Há uma hora da madrugada em que o espelho não mente. A luz é fria, o rosto cansado, e não há disfarce que nos salve. É quando a alma, acuada, confessa o que passou o dia inteiro negando: a vontade de ir embora. Mas ir pra onde, se o cansaço é de si mesmo? Toda fuga é apenas um retorno com outra roupa.
Inventamos destinos para o alívio. Pasárgada, por exemplo — antiga cidade persa e metáfora eterna da fuga. O poeta fez dela uma pátria íntima, um refúgio onde o “eu” enfim respiraria sem culpa. Mas essa Pasárgada, a verdadeira, não está nas ruínas do Irã: está nas ruínas de dentro. Cada promessa de recomeço é só uma tentativa de mudar de disfarce, acreditando que o asfalto entende de salvação.
Dentro de cada um há um condomínio de afetos mal resolvidos. Sete moradores dividem o mesmo teto e nenhuma harmonia. A Preguiça vive em férias permanentes. A Inveja, vigilante, compara a vida alheia. A Gula abre a geladeira em busca de consolo. A Ira grita no trânsito. A Luxúria, envergonhada, finge não morar ali. A Avareza mede o amor em trocos. E a Soberba — sempre altiva — finge não conhecer ninguém. O síndico desse prédio somos nós, e fingimos que não há reunião marcada.
Talvez por isso o silêncio incomode tanto. Silêncio demais denuncia rachaduras. E então corremos para o ruído: o celular, as notícias, qualquer coisa que nos distraia de nós. É o modo moderno de fugir da portaria interior. Mas quem foge de si, apenas troca de labirinto.
Li outro dia sobre um japonês chamado Shoji Morimoto, que se aluga para “não fazer nada”. Ele acompanha pessoas sem aconselhar, sem corrigir, apenas presente. E percebi: o que ele oferece não é indiferença, é misericórdia. Porque há presenças que curam justamente por não exigir explicação. Ser testemunhado é, muitas vezes, o suficiente para continuar existindo.
O que Shoji nos devolve é um espelho sem julgamento. Um espaço em que é possível ser sem precisar provar nada. O verdadeiro luxo não é ser admirado — é ser compreendido na própria fragilidade. Talvez Pasárgada seja exatamente isso: um lugar onde o perdão chega antes da culpa. Um território onde o erro pode descansar.
Fugimos de nós com heroísmo. Culpamos o tempo, o outro, o acaso. Mas o que nos exaure é a guerra entre o personagem e o ser. Trocamos de cidade, de fé, de cenário — mas o síndico continua o mesmo, tentando conter os vazamentos do próprio coração. E a ata dessa assembleia interior, invariavelmente, termina em branco.
Se o reino é interno, quem guarda suas fronteiras? Quem concede visto à alegria? Quem decide o que entra e o que deve ser deportado da alma? Talvez o trono esteja vazio porque temos medo de sentar. Reinar sobre si mesmo é o ofício mais árduo — e o único que não se pode delegar.
No fim, a grande viagem nunca foi para longe. É um passo breve, quase invisível, que atravessa o vão entre o que somos e o que fingimos ser. A porta está sempre aberta, mas poucos entram. Do outro lado, não há país nem milagre — há apenas nós, inteiros, desarmados, humanos. E talvez seja esse o destino final de toda fuga: descobrir que Pasárgada, afinal, sempre esteve dentro.