Três trabalhadores, uma morte pública — e um silêncio que também mata

Quando a violência atinge corpos negros e trabalhadores, a comoção some e a normalização se instala
Foto: Leopoldo Silva/Agência Senado

Na noite em que três técnicos de internet foram sequestrados e assassinados no Subúrbio Ferroviário de Salvador, o Brasil foi confrontado com uma cena que deveria ter provocado indignação nacional imediata. Ricardo, Jackson e Patrick saíram de casa para cumprir uma jornada de trabalho e não voltaram. Eram trabalhadores negros, prestadores de serviço, pais, filhos, companheiros. Foram mortos porque o crime organizado decidiu impor seu poder sobre a rotina de quem vive do próprio esforço. Quando a violência alcança esse patamar, não se trata apenas de homicídio: trata-se da corrosão do direito básico de trabalhar e voltar para casa com vida.

O crime, por si só, é chocante. Mas o que agrava a tragédia é o silêncio seletivo que se seguiu. Houve registro jornalístico, sobretudo na imprensa local. Houve notas oficiais e palavras de repúdio. O que não houve foi a permanência do tema no debate público nacional. Não se viu uma mobilização contínua da grande mídia, nem uma reação proporcional de artistas, influenciadores e atores que, em outras situações, se colocam como guardiões da sensibilidade social. A indignação foi breve, protocolar, descartável. Como se aquela morte fosse previsível demais para merecer atenção prolongada.

Esse contraste revela um traço profundo da sociedade brasileira: a indignação tem critérios. Algumas mortes viram causa, outras viram rodapé. Algumas provocam campanhas, debates e manifestações públicas; outras são tratadas como consequência do “contexto”. Quando a vítima é um trabalhador negro da periferia, o foco se desloca rapidamente do crime para o território, do assassino para o ambiente. Surge o discurso da fatalidade, da rotina violenta, do “era questão de tempo”. Esse deslocamento não explica nada — apenas reduz o valor da vida perdida.

As consequências do assassinato não terminam no laudo pericial. Elas se instalam no cotidiano das famílias. A renda some de um dia para o outro. As contas continuam chegando. Filhos crescem sem o pai, mães enfrentam o luto junto com a insegurança financeira, companheiras precisam reconstruir a vida sem qualquer rede sólida de proteção. O trauma não é apenas emocional; é social, econômico e psicológico. E tudo isso acontece longe das câmeras, sem acolhimento público duradouro, sem campanhas, sem holofotes.

Quando se observam os dados nacionais, a tragédia deixa de ser exceção e passa a ser regra estrutural. A maioria das vítimas de homicídio no Brasil é negra. Pessoas negras estão mais expostas à violência letal, enfrentam maiores taxas de desemprego e recebem, em média, salários menores. Estão mais presentes em trabalhos precarizados, em áreas dominadas pelo crime organizado e em serviços essenciais realizados sob risco constante. Esses números não são fruto de ideologia; são estatísticas oficiais que mostram como desigualdade, ausência do Estado e violência se retroalimentam.

É nesse cenário que trabalhadores negros se tornam alvos fáceis. Prestam serviços em territórios onde o Estado não garante segurança, onde facções cobram “pedágios” e impõem regras próprias. Se algo dá errado, quem paga o preço não é o empresário distante nem o poder público ausente — é o trabalhador que está na ponta. Ainda assim, quando a tragédia acontece, a sociedade reage com indiferença resignada, como se essas mortes fossem parte natural da paisagem urbana.

A seletividade da indignação também se revela na linguagem. Quando a vítima pertence a determinados grupos sociais, fala-se em brutalidade, injustiça, choque. Quando é um trabalhador negro, fala-se em “violência urbana”, “disputa territorial”, “estatística”. A pessoa desaparece, o número permanece. Essa escolha de palavras molda consciências e autoriza o esquecimento.

Refletir sobre esse crime exige mais do que condenar facções criminosas — isso é óbvio e insuficiente. Exige reconhecer que a vida do trabalhador negro ainda vale menos no imaginário social brasileiro. Exige cobrar investigações rápidas, responsabilização exemplar e políticas reais de proteção ao trabalho em áreas vulneráveis. Exige presença contínua do Estado, e não apenas operações pontuais após o sangue derramado.

Enquanto o país continuar escolhendo quais mortes merecem luto público e quais podem ser esquecidas em poucos dias, a violência seguirá encontrando terreno fértil para se repetir. O silêncio também mata. Mata quando normaliza, quando relativiza, quando transforma tragédias humanas em ruído passageiro. Honrar a memória desses três trabalhadores significa romper com essa lógica. Significa afirmar, sem ressalvas, que nenhuma vida é descartável — e que toda morte injusta merece indignação à altura, independentemente da cor da pele, da profissão ou do bairro onde aconteceu.

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