No próximo dia 22 de setembro começa a primavera.
Ela não pede licença a ninguém. Vem no cheiro de terra molhada, na claridade que muda de repente na sala, no canto de um pássaro que parece brincar de rima com a janela. Primavera não é só estação; é uma convocação meio silenciosa, como quem diz: “anda, começa de novo”.
E crescer? Aos quinze, aos quarenta, aos oitenta? Talvez seja isso: aprender a podar. Tirar peso, liberar a seiva. Não por castigo, mas por cuidado. Uma árvore bem podada floresce. E nós também.
Abraçar uma árvore ajuda a entender isso. Quando se encosta o ouvido no tronco, percebe-se que ela fala em outro idioma: lento, profundo, paciente. Algumas carregam histórias de séculos e algumas de dois mil anos. Ali, a pressa não manda em nada. O gesto é simples, mas dá notícia de que há outros tempos em curso.
E se esse abraço fosse mais que botânico? Abraçar a árvore é ensaio para abraçar uns aos outros. O tronco devolve silêncio, mas não é vazio: é memória. E quando abraçamos alguém, acontece parecido — histórias que não se dizem em voz alta passam pelo contato.
A poesia já sabia disso. Drummond avisou que até no asfalto pode nascer flor. Cecília Meireles lembrava: “a primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome“. E ainda ensinava: “aprendi com as primaveras a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira“.
Olhe em volta: ipês amarelos em incêndios mansos, jacarandás deixando retalhos de céu no chão. Na correria não enxergamos nada. Dez minutos parados, só isso, já mudam a alma. Às vezes basta um telefonema esquecido, um pedido de perdão, um “sim” meio tímido a um projeto antigo. Primavera não é data; é jeito de olhar.
E o medo? Não precisa ser varrido. Senta, bebe água, conversa com ele. Medo jogado no porão vira fantasma. Medo ouvido vira bússola.
As palavras também são sementes. O que você anda plantando? Recomeço, cuidado, gratidão? Cada uma abre um caminho.
Nelson Rodrigues talvez dissesse: cuidado com a mentira que contamos a nós mesmos. Primavera não combina com autoengano. É excesso de luz sobre os nossos disfarces.
E se ontem deu errado? Melhor. Erro vira adubo. Tropeço ensina passo novo.
Por fim, um pacto simples: abrir a janela antes da tela, mover o corpo, estudar um pouco, escolher uma palavra-guia, proteger um intervalo do dia, fazer um bem sem ninguém saber. Pequenas coisas, mas que, repetidas, viram ritual.
Conclusão? Qualquer idade é boa para começar outra vez. Se puder, abrace uma árvore. Ou alguém. Ou os dois. Porque toda primavera é isso: presente. E presente não se guarda, se abre.