Memória sob tempestade: patrimônio e resiliência climática

Foto: Agência Brasil

As emissões de gases de efeito estufa formam uma espécie de cobertor invisível que envolve a Terra, retendo o calor que deveria se dissipar no espaço. O efeito é um planeta em aquecimento acelerado, marcado por secas prolongadas, enchentes devastadoras, elevação do nível do mar e uma sucessão de eventos climáticos extremos sem precedentes. Não se trata de uma ameaça distante: os impactos já se fazem sentir em todos os continentes, afetando ecossistemas, economias e, de forma cada vez mais evidente, o patrimônio cultural que guarda a memória das sociedades.

As emissões de gases que provocam o efeito estufa funcionam como uma espécie de manto invisível ao redor do planeta, retendo o calor que, naturalmente, deveria se dispersar no espaço. Isso tem acelerado o aquecimento global, trazendo consigo um cenário de secas prolongadas, enchentes cada vez mais graves, elevação dos oceanos e uma sequência crescente de eventos climáticos extremos. Esses efeitos não são mais previsões, já que fazem parte da realidade atual em todos os continentes, com impacto direto sobre ecossistemas, economias e sobre o patrimônio cultural que resguarda a memória das civilizações.

Dentro desse contexto, ganha destaque a 30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP30), que ocorrerá em Belém, no Brasil, em novembro de 2025. Ao longo do tempo, a COP se consolidou como um espaço essencial para debater soluções e estabelecer compromissos que visam reduzir as emissões e enfrentar a emergência climática. Para países como o Brasil, representa também a chance de equilibrar crescimento social com responsabilidade ambiental. 

A discussão sobre como as cidades e o patrimônio cultural se relacionam com essas mudanças se intensifica em eventos como a 14ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, com o tema “Extremos: arquiteturas para um mundo quente”. A bienal, programada entre 18 de setembro e 19 de outubro, incentiva uma reflexão profunda sobre como criar cidades mais resilientes, preparadas para lidar com as transformações impostas pelo clima.

Em Minas Gerais, essa conversa ganha contornos específicos. O estado reúne desde cidades históricas até centros urbanos em rápida expansão, todos vulneráveis às variações climáticas. Estruturas antigas construídas com adobe, taipa e madeira — materiais sensíveis à umidade e ao tempo — correm sérios riscos com as chuvas intensas e os períodos de estiagem. Entre 2017 e 2024, dezenas de cidades mineiras enfrentaram emergências em função das chuvas, segundo boletins da Defesa Civil. Isso evidencia a vulnerabilidade do território e do acervo cultural que abriga.

Diante desse cenário, o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA-MG) criou, em 2025, um grupo de trabalho voltado à preservação sustentável do patrimônio frente às mudanças climáticas. A ideia é prevenir ao invés de remediar, com ações como monitoramento de riscos, capacitação de profissionais e comunidades, produção de materiais técnicos e parcerias com outras instituições. 

A proposta central é a conservação preventiva: agir antes que os danos se tornem irreversíveis. Essa prática diminui custos, prolonga a vida útil dos bens e mantém viva a memória coletiva. Problemas aparentemente pequenos, como infiltrações ou ferrugem, podem sinalizar danos estruturais mais graves. Atitudes simples, como limpar calhas, revisar telhados antes das chuvas e manter os sistemas de drenagem funcionando, fazem uma grande diferença.

Além disso, o cuidado com o patrimônio é uma forma de educação. Ele aproxima as pessoas, valoriza saberes locais e estimula a adoção de práticas sustentáveis. Conservar não se resume a proteger paredes antigas, mas a manter viva a cultura que elas representam. É uma forma de garantir que as próximas gerações também possam conhecer e se reconhecer nesses espaços.

A conservação preventiva envolve ações contínuas de manutenção e monitoramento para evitar o surgimento de danos e o desgaste dos materiais. É uma estratégia eficiente, pois atua antes que os problemas se agravem o que, no caso do patrimônio histórico, pode levar a perdas irreparáveis.

Entre os maiores vilões das construções antigas estão as chamadas patologias construtivas: fissuras, trincas e infiltrações que comprometem tanto a estrutura quanto a estética e funcionalidade. Acompanhá-las e verificar alterações pode ajudar a identificar a evolução do dano e, assim, buscar ajuda profissional antes que a situação piore.

A umidade também é um desafio constante, pois causa manchas, fungos e até o descolamento de materiais. Em muitos casos, os problemas se intensificam devido a práticas inadequadas, como lavar paredes com jatos d’água. Simples cuidados como ventilar os ambientes, manter calhas limpas e revisar o telhado ajudam bastante.

Estruturas metálicas merecem atenção especial, já que ferrugem e oxidação enfraquecem os elementos de sustentação. Manter a pintura em dia, usar proteção adequada e aplicar lubrificantes são formas de preservar essas partes da construção.

Até mesmo a pintura externa tem papel importante. Pinturas desgastadas, aplicadas incorretamente ou danificadas pelo atrito podem ser evitadas com escolhas certas de materiais e cuidados na aplicação.

Quando se trata de azulejos antigos ou mosaicos, a limpeza deve ser feita com cuidado, usando materiais apropriados e evitando produtos químicos agressivos. E sempre que for necessário intervir de forma mais profunda, é essencial contar com orientação técnica especializada.

Por fim, qualquer modificação em imóveis protegidos por lei deve passar por análise do órgão responsável. Isso não é um obstáculo, mas uma forma de garantir que as intervenções respeitem os princípios da preservação.

Em tempos de crise climática e transformações aceleradas, conservar é uma forma de resistência e um ato de esperança em um futuro mais consciente, conectado com o passado.

Leia também:

Quando a cor da pele vira fator de risco no Brasil

Tarifas de gás têm margem para cair 70% e tirar do papel gasoduto de Uberaba e fábrica de fertilizantes

Ex-prefeito de Ipatinga é condenado por terceirização ilegal de serviço público

Veja os Stories em @OFatorOficial. Acesse