O sabiá, o instante e a pressa

Talvez a resposta não esteja em grandes teorias, mas nos gestos mais antigos: na amizade que não pede nada em troca
Foto: João Marcos Rosa/Fundação Biodiversitas

Há versos que moram em nós, quase como um DNA da alma brasileira. Quem nunca se sentiu um pouco exilado ao lembrar de Gonçalves Dias, suspirando que “As aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá“? Esse lamento é mais que saudade da terra; é a constatação de que certos tempos e lugares têm uma melodia que parece se perder para sempre.

Do outro lado, quase como um contraponto, nosso saudoso Fernando Sabino nos sopra uma verdade urgente: “O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem“. Ele nos convida a guardar o relógio e a viver pela métrica da alma, a buscar o brilho do momento, não sua duração.

Onde o poeta nostálgico e o cronista mineiro do instante se encontram? Talvez no carrossel acelerado de nossas vidas. A sensação de que “hoje meu filho, ontem eu” não é apenas sobre o tempo que voa; é sobre a velocidade que parece nos roubar a essência. Será que a nostalgia pelo canto do sabiá “de lá” nasce justamente porque não conseguimos viver a intensidade do “aqui” que Sabino propõe?

Tic Tac dos anos

Vivemos uma inquietação silenciosa, passada de geração em geração. Transformamos a infância numa corrida para o futuro e a vida adulta numa performance exaustiva.

Carregamos uma bandeira de expectativas imensas sobre o que queremos do mundo – sucesso, felicidade, reconhecimento, mas talvez ofereçamos pouco em troca. E nesse descompasso, surge um vazio, uma crise existencial que não escolhe classe social ou endereço.

Quando as respostas sobre o propósito de nossa jornada se calam, muitos abraçam a conclusão mais fácil e desoladora: a de que não há propósito algum. “Se a vida é um acaso, que nos reste o gozo do momento“, diz essa mentalidade. Formamos especialistas em acelerar, mas esquecemos de ensinar a perguntar se o destino vale a pena. De que adianta tanto progresso se nos sentimos cada vez mais isolados e sem rumo?

Entre amigos

É aqui que a poesia e a crônica se reencontram. A saudade da palmeira onde cantava o sabiá não é um convite para voltar a um passado que não existe mais. É um lembrete de que a vida precisa de raízes, de um “lugar” de significado. E celebrar o instante, como queria Sabino, não é um chamado à frivolidade, mas um apelo para encontrar profundidade no agora.

E onde achar essa profundidade hoje? Talvez a resposta não esteja em grandes teorias, mas nos gestos mais antigos: na amizade que não pede nada em troca, na solidariedade que nos conecta. Talvez o sentido da vida não seja algo a ser descoberto sozinho, mas algo a ser construído com o outro.

Fica a reflexão: o que cantam os sabiás da sua geração? Você tem parado para ouvi-los? Ou a urgência dos dias transformou todas as melodias em ruído de fundo? Talvez a canção que realmente importa – intensa, inesquecível – só possa ser ouvida no silêncio compartilhado de uma amizade, no calor de uma mão estendida que nos lembra de que não estamos correndo sozinhos.

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