Fazes o que deves e esteja no que fazes

Foto: Agência Brasil

O celular vibra. Uma notificação. Depois outra. E mais uma. O grupo da família, o da empresa, o dos amigos. A mensagem que precisa de resposta “urgente”. Uma ligação só para você ver a pergunta. Um amigo com aquela pergunta que poderia esperar até amanhã. O convite para um evento. Fotos da família, do fundo do baú.

Vivemos sob a tirania do WhatsApp. A expectativa das respostas imediatas tornou-se uma das maiores fontes de ansiedade. Aquelas dezenas de janelas não respondidas causam uma angústia quase física. O “visto por último” nos expõe. Os dois tiques azuis nos cobram. E assim, fragmentamos nossa atenção em centenas de pequenos pedaços, tentando estar presentes em todos os lugares ao mesmo tempo, respondendo a todos, imediatamente.

A hiperconectividade nos consome. Como estar verdadeiramente presente quando somos constantemente puxados para longe do momento atual? Como dar atenção plena a uma tarefa quando o próximo “ping” pode chegar a qualquer instante?

Vivemos hiperconectados, mas desconectados do essencial. Estamos com a família, mas no celular. No trabalho, pensando no fim de semana. Na mesa, mas sem conversa. A sensação é de estarmos em todos os lugares — e, ao mesmo tempo, em lugar nenhum.

Para o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, essa rotina acelerada provoca um esvaziamento interior. “A sociedade do cansaço nos afasta da essência, impede de refletir, de estar presente e nos priva do prazer das coisas simples”, escreve.

Diante desse cenário, a frase de São Josemaría Escrivá, “Fazes o que deves e esteja no que fazes”, oferece uma resposta prática à crise de sentido que marca o nosso tempo.

A ideia de “fazer o que se deve” está longe de ser moralismo. Trata-se de reconhecer que há um sentido maior na vida — e que esse sentido não gira em torno apenas da vontade individual.

O dever, nesse contexto, é uma forma concreta de amor. Está nas pequenas ações do dia a dia: cuidar dos filhos, ser honesto mesmo sem reconhecimento, defender a verdade apesar do custo.

Sem esse senso de dever, o trabalho perde dignidade, a política se torna vaidade e a cultura se esvazia. Com ele, a vida ganha direção. Ninguém é feliz vivendo apenas para si.

Mas a proposta de Escrivá é dupla. Além de fazer o que se deve, é preciso “estar no que se faz”. Ou seja, viver com presença. Estar inteiro em cada momento. Algo cada vez mais raro.

Byung-Chul Han aponta o paradoxo: “Estamos constantemente conectados, mas cada vez mais desconectados de nós mesmos e dos outros.”

Estar presente é um desafio: jantar sem checar o celular, ouvir alguém numa reunião com atenção real, trabalhar com foco e respeito. Não se trata de romantismo, mas de recuperar a capacidade de atenção como ato de amor.

O princípio vale para qualquer profissão: professores, agricultores, médicos, empresários, políticos. Todo trabalho é serviço ao bem comum — ou deveria ser.

Acredito profundamente que cada um de nós pode viver um verdadeiro sacerdócio em sua profissão. Este é o convite: que transformemos nosso trabalho diário, seja ele qual for, em uma missão de serviço realizada com excelência. O advogado que defende a justiça com integridade, a enfermeira que cuida com compaixão, o empresário que cria valor genuíno para a sociedade, o professor que forma cidadãos críticos e conscientes – todos podem exercer um “sacerdócio profissional” quando enxergam sua ocupação não apenas como meio de sustento, mas como vocação e contribuição ao bem maior.

Reduzir a atividade profissional à busca por lucro ou status é esvaziar seu sentido. Quando feita com responsabilidade, qualquer tarefa vira construção social. O modo como vivemos — inclusive de forma privada — afeta a coletividade.

Vivemos fragmentados: um “eu” no trabalho, outro em casa, outro nas redes sociais. Essa divisão mina a verdade interior. A proposta é de unidade: agir com coerência em todas as esferas — na fé, na política, no lar, no cotidiano.

Não se trata de buscar heróis perfeitos. Mas de cidadãos dispostos a servir ao bem comum, com seriedade, consciência e fé.

O mundo precisa de presença. De inteireza. De compromisso. A pergunta que fica: em qual parte da vida você precisa voltar a estar inteiro?

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