Envelhecer sendo negro: as marcas do racismo na velhice

Foto: Agência Brasil

Quando o mundo nos chama de ‘tardios’, respondemos com anos de estrada: cada ruga é um diploma de resistência.

Escrevo movido por uma memória viva: minha mãe, Geralda Gomes, com mais de 70 anos, é um furacão sereno — ativa, curiosa, ponte entre gerações. Ao olhar para ela, enxergo uma verdade simples: a velhice negra não é sinônimo de fim; é capítulo de potência. Mas potência não dispensa política pública, nem nos autoriza a negar dados que pedem ação.

A Organização Mundial da Saúde já demonstrou que o idadismo, etarismo ou ageísmo (discriminação ou preconceito contra indivíduos com base na sua idade) faz adoecer e custa caro às sociedades; e quando o preconceito de idade se soma ao racismo estrutural, o impacto se multiplica. O Global Report on Ageism propõe caminhos concretos para reduzir discriminação e promover envelhecimento saudável na Década 2021–2030 — agenda que precisa reconhecer interseccionalidades raciais para funcionar.

No Brasil, estudos do IPEA mostram que idosos negros carregam desvantagens históricas em renda, escolaridade e acesso, o que se traduz em piores condições de saúde e menor expectativa de vida. Em 2024, o instituto registrou que a interseção entre raça e sexo produz diferença acentuada na idade média ao morrer; não é fatalismo: é diagnóstico para orientar prioridades. O Ministério da Saúde vem reforçando a resposta: retomou o monitoramento e lançou painéis por raça/cor para doenças e agravos, além da agenda Saúde sem Racismo, reconhecendo o racismo como determinante social da saúde. Transparência e dados públicos são um passo decisivo para corrigir rotas e treinar equipes.

Além disso, o IBGE revelou que em 2023 a expectativa de vida ao nascer no Brasil subiu para 76,4 anos, superando o patamar pré-pandemia (76,2 anos em 2019) — um ganho de 0,9 ano em relação a 2022. Para as mulheres, chegou a 79,7 anos; para os homens, 73,1 anos. Isso confirma que estamos vivendo mais — e que há um país envelhecendo com mais esperança.

No mundo, a literatura é consistente ao apontar desfechos piores para minorias étnico-raciais. O NHS Race & Health Observatory (Reino Unido) tem revisões rápidas e recomendações aplicáveis ao serviço de saúde, evidenciando desigualdades persistentes e indicando medidas de correção no cuidado e na gestão. Já a ONS demonstra que a população idosa está cada vez mais diversa, enquanto persistem diferenças salariais por etnia que atravessam o curso de vida e influenciam a velhice. Esses dados não são um epitáfio: são um mapa de intervenção.

Mas este texto não é um convite ao vitimismo. É um chamado à coragem intergeracional. Velhos negros — como minha mãe, como tantos que encontro nas quebradas, igrejas, terreiros, associações, conselhos de saúde — seguem ensinando a aprender, empreender e cuidar. Eles lideram hortas comunitárias, coordenam grupos de caminhada, preservam rezas e saberes, marcam consultas, cobram do posto, preenchem formulários digitais, anunciam que o amanhã precisa de ontem para existir. Se há um retrato fiel, é o de guerreiros e guardiãs que não pedem licença para viver bem.

O que fazer, então? Três movimentos urgentes. Primeiro, medir com lupa: metas explícitas por raça/cor nas linhas de cuidado do idoso (hipertensão, diabetes, reabilitação, saúde mental), usando os novos painéis do SUS para pactuar resultados e financiamento, município a município. Segundo, formar e responsabilizar: protocolos antirracistas na atenção primária e nos hospitais, auditorias de experiência do usuário idoso negro, escuta ativa de cuidadores e lideranças. Terceiro, cidades amigas com recorte racial: transporte, calçadas, praças e centros de convivência nos bairros onde a velhice negra mora — política urbana é política de saúde. Essas frentes conversam diretamente com as recomendações da OMS e com o acúmulo britânico de evidências para reduzir desigualdades.

Sei, pela biografia da minha família e pela experiência na gestão pública, que respeitar os mais velhos é mais que rito: é engenharia de futuro. Quando um país decide que idosos negros viverão mais e melhor, ele não presta favor — ele corrige a história e acelera o presente. Que cada ruga seja um diploma exibido com orgulho; que cada política seja um degrau de igualdade; que cada jovem aprenda com seus mais velhos que resistir é também florescer. Porque envelhecer com dignidade — especialmente para quem sempre foi empurrado para a borda — é a vitória mais bonita da democracia. Que esse compromisso nos guie: honrar a velhice negra é honrar o futuro de todos nós.

Juvenal Araújo - Administrador, Gestor Público e Palestrante. Atual Subsecretário de Direitos Humanos e Igualdade Racial do Distrito Federal, Foi Ministro Interino de Direitos Humanos, Secretário Nacional de Promoção da Igualdade Racial, Secretário Nacional de Políticas para Comunidades Tradicionais, Secretário Nacional de Políticas de Ações Afirmativas, Presidente da Presidência Pro Tempore do Brasil, na IV Reunião de Altas Autoridades sobre os Direitos dos Afrodescendentes (RAFRO).

Juvenal Araújo - Administrador, Gestor Público e Palestrante. Atual Subsecretário de Direitos Humanos e Igualdade Racial do Distrito Federal, Foi Ministro Interino de Direitos Humanos, Secretário Nacional de Promoção da Igualdade Racial, Secretário Nacional de Políticas para Comunidades Tradicionais, Secretário Nacional de Políticas de Ações Afirmativas, Presidente da Presidência Pro Tempore do Brasil, na IV Reunião de Altas Autoridades sobre os Direitos dos Afrodescendentes (RAFRO).

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