gerações de engenheiros que estruturaram a mineração moderna, a engenharia pesada e a leitura responsável do nosso território. Até hoje, não por acaso, é referência acadêmica nacional.
Aliás, a data não foi marco apenas da criação de uma escola. Foi o ponto em que Minas parou de ser só um território explorado e passou a formar gente capaz de decidir o que, como e por que explorar – e com quais benefícios e consequências.
Sede de conhecimento
Hoje, sábado, 8, numa manhã fria e chuvosa em que a cama quentinha convidava a mais algumas horas de sono, dirigi-me – desta vez mais atento e sem erros e dissabores – ao Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais (IHGMG).
Fundado em 1907, a entidade segue em outra frente do mesmo projeto civilizatório da UFOP: guardar a memória, organizar os fatos e, tão fundamental quanto, pensar o estado – e Estado – para além do calendário político-eleitoral.
O IHGMG surgiu no mesmo movimento que criou institutos congêneres pelo país, tendo João Pinheiro – pai de Israel Pinheiro, ambos alunos da Escola de Minas de Ouro Preto – como primeiro presidente, e uma vocação clara: reunir quem leva a sério a história e a geografia de Minas, contra a ignorância confortável. Anote aí: falaremos sobre isso (ignorância) mais à frente.

Resiliência acadêmica
Cerimônias assim não são eventos modorrentos e protocolares. São lembretes de que este país só é o potentado global que é, com todas as suas mazelas e imperfeições, porque intelectuais dispostos a levar ciência, técnica, história e direito a sério, muitas vezes contra a maré de governos, modismos e oportunismos, não capitularam.
Saí destes dois eventos com uma certeza simples: Minas e o Brasil não são obras de improviso. Têm suas bases fincadas em salas de aula, bibliotecas, laboratórios e gente que estuda antes de abrir a boca ou de meter trator no morro dos outros.
Quando me sento e me pego nesses auditórios – verdadeiros palcos sagrados -, não estou prestando culto a paredes ou a retratos antigos. Estou, ali, aprendendo e relembrando que democracia, República, desenvolvimento e “mercado” são palavras vazias se não tiverem, por trás, pessoas e instituições que pensam longe, produzem conhecimento e formam quadros com algum senso de responsabilidade pública.
Amigos para sempre
Pessoalmente, tenho enorme orgulho de conhecer – e me considerar amigo – de gente assim. No caso, um dos próceres da Escola de Minas de Ouro Preto, parte de uma elite técnica rara no Brasil, que entendeu que minério não é só cifra em planilha e discurso de político em época de campanha, mas, sobretudo, decisão sobre território, água, emprego, cidades e gente. A tradição de Gorceix e da Escola de Minas moldou boa parte do corpo técnico que ainda sustenta o setor mineral brasileiro com algum grau de seriedade, e José Fernando Coura é figura central dessa ponte entre academia, setor produtivo e interesse público.
Técnico de formação, liderança histórica da mineração em Minas, “comandante de honra” do Sindiextra e do Ibram, incansável, ajuda a organizar o diálogo do setor mineral com o Estado e a sociedade em torno de padrões mais altos de segurança, governança e transparência. Agora, Coura também integra o Conselho de Administração da Petrobras, levando para a maior empresa do país a visão de quem conhece, na prática, a cadeia mineral e energética – e sabe que reputação institucional não se terceiriza.
Outro gigante da academia é o desembargador do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), Bruno Terra Dias, cuja fala de hoje, no IHGMG, recolocou o óbvio no lugar certo: República e democracia não são temas decorativos para discurso de cerimônia. São uma arquitetura institucional que precisa ser defendida, explicada, ensinada e praticada todos os dias. Bruno não fala disso do nada. É magistrado com trajetória sólida no Judiciário, integrante da Comissão dos 150 anos do Tribunal e membro do próprio Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, atuando na preservação da memória do Judiciário mineiro e na reflexão sobre seu papel republicano.
Lição sobre democracia
Em sua brilhante palestra, ao vincular história, Justiça e democracia no mesmo ensaio, o magistrado disse o que parte do sistema de poder prefere esquecer: sem instituições estáveis, cultura jurídica séria e memória histórica, o discurso republicano desaba na primeira conveniência populista ou tirânica, como temos assistido, infelizmente, em diversos países nas últimas décadas.
Eu confesso que saio desses encontros menos impressionado com o aprendizado e mais exigente com o presente. Por isso, iniciei este texto contando sobre o episódio do estacionamento. O que poderia ser mais um dos famosos “dissabores do cotidiano”, na verdade, torna-se inaceitável diante do que homens como Coura e Bruno fazem para tornar o país mais ético e habitável. Sinto que comerciantes desonestos, além de degradarem a superfície urbana, prestam grotesco desprezo pelo esforço intelectual de acadêmicos que tentam moldar a sociedade brasileira.
Nosso estado tem a Escola de Minas. Tem o Instituto Histórico e Geográfico. Tem quadros como Fernando Coura e Bruno Terra. Não faz sentido, portanto, aceitar achaque comercial ou debate público raso. E aqui entra o alerta que fiz acima sobre ignorância. “Em política, o confronto entre verdades, consensos e fatos resolve-se em favor dos fatos, salvo quando o consenso é ideológico ou a verdade é sagrada. Diferente do conhecimento é a opinião, mera formulação a partir de uma imagem”, desfilou primorosamente o desembargador Dias.

Tempos sombrios
E continuou: “Mas imagem não é aquilo a que se refere ou que reproduz em palavras, reflexos, projeções ou materialmente; não tem sua natureza e função. A imagem, como a estátua, a pintura, a descrição verbal ou as sombras projetadas de fora para dentro de uma caverna, não é aquilo que representa. Assim é também a mera opinião, que não oferece conhecimento, apenas comodidade para quem desconhece e não se incomoda em errar.”
Por fim: “Afinal, a verdade do conhecimento ou da mera opinião pode se contrapor a fatos, e então caberá indagar: o que é mais importante, a verdade ou os fatos? Se agregarmos ideologia à verdade da opinião, os fatos pouco importarão; a opinião, não sendo verdade, e nem da verdade se originando, pretende sinceramente ser ou se aproximar da verdade — do que decorre que mesmo o fato corrente, demonstrado, cederá à verdade da opinião ou da ideologia. O conhecimento autêntico não é ideológico nem opinativo, embora possa ser imperfeito, e tenderá a não se ofender com fatos, quanto mais se aproxime da perfeição.”
Em um mundo cada vez mais digital, emburrecido e embrutecido por manchetes sensacionalistas, análises rasas, preguiça intelectual, falta de modos e de compostura, irracionalidade e selvageria social, sei que a palavra “academia” anda desgastada, associada a bolhas autorreferentes, burocracias e até certas militâncias elitistas.
Aqui é o meu lugar
Mas, quando vejo instituições e homens (no sentido de espécie, e não de gênero), que atravessam o Império, a República Velha, a ditadura, a redemocratização, os ciclos de bonança e o colapso (moral e econômico), mantendo a função de formar, registrar e pensar, sei onde quero estar:
Ao lado de quem estuda, trabalha com evidência, respeita a história, debate com mente aberta e espírito desarmado, sabe manusear o vernáculo, sorri com elegância e sustenta a democracia com conteúdo.
Esse é o recado! Quem conhece a história e domina a técnica não se ajoelha fácil – e cobra coerência de governos, empresas, juízes e, sim, também de jornalistas como eu.