Os mineiros querem saúde. 50,37% dizem que ela é o principal problema do estado, bem à frente da segurança (18,57%). Este é o “preditor” que aparece no Brasil inteiro como principal, mas em Minas é na Saúde que o dado é cruel: não é só falta de hospital ou UPA. É falta de olhar humano. Acolhimento. Respeito pelo tempo do outro. Zema organizou o Estado por dentro, mas não conseguiu fazê-lo aparecer por fora. A máquina parou de ranger; o cotidiano continuou duro. E eleição não premia quem equilibra contas: premia quem reorganiza expectativas.
Esse vácuo explica por que o jogo está aberto, mesmo com lideranças aparentes. No retrato mais citado do fim de 2025, Cleitinho aparece com 38%, bem à frente dos demais. E quando o cenário muda, as taxas mudam: em outra fotografia de 2025, ele chega a 40,6%, enquanto Rodrigo Pacheco aparece com 13% e Mateus Simões com 5,9%. Moral do gráfico: hoje a disputa é menos sobre “quem é melhor” e mais sobre quem ocupa melhor o sentimento que a saúde sintetiza.
Pacheco tem um problema de campanha que não se resolve com currículo: ele nacionalizou a própria atuação e, no dia a dia, Minas ficou sem o “corpo” do candidato: só sobrou o cargo. Mesmo aparecendo com 13% em cenário estimulado, a rota de crescimento dele passa por descer do Senado para a calçada: pé no chão, mão na massa, café e prosa em cada esquina. Menos Brasília como palco; mais Minas como rotina. Sem isso, ele vira “aliado de Lula” no papel, e “ausente” na memória afetiva do eleitor.
Cleitinho vai precisar virar a própria chave. Ele cresceu fazendo política da revolta: indignação, desperdício, descaso com dinheiro público. Funciona, por isso lidera com folga em alguns recortes. Mas para ganhar de verdade, ele vai ter que trocar parte do megafone por fila: mostrar atendimento aquém do que o mineiro espera, e o mineiro espera ser tratado com respeito, porque Minas é receptiva até na crítica. Se ele ficar só no barulho, vira campeão do primeiro turno e refém do segundo.
Mateus Simões e Gabriel Azevedo são o contraste que pode surpreender. Simões aparece com 9% num cenário e 5,9% noutro: e isso é o retrato do desafio: Zema foi trator; Simões precisa ser cultivo. Gestor, sim, mas com outro olhar, mais humano, mais serviço, mais “eu estou aqui”. Já Gabriel, que marca 4% em um recorte recente, pode fazer do limão uma limonada: é o único com vocação natural para o lúdico, para o semântico, para a peça bem escrita que organiza sentidos. Só que Minas não vota só em poesia: ele vai ter que provar mais “mão na massa” do que parece: senão vira o candidato que encanta quem lê e não converte quem decide.
