Redford para os próximos: sobre a busca de um neto e o legado de uma vocação

“O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos daquilo que fazem de nós” (Jean-Paul Sartre)
Robert Redford
Robert Redford (Foto: Roy Rochlin / FilmMagic)

Li no intervalo do café: o neto de Robert Redford pediu que fãs lhe enviassem histórias do avô(Neto de Robert Redford pede a fãs para enviarem histórias do avô pelo Instagram e recebe uma avalanche de carinho), e a enxurrada de carinho veio de todos os lados. O gesto é simples, quase doméstico; o alcance, continental. Conor Schlosser não pediu troféus: pediu lembranças. E as lembranças vieram, com fotos de família e pequenos relatos em que desconhecidos descrevem “sua” cena com Redford.

A pergunta que salta (maiêutica, daquelas que apertam) é: quando pedimos histórias de alguém, o que de fato queremos saber? Se era bom no que fazia? Se foi decente quando ninguém olhava? Se havia um fio que costurava tudo?

Essa inquietação me devolveu a um episódio caseiro: anos atrás, respondi ao questionário de dezoito perguntas do professor de História do meu segundo filho. A 14ª me fisgou: “No trabalho, a realização da sua vocação é possível? Como?”

Para responder, voltei ao latim, não por pedantismo, mas por precisão: vocação nasce de vox, vocis: voz, chamado; profissão vem de professio: declaração pública. A primeira convoca; a segunda declara, em praça pública, que você vai atender ao chamado com as mãos, o tempo e o corpo.

Chega junto, Nelson

E então a crônica pede um corte breve, direto, sem verniz, um tanto socrático, um pouco rodriguiniano: “Toda unanimidade é burra”, avisou Nelson Rodrigues.

E o aplauso? É barulho.

Vocação? Bússola.

E quando dá errado? A vocação não promete facilidade; promete sentido.

E se ninguém ligar? Vocação não é plebiscito.

Quando penso em Redford, lembro menos do brilho e mais do método: a insistência em formar gente e mundos. Sundance não é ornamento: é a prova de alguém que tomou a própria vocação a sério e a pôs a serviço dos outros; uma casa para independentes, um sistema de circulação de idéias, uma ética de trabalho de quem “declara” publicamente o ofício e, silenciosamente, o cumpre.

Naquele texto antigo, escrevi que a vocação amadurece em três aberturas: Abertura ao sentido: sem um porquê minimamente firme, qualquer vento derruba. Abertura ao outro: nenhum chamado se cumpre de costas para as pessoas. Abertura ao mundo: trabalhar é transformar realidade, não polir vaidades.

Quando esses três eixos se alinham, a profissão vira declaração pública de um compromisso íntimo.

Eternidade

Voltemos ao neto. Ele pediu “causos”. Receberá muitos, e que bom. Mas a maior história do avô talvez não caiba num bastidor de set, num autógrafo apressado ou num sorriso para a câmera. A maior história, para quem é próximo, é a do exemplo: décadas de coerência entre chamado e ofício; a disciplina que ninguém filma; a paciência de erguer, tijolo por tijolo, uma cidade para outras vozes. Isso é herança. O resto é relicário.

Socrático até o fim. Perguntas que andam, respostas que não posam: O que fica?

O que a gente dá. E o que, de Redford, se deu? Tempo. Rigor. Ternura pelo trabalho. Espaço para os outros. Um modo de servir ao chamado. Onde está a história que o neto pediu? Já está com ele. Pulsa no sangue e aponta na bússola.

Se você tem uma lembrança, conte. Mas, ao contá-la, mire menos o brilho e mais o bastidor do caráter. É ali que mora a vocação. É ela que educa os próximos, os de sangue e os de caminho.

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