Há quem descarte uma xícara ao primeiro trincado, como se a fissura lhe roubasse a serventia e a beleza. Da mesma forma, há quem tema ver na própria pele os sinais do tempo, por achar que envelhecer seja uma perda e não uma consequência natural de existir. Cercados por uma cultura que idolatra o intacto, desconsideramos que são as marcas que revelam histórias, memórias e verdade.
Mas há, do outro lado do mundo, uma sabedoria antiga que pensa diferente. Os japoneses lhe deram o nome de Kintsugi: a arte de restaurar cerâmicas quebradas com laca misturada a pó de ouro. O que, para nós, pareceria defeito a ser disfarçado, ali se transforma em linha de brilho. A fratura não é escondida, é sublinhada. E a cicatriz não é motivo de vergonha, mas justamente o lugar onde a beleza reaparece.
A peça quebrada, depois do Kintsugi, já não volta a ser o que era. E essa é a magia, porque ninguém volta ao que era depois das fissuras da alma. A vida, nesse sentido, não é oficina de reposição, mas sim ateliê de renovação.
Talvez por isso o Kintsugi seja mais do que uma técnica. É uma filosofia que nos ensina a não esconder nossas rupturas, a não tertanta pressa em parecer inteiro. Há belezas que só aparecem depois do abalo, assim como há luzes que preferem morar nas frestas.
Isso também me faz pensar no Wabi-Sabi, esse modo japonês de olhar o mundo com ternura diante do imperfeito, do incompleto e do transitório. Uma tigela gasta pelo uso ou um tecido desbotado de tantas mãos carrega uma singularidade que o novo, às vezes, desconhece. O Wabi-Sabi não lamenta o desgaste, mas o acolhe. Sabe que o tempo não estraga, o tempo escreve.
Nós, porém, desaprendemos a ler essas escritas. Queremos esconder as trincas dos objetos e as nossas. Cobrimos com tinta as paredes rachadas da casa e com sorrisos treinados as rachaduras do coração. Pedimos desculpas por nossa tristeza, por nosso cansaço, por nossa vulnerabilidade, como se fôssemos mercadorias avariadas na vitrine do mundo.
As pessoas mais belas não são as sem fraturas, são as remendadas com coragem. Nelas há uma serenidade que só os tombos ensinam. Um modo mais leve de observar, uma paciência nascida da própria dor, uma doçura de quem conhece a precariedade das coisas. Gente que já se partiu em algum lugar e, em vez de negar o estilhaço, aprendeu a apreciar a restauração.
E a grande sabedoria é justamente deixar de desejar a perfeição das porcelanas de vitrine e aceitar a dignidade das tigelas reparadas. Compreender que viver é arriscar-se a lascar. E continuar, ainda assim, fazendo um novo desenho.
O ouro do Kintsugi não apaga a violência da queda, não finge que nada aconteceu. Ao contrário, ele diz o que aconteceu, e que, apesar disso, a peça permanece inteira. Nunca a mesma, mas talvez mais segura e verdadeira, porque agora carrega a memória de sua travessia.
Penso que a alma humana também deveria ser restaurada assim: com cuidado, com carinho, com tempo e com ouro. Não o ouro das joias, mas esse ouro invisível de que são feitos o afeto, a escuta, a paciência, o perdão. Tem pessoas que são artesãs desse invisível, pois recolhem nossos cacos sem pressa, encostam uma parte na outra, respeitam nossas fendas e nos devolvem a possibilidade de forma. Depois delas, continuamos rachados, mas de um jeito bem mais luminoso.
O que a vida nos mostra é que depois da queda, sempre é possível encontrar um modo de resplandecer. As coisas quebradas, quando reparadas com amor, contam histórias que as intactas não sabem contar. E as cicatrizes, quando deixam de ser escondidas, mostram o nosso verdadeiro valor e se tornam o nosso ouro.