Enquanto milhões de brasileiros enfrentam a fome, o desemprego e a precariedade dos serviços públicos, a política nacional muitas vezes se transforma em um ringue. O país convive com desigualdades históricas, famílias inteiras em insegurança alimentar, hospitais superlotados e escolas sem estrutura adequada. A violência avança nas grandes cidades e alcança áreas rurais, enquanto desastres ambientais se repetem ano após ano, evidenciando a fragilidade da prevenção e da resposta do poder público. Esses problemas exigem cooperação institucional, planejamento de longo prazo e políticas públicas consistentes. No entanto, em vez de unir esforços, boa parte da energia nacional se dispersa em disputas ideológicas estéreis, nas quais a prioridade deixa de ser resolver os problemas da população e passa a ser derrotar o adversário político.
A Constituição Federal de 1988 consagrou o pluralismo político como fundamento da República (art. 1º, V), reconhecendo que a divergência de ideias é inerente à democracia. Contudo, quando o dissenso se converte em hostilidade permanente, instala-se o que a literatura política chama de “polarização afetiva”, em que o adversário deixa de ser visto como interlocutor legítimo e passa a ser tratado como inimigo a ser eliminado. Esse fenômeno corrói a confiança nas instituições, fragiliza a governabilidade e abre espaço para retrocessos autoritários.
Um exemplo recente dessa dinâmica ocorreu em julho de 2025, quando o Supremo Tribunal Federal determinou a prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro.A decisão dividiu profundamente a sociedade: enquanto parte da população se mostrou favorável, outra parte reagiu com indignação. O episódio escancarou tensões que levaram apoiadores a reiterar a anistia aos envolvidos no 8 de janeiro, ocupando fisicamente o plenário da Câmara em protesto, enquanto outros vociferavam nesse mesmo plenário pela condenação. O embate foi tamanho que em vários momentos foram registradas cenas lamentáveis de agressões verbais e da iminência de agressões físicas. Além disso, a judicialização da política como ferramenta cotidiana intensificou a polarização, inviabilizando o diálogo, esvaziando o papel do poder legislativo e prolongando disputas em vez de priorizar a governabilidade.
Como parlamentar, testemunho essa dinâmica diariamente no Congresso Nacional. Há pressão constante para escolher um lado, para responder ao grito com outro grito, para transformar o plenário em arena. No entanto, minha escolha tem sido a de dar um passo atrás. Recuso-me a acreditar que a única forma de fazer política seja por meio do ataque pessoal ou da hostilidade. Acredito que a verdadeira força não está no volume da voz, mas na solidez dos argumentos e na capacidade de ouvir, mesmo quando discordamos. Essa não é uma postura de isenção, mas uma aposta consciente na reconstrução do diálogo.
Essa lógica de confronto não é abstrata: tem consequências devastadoras. Enquanto a energia do país se consome em disputas ideológicas, políticas essenciais para combater a fome, gerar empregos e proteger os mais vulneráveis são adiadas ou abandonadas. A governabilidade fica refém de narrativas extremas, a confiança nas instituições se desfaz e o terreno se torna perigosamente fértil para retrocessos autoritários.
Superar esse quadro exige resgatar a centralidade do diálogo republicano. O art. 37 da Constituição impõe à administração pública os princípios da eficiência, moralidade e impessoalidade, valores que só podem ser alcançados se a formulação de políticas estiver acima de disputas partidárias imediatistas. Experiências internacionais demonstram que sociedades altamente polarizadas têm menor capacidade de resposta a crises, justamente porque a cooperação entre atores políticos se torna rara. O Brasil não pode seguir por esse caminho.
O momento atual exige dos representantes eleitos e da sociedade civil uma postura de responsabilidade democrática. Não se trata de eliminar divergências, mas de restabelecer condições mínimas de confiança e cooperação. A política deve ser instrumento de solução de problemas coletivos, não um campo de guerra ideológica. Reconstruir pontes significa resgatar a essência do pacto constitucional de 1988: promover o bem de todos, sem preconceitos ou discriminações, e garantir a dignidade da pessoa humana como valor central. Somente assim o Brasil poderá escolher não lados, mas um futuro comum e sustentável.