A navegação reabriu a conversa — não a encerra. Ela nos obriga a responder: como ler a Pampulha hoje, mantendo legível um sítio que a cidade ama e o mundo reconheceu? O momento é favorável (arrefeceu a pressão pela verticalização), mas exige nitidez e disciplina para não repetirmos velhos descuidos.
De onde falo: escrevo como quem presidiu e coordenou, a partir de 2012, a Comissão de Elevação da Candidatura da Pampulha, ao lado do prefeito Marcio Lacerda, que comandou a articulação política-institucional que reuniu PBH, IEPHA/MG, IPHAN e Itamaraty, com acompanhamento da UNESCO e o apoio de universidades, técnicos, setor cultural e sociedade civil. Quando essa gramática aparece, a Pampulha se explica; quando some, multiplicam-se versões — e o visitante paga a conta.
Método, não manifesto
O que deu certo entre 2012 e 2016 foi sintonia fina e verificável: medir → decidir → comunicar → reavaliar. Sem isso, perde-se mais do que um título; perde-se a legibilidade do lugar.
O básico que falta — e o risco do vazio
Há um sintoma eloquente: em toda a capital não há uma única placa de trânsito que diga “Pampulha – Patrimônio Mundial UNESCO”. Onde o básico falta, corre-se o risco do vazio. Sinalização é alfabetização do olhar: pórticos que anunciem o sítio, placas e setas até o circuito, mapas “você está aqui”, mirantes nomeados e pontos de leitura nos quatro marcos (MAP, Casa do Baile, Iate e Igreja). Quando existem, a visita vira aula pública; quando não, a cidade desapresenta o que tem de melhor.
História que guia (conhecimento aplicado)
Nos anos 1940, Juscelino Kubitschek encomenda a Oscar Niemeyer o conjunto à beira da lagoa: o antigo Cassino (hoje MAP), a Casa do Baile, o Iate-Golfe Clube e a Igreja de São Francisco de Assis. A engenharia é de Joaquim Cardozo; os jardins, de Roberto Burle Marx; as pinturas, de Cândido Portinari; os mosaicos, de Paulo Werneck. A gramática moderna brasileira — curva, cor, jardim e audácia — se compreende em movimento. BH ainda costura um arco raro: a primeira e a última obra sacra de Niemeyer — da Igreja da Pampulha à Catedral Cristo Rei.
O barco que fala (e se contém)
Se navegar é interpretar, a embarcação deve falar a língua da Pampulha — e ser ornamento, não protagonista. Desenho silencioso e cortês: baixo calado, propulsão elétrica, perfil discreto, capota leve que projete sombra sem bloquear o horizonte. Linhas suaves em diálogo com a gramática curva de Niemeyer; sugestões (não literalidades) dos grafismos de Burle Marx; um acento cromático que evoque, com sobriedade, os azuis de Portinari. Materiais honestos (madeira tratada, metal claro, tecidos neutros), guarda-corpos delicados, iluminação baixa e sem estridência. O barco ornamenta porque se contém; fala porque aponta — um pequeno texto flutuante a serviço do que está em volta.
Anúncios que ensinam (e destravam pautas)
Em vez de “liberar x proibir”, há publicidade indutora: a peça organiza a atenção, sugere micro-roteiros por terra e água, convida a condutas gentis (zonas de silêncio, atenção às aves, respeito ao morador), conecta por QR a conteúdos interpretativos e dedica pequena fração do espaço a mensagens educativas. Assim, destrava pautas paradas (sinalização, educação patrimonial, convivência na orla) e confirma o óbvio: todos querem a mesma coisa — a Pampulha bem cuidada, amada e simbólica.
Compromissos que continuam (e cobram continuidade)
Cumprir o pactuado é regra de ouro. Permanecem pendentes ou intermitentes:
- Zona de amortecimento coerente com o valor do sítio;
- Plano de gestão vivo, com indicadores públicos e estáveis;
- Governança metropolitana (a bacia não é só BH);
- Parâmetros previsíveis para qualidade da água e capacidade de carga (gente, ruído, fauna);
- Recomposição serena de anexos não originais que turvam a leitura autoral (caso do Iate Tênis Clube).
Dois imperativos de 2016 seguem atuais: concessão da orla (padrão único de serviços, manutenção, sinalização, acolhimento) e museu do sítio (a casa da interpretação por terra e água). Sem interpretação, colecionam-se imagens; com interpretação, constrói-se entendimento.
Iniciativa privada: valor disperso que ainda não aparece
Há energia e investimento na orla — hotelaria, gastronomia, cafés, experiências criativas —, mas não há integração. Resultado: valor real não vira valor percebido. Onde a iniciativa privada caminha cada uma por si, surgem quatro fricções clássicas:
- Mensagem fragmentada — a marca “Pampulha” se dilui;
- Calendários desalinhados — picos e vales de público, sem previsibilidade;
- Acolhimento desigual — lacunas de bilíngue, informação interpretativa e sinalização interna;
- Experiências desconexas — o visitante monta um quebra-cabeça, em vez de viver um percurso.
Quando poder público e empreendedores se reconhecem no mesmo enunciado, o efeito é imediato: tempo de permanência cresce, gasto médio melhora, fluxos se distribuem, conflitos caem. Não é “plano mirabolante”: é coerência de voz, calendário compartilhado e padrões de atendimento e informação que falem Pampulha — com memorabilia gentis (postais, bilhete-mapa, marca-página, carimbo do percurso, guia de bolso, miniaturas comedidas) prolongando a visita e fazendo circular a reputação da cidade.
Belo Horizonte: turismo cultural é transversal
Turismo cultural, em BH, não cabe numa pasta só. É eixo que atravessa Cultura e Turismo — e alcança Mobilidade, Meio Ambiente, Educação, Segurança e Desenvolvimento Econômico. Quando a transversalidade funciona, a cidade fala com uma voz: Carnaval, festivais, museus e centros culturais, ruas pulsantes — com a Pampulha abrindo o parágrafo como emblema mais internacional. Não é campanha; é política de reputação: linguagem clara, roteiros inteligíveis, códigos de convivência simples e presença digital consequente.
Minas na dianteira (e responsabilidade à altura)
Há anos, o turismo cultural puxa a fila nacional; Minas Gerais lidera junto com São Paulo e viveu períodos de liderança total, inédita e histórica. Some-se o lastro objetivo: uma fatia muito expressiva do patrimônio protegido brasileiro — cerca de 62% — está em Minas, e muito dele em Belo Horizonte. A tradução é direta: a Pampulha é potência de desenvolvimento e gesto contínuo de internacionalização da capital.
Chamado cordial (com nomes e memória)
Este é um artigo crítico — leve no tom, firme no conteúdo. Navegação abre o debate; a cidade inteira o resolve. Refaçamos a mesa generosa que funcionou: PBH, IEPHA/MG, IPHAN e Itamaraty, sob a guarda da UNESCO, comigo na presidência da Comissão e com o prefeito Márcio Lacerda na condução da articulação que integrou esforços — e com Ângela Gutierrez, Jurema Machado e tantos colaboradores e pensadores da Pampulha — como em 2016 — ajudando a mostrar o caminho e a costurar sociedade civil, universidades, guias, museus, hotelaria, gastronomia e vizinhança.
Linha de chegada (e de partida)
Sem cumprir o combinado, perde-se mais do que um título. Perde-se a leitura compartilhada da Pampulha. O método é conhecido: sinalizar para alfabetizar o olhar; interpretar para dar sentido; comunicar para formar público; integrar para governar. O título fica como lembrete e compromisso — inclusive da articulação iniciada com o prefeito Marcio Lacerda, ao meu lado na construção dessa candidatura: navegar é interpretar — e integrar é o mínimo.