Caso eleito, Flávio Bolsonaro herdará dois mandatos incompatíveis: o que tem vendido ao mercado e o que prometeu aos eleitores. Para o primeiro grupo, sua equipe econômica tem falado em um choque fiscal significativo. Um dos seus porta vozes, Marcelo Kayath, menciona um ajuste de 1,5% do PIB, cerca de R$ 200 bilhões.¹ Segundo a Folha de S. Paulo, os outros dois assessores da campanha – Daniella Marques e Adolfo Sachsida – têm prometido, reservadamente, algo em torno de 2%, ou R$ 250 bilhões.² Sachsida afirmara no início de setembro que seria possível colocar a dívida em trajetória de queda em 18 meses.³
Para os eleitores, no entanto, o recado vai na direção contrária. Flávio garantiu que não tocará nos subsídios à Zona Franca de Manaus, uma das grandes distorções da política fiscal brasileira.⁴ Antes disso, já havia prometido ampliar o reajuste de 15% do Bolsa Família anunciado por Lula, chamando a proposta do presidente de “merreca”.⁵ Também reafirmou que manterá outros programas, como a Farmácia Popular e o BPC. Sachsida, por sua vez, prometeu “fortalecer” o funcionalismo, rechaçando cortes no serviço público, e descartou a privatização de Petrobras, Banco do Brasil e Caixa.
A matemática não fecha. A equipe diz que o ajuste virá “de dentro da máquina pública”, e as únicas parcelas grosseiramente detalhadas somam muito menos que o prometido: R$ 40 bilhões a R$ 45 bilhões com reforma administrativa e digitalização; R$ 20 bilhões a R$ 25 bilhões com combate a fraudes; e de R$ 10 bilhões a R$ 15 bilhões com gestão patrimonial. Isso dá algo entre R$ 70 bilhões e R$ 85 bilhões, menos da metade do alvo – e mesmo essa conta depende de uma reforma administrativa cujo desenho a campanha não apresentou.
O resto teria de vir de onde Flávio garante que não virá: Previdência, BPC, pisos de saúde e educação, ou os demais subsídios que o candidato tem prometido preservar. Some-se a isso a promessa de reduzir impostos, por exemplo o IOF, que comprimiria a receita, tornando o ajuste ainda menos crível.⁶
O afago ao eleitor e o aceno ao mercado representam uma contradição flagrante. A ambiguidade pode até ser engenhosa como tática eleitoral (ainda que problemática do ponto de vista democrático), mas deve cobrar seu preço depois: um candidato que prometeu tudo a todos chega ao governo com legitimidade para muito pouco.
A responsabilidade, vale notar, não é apenas de Flávio. O mercado financeiro brasileiro, sempre em busca de um salvador, parece ter uma tolerância enorme com o autoengano. Sob Paulo Guedes, aceitou que medidas políticas de qualidade rasteira – como o calote nos precatórios, as promessas vazias de privatização, ou a tentativa de emplacar o indigente conceito de “PIB privado” para justificar o baixo crescimento – fossem relevadas sem as merecidas críticas. Enviou ao bolsonarismo o sinal de que o sarrafo é baixo, e de que acenos retóricos, ainda que descolados das evidências, bastam para garantir seu apoio.
O resultado é que a campanha, que parece não ter mesmo um plano particularmente coerente, também não tem incentivo para apresentar algum. Por que expor o tamanho do desafio e arcar com o custo político de administrá-lo, se a bolsa já disparou quase oito por cento num dia?