Representatividade política negra: um passo essencial para a democracia brasileira

O Dia 20 de Novembro reforça a urgência de ampliar a presença negra na política e transformar representatividade em poder real
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O Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro, é mais do que um tributo à memória de Zumbi dos Palmares. É um convite para o Brasil refletir sobre o presente e o futuro da sua democracia. Afinal, um país com mais da metade de sua população composta por pessoas negras não pode continuar sendo governado, majoritariamente, por uma minoria que não reflete a diversidade da sociedade. A representatividade política negra é, portanto, uma necessidade democrática — não uma pauta identitária, mas um compromisso com a justiça e a igualdade de oportunidades.

Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), nas eleições de 2022, cerca de 48% dos candidatos se declararam negros, mas apenas 26% foram eleitos. A disparidade é evidente: mesmo sendo maioria entre os brasileiros, pessoas negras continuam minoria nas prefeituras, câmaras, assembleias e ministérios. Essa ausência não é casual — é fruto de um sistema político historicamente excludente, no qual o acesso a recursos, tempo de televisão e redes de apoio partidário costuma privilegiar as elites tradicionais.

A sub-representação negra no poder político é uma das expressões mais visíveis do racismo estrutural. Ela perpetua uma democracia desequilibrada, onde as decisões sobre saúde, educação, segurança e economia são tomadas, em sua maioria, sem o olhar de quem mais sofre as consequências das desigualdades. E quando não há representatividade, há silêncio — e o silêncio político, no Brasil, tem cor.

Ampliar a presença negra na política não é apenas uma questão de representatividade simbólica. É garantir pluralidade de ideias, experiências e perspectivas nas decisões públicas. É reconhecer que o Brasil real — diverso, plural e criativo — deve estar presente também nas mesas onde o poder é exercido. O país precisa de parlamentares, prefeitos, governadores e ministros que conheçam de perto os desafios da população negra e periférica.

A boa notícia é que essa mudança já começou a acontecer. O aumento de candidaturas negras em todo o país revela uma geração disposta a ocupar espaços e disputar poder de forma legítima e propositiva. Nomes como Benedita da Silva, Talíria Petrone, DandaraTonantzin, Orlando Silva, Helio Lopes e Renata Souza, entre outros, simbolizam um avanço importante: o de que pessoas negras podem e devem estar em todos os espectros políticos, debatendo ideias e liderando agendas.

Mas a presença ainda não é suficiente. A violência política de gênero e raça é uma realidade crescente. Relatórios do Observatório da Violência Política e Eleitoral (2023) apontam que mulheres negras são as principais vítimas de ataques, ameaças e deslegitimação pública. Esse cenário evidencia que a luta pela representatividade não termina com a eleição — ela continua dentro dos parlamentos, nas redes sociais e nas ruas.

Para mudar essa realidade, é preciso garantir condições reais de disputa. O Programa de Lideranças Negras, da Fundação Tide Setubal, tem formado e fortalecido lideranças negras em todo o país, preparando-as para atuar com competência técnica e compromisso social. Já a Coalizão Negra por Direitos, que reúne centenas de organizações, atua na incidência política direta, cobrando do Estado políticas públicas e reformas estruturais. São iniciativas que provam que representatividade não se constrói apenas com discursos, mas com investimento, formação e redes de apoio.

A política, quando é diversa, é mais eficiente. Pesquisas internacionais apontam que parlamentos com maior representatividade racial e de gênero produzem leis mais inclusivas, reduzem desigualdades e fortalecem a confiança nas instituições. No Brasil, isso significa não apenas dar voz à população negra, mas ouvir suas propostas e permitir que elas influenciem a agenda nacional.

O 20 de novembro é, portanto, um marco para repensar o que entendemos por democracia. Representar é mais do que ocupar um espaço — é transformar esse espaço em ponte entre o povo e o poder. É garantir que políticas públicas sejam desenhadas por quem conhece a realidade de quem mais precisa. É equilibrar uma balança que, por séculos, pesou contra a maioria da população.

O desafio está em transformar a consciência negra em ação política. Não basta reconhecer a importância da diversidade; é preciso institucionalizá-la. É hora de incentivar mais jovens negros e negras a enxergarem na política um caminho legítimo de transformação. É hora de os partidos abrirem espaço, investirem e apoiarem essas candidaturas. É hora de o eleitor reconhecer que, ao votar em pessoas negras, vota também por uma democracia mais justa e representativa.

O 20 de novembro é o dia de reafirmar que o Brasil só será verdadeiramente livre quando o poder refletir sua própria cara: múltipla, plural e negra. A presença negra na política não é concessão — é reparação. E mais que isso: é inteligência democrática.

Porque, no fim das contas, a democracia só se fortalece quando todos têm voz — e, principalmente, quando essas vozes são ouvidas e respeitadas.

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