Foi a inquietude de um amigo-irmão, Márcio Lamas, que me trouxe um espelho antigo como quem traz um copo de prova ao nariz de alguém distraído. Márcio tem dessas artes: mexe com tempo, com silêncio e com fogo, e chama isso de destilar. Na destilaria dele, o que é bruto aprende a virar essência, e o que é pressa perde o gosto.
Num desses dias em que a vida parece pedir explicações, ele me enviou um link, daqueles que chegam sem alarde e ficam fazendo barulho por dentro. Ali, uma provocação atribuída a Chuang Tzu volta a passar diante dos nossos olhos como se fosse nova: a árvore torta, por não servir, dura. A árvore reta, por servir, vira madeira. E eu senti a pergunta crescer como quem abre uma janela dentro da casa.
A árvore reta impressiona. Tem porte, tem destino, tem utilidade. O carpinteiro passa a mão nela e já vê viga, assoalho, móvel de respeito. Ela serve. E a gente aprendeu cedo que servir é bom, é certo, é o caminho. Ser reto. Ser ajustado. Ser exatamente o que esperam. A gente endireita a alma na marra, esconde os nós, lixa as arestas, verniz por cima. Fica bonito. Fica liso. Fica pronto para o uso.
Mas tem uma pergunta que insiste, fina que nem gilete: quando você se ajeita demais, quem é que ganha com isso?
Porque a árvore reta, vista de perto, tem algo de trágico. Ela é reta porque já aceitou. Já se entregou. Já fez as pazes com o machado antes mesmo dele chegar. Ela é ideal para a obra, para o acabamento, para o caixão que um dia vai fechar com delicadeza tudo o que a gente não teve coragem de ser.
A torta, não. A torta atrapalha. Tem curva, tem cicatriz, tem um jeito que desorganiza o olhar do carpinteiro. Ele passa, resmunga, segue em frente. Não vale o esforço. Não rende dinheiro. Não serve. E é justamente aí que ela escapa. Fica. Dá sombra. Ampara pássaro. Aguenta vento. O que chamam de defeito é, na verdade, um pacto silencioso com a vida. O nó que atrapalha é o nó que segura.
Passei dias com isso na cabeça. Lembrava do Márcio, do alambique, do fogo lento. Lembrava de mim, tentando endireitar o que em mim sempre foi torto, chamando de esforço o que talvez fosse violência. E veio uma vontade estranha de pedir perdão. Não a Deus, não aos outros. A mim mesmo. Pelas vezes que tentei ser reto sendo torto. Pelas vezes que chamei de problema o que era apenas jeito.
Conheço aquelas palavras da filosofia havaiana que viraram moda: sinto muito, me perdoe, eu te amo, sou grato. Já li em post de Instagram, já vi em caneca de café. Mas ali, naquela inquietação, elas pararam de ser frase feita. Viraram faxina. Como quem tira móvel velho de dentro de casa para ver se o chão ainda existe. Como quem varre o excesso de personagem que a gente inventou para agradar plateia que nem sempre estava lá.
Sinceridade, quando vem, costuma doer um pouco antes de aliviar.
E a pergunta que ficou não tem resposta fácil, mas tem jeito de ser feita: de quais exigências você está pronto para se desculpar com você mesmo? Que papel você representou por anos, só para não decepcionar quem? E se as suas curvas forem, na verdade, a sua forma de resistir ao corte?
No alambique da alma, o que vale não é só o que você produz. É o que você preserva. O que não se vende. O que não cabe em currículo. O que não vira consumo. São as teimosias, os erros sinceros, as esquisitices, que às vezes salvam a gente da serraria do dia a dia. Sobreviver, às vezes, exige uma pequena desobediência à geometria do mundo.
O Márcio entende disso. Por isso mexe com fogo lento, com tempo, com silêncio. Por isso me mandou aquele link. Não para me dar resposta, mas para me lembrar da pergunta. E a pergunta, no fim, não é quanto você entregou hoje, nem quantos aplausos acumulou, nem se foi impecável. A pergunta é mais desconfortável e mais verdadeira: quanto de você ainda resta que não pode ser comprado, usado e descartado?
O que em você continua torto, não por rebeldia, mas por fidelidade ao que é?
A árvore torta, pelo visto, ainda está lá. Fazendo sombra. Insistindo em durar. E a reta, tão elogiada, já deve ter virado pó no chão de alguma fábrica, de algum escritório, de algum tribunal íntimo onde a gente se julga sem direito a defesa.
E se for assim, talvez valha perguntar, sem pressa: onde, exatamente, você tem se deixado cortar para ser aceito? E o que aconteceria se, por um instante, você se permitisse apenas… permanecer?